Histrias que no vm na Histria
Assis Cintra


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Histrias que no vm na Histria
Assis Cintra

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Histrias que no vm na Histria 

Assis Cintra 

ndice 

RAZES DO AUTOR OS AMORES DE PEDRO II A FRANCESINHA DO IMPERADOR O DUELO
DE DEODORO E BENJAMIM O PADRE ANCHIETA, ENFORCADOR O PREO DUM GENERAL A
MATANA DO QUILMETRO 65 O ALCOVITEIRO DE PEDRO I AS DUAS LINDAS
CONDESSAS OS CAMALEES DO GOVERNO A DEGOLA DOS ASPIRANTES A DEGOLA DOS
ASPIRANTES

HERIS DE PECHISBEQUE O SACRILGIO DO CONVENTO DA LAPA A LGICA DO
PORRETE A QUEDA DE UM MINISTRO AGONIA DE ME FESTANAS DE OUTRORA
PARTINDO PARA SEMPRE O MARECHAL DE FERRO ALMA HERICA DOS PAMPAS A
LITERATURA DE PEDRO I A CHACINA DE CAMPO OSRIO A CIDADE MISTERIOSA NO
TEMPO DE DOMITILA FIBRA PAULISTA O DIREITO DE GRITAR A NOBREZA DO
PRIMEIRO IMPRIO O CANCRO QUE MATOU O IMPRI LIES DE TOLERNCIA RISOS
DE AMANTE E LGRIMAS DE ESPOSA 

Razes do Autor 

Em 1920, h 8 anos, resolvi ser jornalista e viver das letras. Instalado
num quarto do tradicional "Hotel d'Oeste", de So Paulo, escrevi trs
artigos diferentes e de noite percorri trs redaes, para mim at ento
desconhecidas: a do "Estado de So Paulo", a do "Correio Paulistano" e a
do "Jornal do Comercio".

Para a primeira levei um estudo intitulado "As Mulheres de Shakespeare".
Jlio Mesquita, a quem procurei, mandou- me para o Nestor Pestana e este
me despachou para o secretrio do jornal, que ento era Amadeu Amaral.
Disse- me o afvel Amadeu:

- Agora no tenho tempo para ler o seu artigo. Eu o lerei por estes dias
e, se for bom, ser publicado. 

- Quanto o "Estado" paga pela colaborao ? - indaguei, curioso e
indiscreto.

Amadeu sorriu, num sorriso cheio de bondade, e informou: - Cincoenta mil
ris, se a colaborao for aceita e publicada. Contei- lhe os meus
projetos de aparecer pela imprensa e novamente ele sorriu, agora com a
piedade dos bons para quem vai pecar, trilhando um caminho enganoso. Em
seguida, num tom paternal, aconselhou:

- Se o senhor fosse meu amigo, eu o dissuadiria de tal intento. O
jornalismo no Brasil  uma miragem ou, se quiser, uma iluso agridoce.
Entre para esta vida de jornal, para a carreira das letras, e ver o que
 isso...

Despedi- me do bondoso e sensato Amadeu e fui ao "Correio Paulistano".
Indaguei do porteiro se o diretor do jornal ali se achava. Ele anunciou
o meu nome e falei ao Dr. Carlos de Campos. Esse poltico me mandou para
o secretrio da redao, que era o Antonio Fonseca. Estando de folga,
Fonseca tratou- me com muita delicadeza e boa vontade e indicou o
subsecretrio Wolgrand Nogueira. Abordei- o, e falei- lhe sobre o que me
levava  sua presena. Acolheu- me com simpatia, dizendo- me:

- Muito bem, moo. Vamos ver o seu artigo e se for possvel ns 

o publicaremos. - Diga- me, sr. redator secretrio, quanto o "Correio
Paulistano" paga por artigo ? - interroguei, interesseiro. 

Wolgrand Nogueira olhou- me quase com surpresa pela minha pergunta
indiscreta, sorriu e respondeu: 

- Trinta mil ris. Porm o pagamento  negcio com o gerente, no 
comigo.

Dali fui ao "Jornal do Comrcio". Procurei o secretrio Molina, e este
me mandou para o Mrio Guastini. Entrei no assunto: 

- Trago- lhe um artigo para ser publicado. Desejo entrar na vida de
imprensa.

Guastini, de maneiras aristocrticas, dando- me a idia dum fidalgo,
muito sinceramente obtemperou: - No lhe gabo o gosto. A imprensa  uma
grande e dolorosa iluso. D- me o artigo, e, se for aproveitvel, ser
publicado.

Em seguida passou os olhos pelas tiras escritas e murmurou: - Pelo
ttulo, o seu artigo chama a ateno. Heris da mentira  um bom
assunto. Boa idia para suelto, no achas,  Moacyr ? 

Moacyr Piza, que se achava presente, riu- se com aquele riso alegre e
cascateante que lhe era peculiar, e exclamou, da sua cadeira onde se
achava:

- Heris da Mentira! Que somos ns todos os jornalistas, seno uns
refinados heris da mentira ? E que so os polticos, seno uns heris
da mentira ? E que  o amor ? E que  a sabedoria ? E que  a sociedade
? mentiras, mentiras e em tudo e por tudo mentiras e sempre mentiras.
At a vida  um formidvel "blefe" que nos prega o bom Deus a todos ns
os descendentes do famigerado e peludo av Ado.

E continuou a rir. Entreguei o artigo e aventurei- me na mesma
interrogao j feita nas outras redaes: 

- E quanto os senhores pagam ? Mrio Guastini olhou- me vagarosamente e
respondeu: - Se for aceito, trinta mil ris por coluna impressa. Assim,
os meus primeiros artigos publicados foram no "Jornal do Comrcio", "Os
Heris da Mentira"; no "Correio Paulistano", o "Falso Brasileirismo"; e
no "Estado de So Paulo", o estudo sobre as

"Mulheres de Shakespeare". A est como comecei minha vida na imprensa
paulistana e na literatura. Meses depois, saiu  luz da publicidade o
meu primeiro livro, editado por Monteiro Lobato. 

O "Dirio Popular", a "Gazeta", a "Folha da Noite", o "S. PauloJornal" e
o "Dirio da Noite" tambm publicaram artigos subscritos por mim. 

Mudando- me para o Rio, fiz parte da redao do jornal carioca "O
Correio da Manh", do qual fui cronista e crtico literrio. Sa desse
jornal e passei a escrever para todos os jornais da capital da Repblica
e para diversas revistas que me pagavam 50$ 000 por artigo. 

E como me tornei redator do "Correio da Manh" ?  interessante o
relato: Fui  redao do "Correio", procurei o Dr. Leo Velloso (o
brilhante Gil Vidal) e este me indicou Edmundo Bittencourt. Contei quem
era e o que queria. Recebeu- me o formidvel jornalista com muita
bondade e delicadeza. Disse- lhe:

- Dr. Edmundo, eu vim procura- lo em seu jornal confiado apenas na sua
boa vontade, e no meu prprio esforo e merecimento. No trago
recomendaes de quem quer que seja. Experimente a minha atividade e a
minha competncia.

E o Dr. Edmundo Bittencourt bondosamente experimentou a minha
competncia e me colocou como cronista histrico, crtico literrio e
redator da seo "O que  correto", deixada por Cndido Lago, o grande
mestre da filologia patrcia.

Assim fui jornalista na Capital da Repblica, depois de o ter sido na
capital de So Paulo. 

Escrevi exclusivamente par o "Correio da Manh", durante algum tempo e
em seguida, saindo desse jornal, passei a ser colaborador a 50$ 000 por
artigo, do "Jornal do Brasil", do "O Pas", da "Gazeta de Notcias", da
"A Noite", do "O Globo", da "A Ptria", do "O Jornal", do "O Imparcial",
e das revistas, "Ilustrao Brasileira", "Para Todos", "Revista da
Semana", "Fon- Fon" e "Revista da Lngua Portuguesa". Publiquei cerca de
50 livros em oito anos, quase todos esgotados, deles havendo raros
exemplares nos "sebos", com preos

quintuplicados. Outros alcanaram vrias edies, como, por exemplo, 

Alma Brasileira, que, editada pela Companhia Melhoramentos de S. Paulo,
j atingiu cinco tiragens, de 10.000 exemplares cada uma, ou sejam,
50.000 em oito anos. Mais de dois mil artigos meus foram estampados nos
jornais de So Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, So
Salvador da Bahia, Belm do Par e Porto Alegre.

E a est como fiquei escritor nesta terra dos brasis. O jornal
argentino "La Nacin" pediu- me colaborao, que lhe mandei algumas
vezes. Para o "Excelsior", "Le Temps" e "Le Journal", de Paris, enviei
artigos, que foram publicados, o mesmo acontecendo com o "New York
Herald" e o "The World", de Nova York.

O "The Times", de Londres, estampou em 1922 um estudo que fiz sobre a
emancipao do Brasil e Lorde Canning. Naturalmente esses artigos foram
mandados em tradues.

Uma colaborao, intitulada "A Independncia", que escrevi para o
"Jornal do Comrcio", foi publicada na primeira pgina desse dirio no
dia 7 de Setembro de 1922, tendo recebido por ela um conto de ris,
quantia essa que me foi paga pelo Comendador Mattos... Penso que foi o
melhor de todos os meus artigos, naturalmente por ter sido o mais caro. 

Durante esses oito anos fiz profisso de homem de letras. Fui professor,
em S. Paulo, da Escola Normal da Capital e do Ginsio de S. Bento,
jornalista militante, escritor de dezenas de volumes, aplaudido em
crticas literrias por todos os jornais do Rio, obtendo os elogios
honrosos de notveis brasileiros do meu tempo como sejam Rui Barbosa,
Ramiz Galvo, Leo Velloso, Epitcio Pessoa, Assis Brasil e Coelho Neto.
Eu no devia, pois, maldizer essa profisso na qual militei durante
quase uma dcada. E por isso eu no a maldigo, porm dela fujo, dela me
afasto, numa consciente e necessria desero. 

Comemoro agora o oitavo natalcio da minha vida literria com estas
garatujas, que foram compradas, como sendo o meu ltimo artigo, pelo
"Dirio da Noite", do qual levei os ltimos cincoenta mil ris, ganhos
com a minha pena.

Com estas reminiscncias vai a ltima p de cal e terra no escritor
Assis Cintra.

"Resquiecat in pace", diro os diretores dos jornais, capeles 

sisudos da opinio pblica. "E que o esquecimento, que  a terra
literria, lhe seja leve", ho de murmurar os hirsutos e truculentos
sacristes da crtica e tambm os leitores disppticos. - "Amm !"
concluiro os livreiros, satisfeitos pelo desaparecimento de mais um
escrevedor. 1

E quando, em outros misteres, algum me perguntar sobre as vantagens do
jornalismo e da literatura, responderei, se estiver bem humorado, com as
palavras do bom e querido "imortal" da Academia de Letras, que  o
Amadeu Amaral, no incio da minha carreira jornalstica e literria: 

- "Literatura e jornalismo no passam de uma agridoce iluso". Porm,
estando de mau humor, exprobrarei a tolice do amigo que me falar em
letras, e repetirei o que me disse em 1920, no escritrio de Monteiro
Lobato, o saudoso, positivo e verdadeiro Martim Francisco: 

- "Moo, deixe de burrice. No Brasil ser literato  ser burro. Escrever
para quem ? Para analfabetos e para ignorantes ? Olhe, moo, no Brasil
h oitenta por cento de gente que no sabe ler. Dos vinte por cento
restante, a metade no compra livros e a outra metade os compra para
enfeitar estantes. Isto aqui  assim. Nesta terra morre de fome um
literato e enriquece em dois tempos um plantador de batatas, ou criador
de porcos.  o Brasil, meu amigo, e no se lhe pode dar remdio".

E Martim Francisco, na presena de Monteiro Lobato e do Dr. Andr
Rebouas, num pungente sarcasmo que  uma dolorosa verdade, definiu a
carreira das letras nesta imensa e famosa Terra de Santa Cruz, com esta
frase candente:

- "Mais vale no Brasil plantar batatas e criar porcos do que escrever
livros".

Pensando neste conceito sensato do saudoso neto dos ilustres Andradas da
Independncia, ponho fim na minha carreira literria, desertando do
jornalismo e das letras.

Eu quis em 1920 ser conhecido no Brasil como escritor e como jornalista,
esperando conseguir tal "desideratum" em 10 anos. No foi preciso tanto
tempo, pois de 1920 a 1928, em oito anos de ativida- 

de literria, publiquei cerca de cincoenta volumes, graas a Deus quase
todos esgotados, e escrevi mais ou menos dois mil artigos nos jornais de
todas as grandes cidades do Brasil, inclusive nos mais importantes
dirios da Capital da Repblica.

Esses artigos e esses livros me fizeram conhecido na minha terra e at
no estrangeiro, porm exterminaram na minha alma o idealismo literrio,
que  uma das mais doces iluses das criaturas humanas. 

O convvio com os polticos e com os jornalistas assassina as iluses
dos mais ardorosos sonhadores. Isto no quer dizer que todos os
jornalistas e todos os polticos sejam maus ou ruins. Longe de mim tal
injria. Entretanto, verdade  que a maioria de todos os que fazem
poltica, ou garatujam idias na imprensa, tem muita propenso para
mudar de idias, de doutrinas e de f, como se tudo isso fosse camisa
que se troca todos os dias. Os vira- casacas so mais comuns na gente
que freqenta o Congresso Nacional e as redaes dos jornais do que na
que planta batatas e cria porcos.

Um papa, Sixto V, interrogado por um embaixador de como aprendera a
conhecer to bem os homens, respondeu: - "Plantando batatas e criando
porcos". Voltaire, definindo Joo Freron, no seu tempo famoso nas letras
e na poltica, asseverou numa stira que esse escritor e poltico era
to venenoso que um dia, mordido por uma cobra, a cobra fora a vtima
envenenada, e no o mordido, que ficou inclume. Que peonha deveria ter
esse sujeito! Pois eu encontrei entre jornalistas e entre polticos,
muita gente mais peonhenta que o figuro da stira de Voltaire, A
peonha que vai na alma de tais venenosas criaturas mataria, no uma,
porm cem cobras.

Foroso  confessar que na Poltica e no Jornalismo tambm j conheci
alguns verdadeiros idealistas. 

Mas quando vejo homens puros, verdadeiros apstolos das idias,
criaturas que se sacrificam no jornalismo e na poltica por fazerem
apostolacia, envelhecidos na prtica das doutrinas, com a cabea cheia
de teorias e coberta de cabelos brancos e com os bolsos vazios, eu
suponho ser melhor a gente abandonar as doutrinas, as idias, as letras,
a poltica e o jornalismo e cuidar daquilo que o humorista americano
Mark Twain classificou muito bem de "a mais notvel das ver-

dadeiras doutrinas, que  a religio do dinheiro". E dinheiro no se
ganha com letras... a no serem as de cmbio, nem ningum vive, come e
bebe com notas dos jornais e contos da Carochinha e sim com as do Banco
do Brasil ou do Tesouro Nacional.

Da o motivo muito justo e muito plausvel de ter eu agora expulsado da
minha alma o reinado, hoje absurdo, de um D. Quixote, para nela
implantar a saborosa e supimpa repblica de Sancho Pana. 

Em oito anos cuidei das idias nos jornais, nos livros e nos
estabelecimentos de ensino, e agora, com este adeus aos meus leitores,
declaro guerra s letras para cuidar do meu estmago, tratando de
compreender melhor as contingncias da vida prtica no tamanho da terra,
que  a generosa me de ns todos.

E se como escritor e jornalista fui um plantador de batatas literrias
(e qual o literato que nunca as tenha plantado ?) agora irei para a
roa, fugido das letras, como fez o famoso Tolstoi na sua retirada para
o stio de Yasnaia, murmurando como ele: 

- "Vou ser feliz plantando batatas e criando porcos". Crescidas as
batatas, eu as darei aos porcos; crescidos os porcos, eu os matarei, sem
me esquecer dos editores e crticos, aos quais reservarei a parte
preferida pelos tigres: a barrigada.  que, na verdade, os editores e
crticos so verdadeiros tigres para os escritores...

Afinal, l no meu rancho, repetirei a frase do grande poeta de Roma
antiga, o verdico Horcio Flaccus quando se isolou na sua chcara de
Lepedos:

"Aqui eu quisera viver no somente esquecido de todos, como tambm por
todos esquecido..."

"...................................... hic vivere vellem Oblitusque
meorum, obliviscendus et illis..." 

ASSI S CI NTRA. 

S. PAULO, OUTUBRO DE 1928 ( artigo publicado no "Dirio da Noite", de S.
Paulo)

___ 

O que se leu foi o meu ltimo artigo ou seja a minha despedida da vida
de jornalista. O "Dirio da Noite" comprou esse derradeiro artigo e
publicou- o. Agora sai este livro, que  "o meu ltimo livro",
adquirido, nas duas sries, pela Companhia Editora Nacional, que, pelos
direitos autorais, me pagou a quantia de 8: 000$ 000 (oito contos de
ris!!!)

Bem ou mal, este meu ltimo livro seguir o seu destino como sucedeu aos
outros. Se vai ou no agradar, isso  assunto que no me interessa,
porque a vida literria j no me preocupa. Perdi oito anos nesse
mister, tempo que no comrcio, agricultura ou indstria teria sido muito
mais proveitoso. O dinheiro que eu recebi de minhas edies parecia
dinheiro de sacristo: cantando vinham e cantando iam.  que o dinheiro
de literatura tem azar como o dos ciganos: no esquenta o bolso, no
pra nunca, vive a entrar e sair.  um dinheiro bomio... 

A vida do jornalista e escritor em nossa terra  uma verdadeira tnica
de Nessus: muito bonita por fora; muito feia e muito incmoda por
dentro. Ai daquele que, em m hora, se entrega  vida literria ! Fui
homem de letras; arrependi- me. Acordei tarde, porm antes tarde do que
nunca.

Aos meus leitores aqui deixo com este livro o meu ltimo adeus e com ele
um at nunca mais... se Deus quiser. 

ASSIS CINTRA. S. PAULO, DEZEMBRO DE 1928 

___ 

Histrias que no vm na Histria 

Os amores de Pedro II Na Exposio Universal, realizada em Paris no ano
de 1867, trs lindas brasileiras, entre as muitas que l estavam,
chamaram a ateno dos cronistas elegantes da cidade- luz, sendo por
eles apelidadas de "as trs graas do Brasil". Eram elas Carolina
Pereira, Ana Cavalcanti de Albuquerque (mais tarde casada com o conde de
Villeneuve, proprietrio do "Jornal do Comrcio, do Rio) e Maria Lopes
Gama, filha dos viscondes de Maranguape, casada primeiramente com o
banqueiro Guedes Pinto e posteriormente com um negociante ingls chamado
Jones, fornecedor da Casa Imperial. 

A primeira dessas graas, a Carolina, conseguiu em 1873 ferir
profundamente o corao de Joaquim Nabuco, tribuno liberal, modelo das
elegncias desse tempo, com ele fazendo uma viagem de "estudos" na
deliciosa Paris, viagem que deu o que falar aos sales cariocas do
supra- referido ano de 1873.

Mariquita Lopes, filha dos viscondes de Maranguape, quando viuva do
banqueiro Guedes Pinto e depois como esposa de Mister Jones, negociante
protegido da famlia imperial, obteve uma conquista mais difcil do que
a da sua amiga Carolina (a formosa e clebre "Caluzinha") que machucara
o corao de Nabuco.

E quem teria sido a "vtima" da linda, graciosa e requestada
viscondessinha? Nem mais, nem menos do que Sua Majestade Imperial o 

Senhor D. Pedro II, o casto, o austero, o sisudo Marco Aurlio
brasileiro. Era o dia dois de Dezembro, aniversrio de sua Majestade. O
Pao Imperial abrira as suas grandes portas e franqueara o seu belo
salo nobre para o faustoso baile de natalcio do Imperador. 

Luzes em profuso, flores por toda a parte, o frou- frou das sedas,
casacas e fardas de gala, perfumes trescalantes, sorrisos e mesuras,
tudo era belo naquela noite quente e faiscante. 

O Imperador, alto, louro, olhos dum azul muito claro, barba cortada em
oval e muito bem cuidada, metido numa casaca de linhas parisienses,
conversava no centro de um grupo de altos dignitrios da Corte sobre a
poltica europia. Era evidente, porm, que Sua Majestade tinha qualquer
preocupao ntima, pois, em sua fronte ampla, dois vincos prenunciavam
uma tormenta. Quando um dos circunstantes falava, o monarca, quase
maquinalmente, respondia o seu habitual "j sei, j sei".

Nas proximidades desse grupo o Dr. Torres Homem, o formidvel "Timandro"
do "Libelo do Povo", manejava a sua costumeira maledicncia: 

- Esse Bragana quer saber tudo. "J sei, j sei", l est ele dizendo a
todo o momento. O que ele no sabe  que todo o Rio de Janeiro est a
par dos seus amores com a linda viva do banqueiro Guedes Pinto, essa
estonteante Mariquita que vive a infernar os coraes dos outros com a
sua graa sedutora.

- Mas ento Sua Majestade est amando,  Torres ? murmurou ao lado o
ferino Zacarias de Ges. 

E afastando- se de Torres Homem, o baiano Zacarias, moreno esguio de
olhos de baiadeira, procurou o ngulo esquerdo do salo onde se achava o
grupo de Sua Majestade a Imperatriz.

A prosa ia animada e num dado instante a princesa Isabel, levando para
um lado o Dr. Zacarias, interpelou- o, nervosa: 

- Sr. Zacarias, quero que me fale a verdade: o que h entre meu pai e a
viva Guedes Pinto ? Eu h pouco apanhei, sem o querer, umas frases
soltas...

- Oh! Senhora Princesa, falam- se muitas coisas que no se devem falar,
Mas eu no sei nada... 

Em seguida repuxou as mangas de sua casaca e olhando maliciosamente para
Torres Homem, de quem no gostava, indicou- o: 

- Se Vossa Alteza deseja qualquer notcia sobre boatos, ningum mais
autorizado e mais competente que o Torres Homem. 

- Sim. V busc- lo, Sr. Zacarias. E o esperto baiano l se foi em busca
de Torres Homem a quem imediatamente trouxe para junto da princesa. E
esta inquiriu, ansiosa:

- Sr. Torres Homem, eu vou confiar na sua sinceridade: O que se murmura
a respeito de meu pai e da viva Guedes ? 

- Senhora Princesa, eu no sei de nada, porm Sua Alteza o Sr. Conde
D'Eu deve saber... alguma coisa. 

- Meu marido sabe alguma coisa ? Ora essa... -  o que dizem, Alteza. D.
Isabel mordeu os lbios, olhou rancorosamente para o lado direito, onde,
entre cavalheiros e damas, refulgia a tentadora beleza da viuvinha
Guedes Pinto, e procurou o conde D'Eu. Conversaram. A princesa agitouse
ao ouvir qualquer coisa dos lbios do marido. Assentou- se, nervosa. O
grupo em que se achava a Guedes Pinto se aproximou de D. Isabel e cada
qual procurava uma frase amvel para a futura Imperatriz.

- "Vossa Alteza, habitualmente to alegre, est hoje to retrada,
senhora Princesa", aventurou a viuvinha Guedes Pinto. 

- Sim,  verdade, estou retrada. Que diria a senhora se fosse princesa
e visse no Pao, no aniversrio de seu pai, uma mulher leviana, servindo
de motivo  maledicncia da Corte ? 

- Eu diria, Senhora Princesa, que em todas as Cortes do Mundo, em todos
os Palcios de todos os pases, os homens falam mal das mulheres que
eles cobiam sem esperanas; e sempre houve linginhas de prata de
mulheres feias azinhavrando a reputao de mulheres bonitas... 

- E se essas mulheres bonitas do motivo ? - Motivo sempre h, Senhora
Princesa, porque existe um soberano maior do que os Imperadores e do que
os reis, que  Sua Majestade o Amor. E foi sob o domnio desse "poder
supremo" que Luiz XIV, da Frana, o ReiSol, ao saber que Mademoiselle de
Lavallire fugira do Palcio para o convento das Carmelitas, interrompeu
uma audincia com o Embaixador da Espanha, indo imediatamente arrancar
da casa de Deus aquela que era tudo para ele.

A Princesa empalideceu de clera e, no se contendo, explodiu: - E 
essa a sua moral, Senhora D. Maria ? - No falei em moral, Senhora
Princesa, apenas contei um bocadinho da histria da Frana. Se magoei
Vossa Alteza, peo- lhe perdo e a permisso para me retirar desta
festa, onde talvez eu esteja sendo indesejvel...

D. Isabel aproveitou a oportunidade dessa frase, e insinuou: - Afinal,
ns j nos compreendemos, o bastante, no acha Senhora D. Maria Guedes ?


- Perfeitamente, Senhora Princesa, j nos compreendemos muito bem. O
"calor" que ns ambas estamos sentindo produz um desequilbrio em nosso
sistema nervoso. E eu, prevendo que a "temperatura" vai aumentar e como
receio muito "as temperaturas exageradas", peo licena a Vossa Alteza
para me retirar, apresentando- lhe os meus respeitos, as minhas
homenagens, a minha gratido, a minha vassalagem de brasileira, at a
morte. Com licena, Alteza.

E se afastou. Quando se aprestava para se ir embora, j se despedindo de
uma amiga, surgiu ao seu lado D. Pedro II, perguntando- lhe
carinhosamente:

- Oh! Senhora Maria Guedes, j se retira ? - Sim, Majestade. Os olhos da
encantadora viuvinha revelavam a angstia que lhe ia na alma pela
afronta recebida da Princesa.

O Imperador compreendeu tudo, tudo... Olhando para D. Isabel, viu- lhe
na fisionomia uma expresso de clera. Ela sabia da ojeriza de sua filha
pela formosa e encantadora viscondessinha de Maranguape e temia que essa
antipatia explodisse em algum escndalo. Ao mesmo tempo, a grande
afeio pela sua amiga obrigava- o a tomar uma atitude decisiva, que
acabasse para sempre com aquela situao. Murmrios, falatrios e
sorrisos maliciosos, tudo isso no passara desapercebido ao soberano.

Ento o austero, o sbio, o sisudo Pedro II decidiu- se a pr um ponto
final nessa desagradvel situao. 

Aproximara- se D. Teresa Cristina e a ela se dirigiu o Monarca: -
Teresa, a Senhora Maria quer retirar- se e eu, pela primeira vez na
minha vida, vou ser Imperador "absoluto". 

Virando- se, depois, para a bela Mariquita Guedes: - Est vendo, Senhora
Maria, neste momento no sou mais o Imperador Constitucional, e como
monarca absoluto, eu lhe ordeno: Fique, porque quero que seja minha dama
na quadrilha de honra que se vai danar agora. 

E com surpresa geral o Sr. D. Pedro II mostrou nessa noite, em plena
festa do Pao, que nas suas veias corria o sangue do amoroso e destemido
Pedro I: Nesse baile famoso, a linda mulher que os mexericos da Corte
apontavam como a "queridinha" do Imperador, com ele danou a quadrilha
de honra, afrontando assim a maledicncia dos cortesos.

E dois meses depois disso Sua Majestade era convidado para padrinho de
casamento da viva Maria Guedes Pinto, que se consorciava em segundas
npcias com o fornecedor de mantimentos do Pao, o rubicundo ingls
mister Jones, protegido do casto, sisudo e sbio Sr. D. Pedro II. 

Madame Jones, ex- Guedes Pinto, continuou a freqentar as festas do
Palcio, e os cortesos tambm continuaram a tecer mexericos em torno da
famosa Mariquita Jones e do Imperador. 

Quem nunca duvidou de Sua Majestade foi a Imperatriz D. Teresa Cristina,
que por certo poria a mo no fogo pelo seu fidelssimo Pedro. E quando a
filha lhe falou sobre aquela "espevitada" Guedes Pinto, depois Madame
Jones, a Imperatriz sorriu cheia de uma absoluta confiana conjugal: 

- Oh! Minha filha, ainda no nasceu, nem nunca nascer, a mulher que
tenha o poder de tentar o meu bom e fiel Pedro. 

- Mas, minha me, aquela mulher  capaz de tudo. Deram- lhe at o
apelido de "a mulher do prximo", porque os homens quando a enxergam
infringem a lei do Declogo: - no desejars... 

D. Teresa Cristina, cheia de bondade e confiana, sorriu novamente, e ao
se aproximar de D. Pedro II, perguntou com meiguice: 

- Pedro, tu j pensaste algum dia em alguma mulher do prximo ? D. Pedro
II franziu a sobrancelha, baixou os olhos, corou e respondeu: - "Ora,
Teresa, certamente que nunca..." Entretanto, nesse mesmo dia, "tinha
pensado" na mulher de Mister Jones, a bela e sedutora Maria Lopes Gama,
ex- viva Guedes Pinto, que vivia sempre no seu corao, dando- lhe
douras e suavidades que o acalentavam, atravs dos dissabores da sua
gangorra poltica de conservadores e liberais.

___ A francesinha do Imperador 

Monsieur Pierre Saisset e sua mulher Madame Clemence, com o p de meia
de suas economias, vieram tentar fortuna no Brasil. Desde logo o casal
francs se estabeleceu na rua do Ouvidor; ela, com loja de modas; ele,
com oficina de cabeleireiro, ento, como hoje, profisses muito
rendosas.

Um dos negcios do francs era muito promissor: modas e papis pintados.
A casa era na rua do Ouvidor, 98, frente da Rua Nova, sob a firma de
Bernardo Wallenstein & Companhia. O "Companhia" dizia respeito aos
Saissets.

Mas a riqueza almejada no caa to depressa do cu como o man do
deserto bblico. Um dia, Pedro I viu em So Cristvo a formosa Madame
Clemence Saisset, que fora levar encomendas das senhoras palacianas e
ajeitar penteados para uma festa. Achar bonita a francesinha, cobi- la
e conquist- la, tudo isso foi para o Imperador cousa de nada e para a
francesa... man do deserto.

Ademais, era uma francesa do Rio, e estas eram, segundo o sbio
Jacquemont, umas "amveis raparigas". 

Madame Saisset, porm, no preveniu o marido. Apaixonado, Sua Majestade
perdeu a compostura do cargo e no querendo ser um Romeu ao luar,
visitou a namorada,  noitinha, em sua prpria casa. Para afastar o
marido, mandou- o chamar ao Pao, dando ordem ao camareiro- mor que no
o deixasse sair enquanto ele, imperador, no voltasse.

O elegante Saisset foi a S. Cristvo, porm, anoitecera e desconfiado
da grande insistncia do camareiro que procurava ret- lo, suspeitou de
qualquer coisa e saiu  francesa. 

Pedro I jantara com Madame Saisset e, esquecendo- se da pragmtica e do
marido que deveria estar no Pao, desapertou a fardeta, com que estava
vestido, descalou as botas por causa dos calos, e como as cadeiras no
fossem muito macias, com a devida licena, recostou- se no lindo leito 

que fronteava a sala de jantar. Tudo isso "inocentemente", j se v. 
claro que o cronista antigo, de quem tiramos o relato, envenena o
episdio, pintandoo com outras cores... mais "realistas".  que o
protagonista era "real" em todas as acepes do vocbulo. 

De repente, surgiu, esbaforido, o dono da casa, clamando, faminto e
cansado, pela sua querida Clemence. Rebolio e arranjos... 

O Imperador quis saltar a janela. Deteve- o rapidamente a modista.
Aquilo seria um grande escndalo. Com a graa e inteligncia glica que
lhe era peculiar, rasgou a camisa de dormir, com ela amarrando, em
vrias dobras, a perna direita do Imperador.

Trocaram algumas palavras para a comdia. Ela se vestiu ligeiramente, e
abriu a porta do quarto. 

Seu marido, na cozinha, empunhava um quarto de frango assado, e com ele
se reconstitua. E Clemence, compungida, explicou ao pacfico e razovel
marido:

- Que ali perto sucedera um desastre: Sua Majestade o Imperador, no
podendo refrear os corcovos do seu cavalo, cara redondamente, torcendo
o joelho direito.

Ela, aflita, correra a auxili- lo e com alguns transeuntes, o
recolheram. Ali estava ele, desapertado, na cama, sem poder andar. O
mdico fora chamado e tardava...

Saisset, jogando fora os restos de frango, irrompeu, aflito, pelo quarto
a dentro, topando com o monarca, recostado no leito do casal. Depois, em
desabalada corrida, procurou o cirurgio do Pao e trouxe- o. O mdico
entrou. D. Pedro mandou fechar a porta do quarto e ficou com o esculpio
para o curativo. Minutos aps, o doutor saa, risonho. 

E Saisset, apreensivo, interpelou: - Coisa de cuidados srios, sr.
doutor ? Respondeu o cirurgio: - Que fora nada. Apenas engorgitamento
dum msculo da perna. Lavagens quentes e frices repetidas curariam
aquilo em pouco tempo. Porm seria prudente que sua Majestade ficasse
ali durante a noite. Na manh seguinte o Imperador estaria bom e o
referido msculo descongestionado.

E partiu. O francs Saisset entrou no quarto, e, cheio de mesuras,
ofereceu- se para ir buscar a carruagem do Pao, porm, achava prudente
que Sua

Majestade no fizesse movimentos, pois, como dizia a Madame, poderia
isso agravar o seu estado. 

- Ademais, obtemperou a esposa, a Imperatriz, a essa hora, recebendo Sua
Majestade assim, sem poder andar, poderia assustar- se. Um recado em
nome do Imperador comunicaria que Sua Majestade fora passar a noite na
Quinta de Santa Cruz.

E assim se fez. Nessa noite, conta com muita graa um cronista daquele
tempo, o respeitvel lojista da rua do Ouvidor dormiu no quarto da
criada, enquanto a sua "virtuosa" esposa, Madame Clemence Saisset,
cuidava, como "enfermeira", do imperial doente. 

Em verdade, o cirurgio- mr do Pao acertara com o diagnstico: aquilo
no passara de uma inflamao passageira do nervo da perna. Mas a boa
enfermeira, carinhosa e sabida nos cuidados domsticos, dos quais 
parte principal a arte de curar, no fechou os olhos durante  noite,
sempre atenciosa e cheia de carinhos para com o enfermo. O caso  que,
no dia seguinte, o nervo da perna de Pedro I estava descongestionado,
graas  habilidade genuinamente francesa da gentil e bela enfermeira.

Essa hospedagem e a acertada teraputica da francesa, foi a sorte grande
para o casal Saisset. Pedro I foi gratssimo. Comprou e deu- lhe a casa
em que moravam; condecorou- os; batizou por procurao o primognito da
Madame, nascido em Paris, depois do incidente. Mais tarde, aberto o
testamento da Majestade Bragantina, nele havia esta clusula: uma boa
ddiva em pecnia ao seu "afilhado" Pedro de Alcntara, primognito dos
Comendadores Saisset.

Francisco Gomes da Silva, por alcunha "O Chalaa", que de aprendiz de
ourives e barbeiro se fizera embaixador e conselheiro, quis, na velhice,
escrever as suas Memrias. Contratou para isso um jovem de talento, que
mais tarde seria o Visconde de Almeida Garret, e deu- lhe a incumbncia
do livro. Da as "Memrias" publicadas por ele. Nelas se conta qualquer
coisa. Alis, em 1838, escrevia ele ao Marqus de Itanham, referindo-
se aos bens de Pedro I, do qual fora inventariante D. Amlia:

- "Das outras partes a metade da tera, uma pertence ao filho de Mr. e
Madame Saisset de Paris, que esto ansiosos para receberem a sua parte".


Era a gratido do Imperador do Brasil que ainda se manifestava 
devotada enfermeira francesa: 

"Bendita queda!" diria com os seus botes de ouro o ndio comendador
Saisset.

"Saudosos tempos!" murmuraria, suspirando, a senhora comendadora, ex-
modista francesa da rua do Ouvidor. 

E ambos tinham razo... A histria da queda fora bem arranjada e a
teraputica da francesinha bem recompensada... 

___ O Duelo de Deodoro e Benjamim 

Fervia a poltica republicana no caldeiro escaldante do Governo
Provisrio. As questinculas e intriguinhas de bastidores sucediam- se
todos os dias, numa surda guerra de ministros para com ministros.
Floriano Peixoto, aparentemente impassvel, animava, por detrs das
portas, as irritaes de todos contra o "generalssimo" que proclamara a
Repblica.

O governador do Rio Grande do Norte, pedira, em telegrama dirigido ao
ministro da Instruo, Correios e Telgrafos, que era Benjamim Constant,
a nomeao de um protegido de l para tesoureiro dos Correios de Natal.
O ministro, que j empenhara o seu compromisso com outro candidato,
cumpriu a sua palavra e nomeou o seu protegido. A poltica do Rio Grande
do Norte gritou e apelou para o generalssimo. Este reclamou de
Benjamim, dizendolhe num bilhete que "o candidato no nomeado era o seu
candidato" e terminava exigindo do seu ministro que reconsiderasse o seu
ato. Benjamim, numa carta, imediatamente respondida ao bilhete, negou-
se a voltar atrs, alegando que j assinara a nomeao e no se
humilharia para satisfazer a caprichos de polticos.

Deodoro, impulsivo e voluntarioso, irritou- se com a resistncia do seu
ministro.

Benjamim, que fora ardilosamente afastado da pasta da guerra, onde
descontentara aos militares da velha guarda, porque somente dava postos 

de confiana aos moos e fazia promoes rpidas de seus ex- alunos da
Escola Militar, no se sentia bem na direo do novo cargo que lhe
coubera. O interessante cronista dos casos complicados do Governo
Provisrio, o Dr. Abranches, numa de suas notas histricas, explica essa
transferncia que retrata claramente o saco de gatos denominado
"Conselho de Ministros", estabelecido em 2 de janeiro de 1890, por um
decreto de Deodoro: 

"A criao da pasta da Instruo Pblica, Correios e Telgrafos, no
correspondera a uma necessidade imperiosa de carter administrativo,
como se procurou ento justificar esse ato, mas fora um meio ardiloso de
afastar Benjamim Constant da pasta da guerra".

Um outro cronista da Repblica completa as explicaes da seguinte
forma:

"Benjamim Constant, deixando- se influenciar por um grupo de moos que o
cercavam, provocara no grosso do exrcito profundos desgostos pelo ponto
de vista em que se colocara na gesto dos negcios militares. Da
queixas constantes e murmuraes mais ou menos irritantes no seio das
guarnies; da atritos repetidos com muitos camaradas seus e com o
prprio Deodoro, que tambm tinha as suas idias e as suas afeies em
esfera muito diversa da de Benjamim.

Esse antagonismo de princpios e de inclinaes entre os dois fautores
de 15 de Novembro no achou a sua soluo nem ainda nesse termo, e
crescendo dia a dia, soprado por intrigas pequeninas e cavilosas, chegou
a ponto de provocar uma vez, um uma das reunies, uma lastimvel
exploso que quase se traduziu em vias de fato. A verdade, porm,  que
entre os membros civis do governo provisrio pareceu o meio mais eficaz
de apagar as dissenses entre Deodoro e Benjamim Constant dar a este uma
pasta em que as suas aptides tcnicas mais bem se acomodassem, ao mesmo
tempo em que se confiasse a secretaria da Guerra a um militar que, como
o marechal Floriano, pudesse geri- la com mais xito, pelo prestgio de
que gozava nas fileiras, e pelo contato direto em que sempre vivera com
os quartis. Aceitou Deodoro, pressuroso, essa idia, e combinou- se que
 nova Secretaria se entregassem a instruo pblica, os correios e
telgrafos. A fim de comunicar gentilmente esta deliberao a Benjamim,
que ignorava todos o plano dos seus colegas, concertaram estes que, em
uma das reunies do Gabinete, Cesrio Alvim e Glicrio se queixassem do
acmulo de servio nos ministrios a seu cargo, 

e, proposta a criao da nova pasta, todos a una voce, declarassem que
para dirigi- la estava naturalmente talhado o ento ministro da guerra,
incontestavelmente um dos mais ilustres engenheiros militares e reputado
professor. E assim se fez.

Entretanto Benjamim Constant, na boa f em que estava, antes mesmo que
seus colegas se pronunciassem, lembrou o nome de Lauro Sodr, que fora o
seu discpulo predileto, e era nesse tempo o seu secretrio. 

Deodoro, ento, interveio, exclamando: - "No senhores! No concordo com
isso. Em vez do discpulo que se escolha logo o mestre". 

Todos aplaudiram a idia, que a Benjamim pareceu um ato espontneo da
velha estima e admirao que lhe votava o seu companheiro de armas, e,
ias depois, lavraram- se os dois decretos, nomeando para a nova pasta da
Instruo, Correios e Telgrafos, a Benjamim Constant, e para substituto
deste, na pasta da guerra o marechal Floriano Peixoto, que pela primeira
vez apareceu no conselho de ministros a 17 de junho de 1890. O nome
dele, todavia, figura no meio dos outros desde o dia 10 de maio, mas
nessa reunio e nas de 17 e 31 do mesmo ms de Maio estava ausente com
causa justificada. Esta mudana produziu timos efeitos, amortecendo
certas paixes perigosas que iam cavando a discrdia nas fileiras do
exrcito, e que bem poderiam arrastar o pas ao regime nefasto dos
pronunciamentos militares.

A est bem claramente narrado o motivo pelo qual Benjamim Constant
deixou de ser Ministro da Guerra do Governo Provisrio para ocupar a
pasta da Instruo Pblica, Correios e Telgrafos, criada especialmente
para ele. E foi como dirigente desse Ministrio que ele deu motivo ao
incidente do qual quase resultou uma cena de sangue em pleno Itamarati,
entre os dois proclamadores da Repblica, por causa da nomeao do
tesoureiro dos Correios de Natal, no Rio Grande do Norte.

No salo de despachos do Palcio do Itamarati, no dia 27 de Setembro de
1890, estava reunido todo o Ministrio, presidido por Deodoro. O chefe
do Governo envergava a sua vistosa fardamenta de Generalssimo;
Floriano, a de Marechal; Benjamim, a de General; Wandenkolk, a de vice-
almirante; Campos Sales, Cesrio Alvim, Glicrio, Bocaiva e Rui
Barbosa, vestiam sobrecasacas. Na ponta da mesa do despacho, tendo ao
seu lado o secretrio do Governo Provisrio, Dr. Fonseca Hermes, Deodoro
abriu a sesso: 

- "Senhores ministros, ao abrir a sesso devo desde logo declarar que
certos acontecimentos tm de tal modo ferido o meu amor prprio que no
posso assegurar as conseqncias dessas provocaes pessoais..." 

Benjamim atalhou: - "Ns estamos em conselho de Estado e V. Excia.
poderia falar com mais clareza. Queixas de quem e quais as conseqncias
a que alude?"

- Queixas do Senhor e vou dizer- lhe porque... -  um favor de V. Excia.
diz- lo. - Sim, tenho queixas amargas do Ministro da Instruo e
Correios.  preciso que se atendam os pedidos dos governadores. Eu
mandei seis ou sete vezes, com insistncia mesmo, que o Sr. Benjamim
Constant nomeasse uma pessoa para tesoureiro dos Correios de Natal e o
Sr. Benjamim nomeou um protegido seu. Isso no est direito, nem 
srio...

- V. Excia. tem o direito de me exonerar, mas no o de me ofender. -
Ofensa recebi eu de sua parte com este papelucho malcriado que eu vou
ler para os seus colegas ouvirem os seus desaforos. 

Em seguida, diante do silncio geral, Deodoro leu a seguinte carta de
Benjamim:

- "Sr. Generalssimo, Em resposta ao seu bilhete de hoje, devo dizer-
lhe categoricamente que eu no nomearei tesoureiro dos Correios de
Natal, no Rio Grande do Norte, o candidato do Governador, que tambm se
fez seu candidato, pelo motivo seguinte: j assegurei a nomeao de
outro, que j tomou posse do cargo e no me devo humilhar, torcendo a
minha palavra dada para satisfazer caprichos de polticos da provncia.
Se V. Excia. deseja essa humilhao, conceda- me antes a minha demisso
e mande outro fazer aquilo que pode agradar  poltica, porm desagrada
o meu carter e o interesse da administrao pblica. Sem mais, etc." 

Todos os circunstantes empalideceram, prevendo uma tempestade. Benjamim
Constant levantou- se e Deodoro tambm. 

O ministro deu dois passos para a frente e falou: - Sr. Generalssimo,
procure outro Ministro, porque eu no voltarei mais aqui. 

- Pois no volte, gritou Deodoro. Mas leve consigo a sua carta
malcriada, que eu lhe devolvo. O seu protegido j vai ser demitido por
mim e nomeado o candidato do Governador do Rio Grande do Norte. Vou 

telegrafar- lhe que d posse ao protegido dele. Eu sou o chefe de
Governo e o Sr. um simples secretrio. 

- V. Excia. no tem razo. Sua queixa tem uma base falsa. Quando V.
Excia. indicou o candidato do Governador, o outro por mim nomeado j
tomara posse do lugar.

- Base falsa tem a sua amizade por mim. O Sr. nunca foi meu amigo. V.
Excia. derrubou o trono para fazer isso que estamos vendo: regime do
absolutismo. Isto no  Repblica.

- Nem  Repblica a intrigalhada que o sr. fomenta com os seus ridculos
positivistas.

- Eu intrigante ? V. Excia. est perdendo a compostura do seu cargo. Ao
ouvir estas palavras Deodoro, com os olhos coruscantes, pulou para a
frente de Benjamim, e nervosamente segurando os copos de sua espada,
esbravejou:

- "Ns somos militares, sr. Benjamim. As questes de honra entre
militares lavam- se com sangue. Puxe pela sua espada, que eu vou puxar
pela minha".

E desembainhou violentamente a sua espada. Benjamim virou- se para
Floriano e murmurou:

- Ele est louco!... - Louco  voc, seu canalha, gritou Deodoro. E
quando ia descarregar um golpe sobre Benjamim, sentiu o seu brao seguro
no ar pelas mos fortes de Campos Sales. O ministro alvejado, que tirara
tambm a sua espada da bainha e se pusera impassivelmente em guarda, foi
seguro pelo Marechal Floriano Peixoto, que o levou em seguida para fora
da sala, enquanto Campos Sales conduzia Deodoro da Fonseca para um
aposento prximo, onde ele teve uma forte crise de dispnia.

Um cronista que narrou a "Histria da Repblica" assim se refere a este
episdio:

- "Conquanto a amizade destes dois heris da Repblica a princpio fosse
muito grande, no faltaram alguns espritos irrequietos e antagnicos
que pouco a pouco semeavam entre eles a discrdia. Nasceram da pequenos
atritos que, repetindo- se quase diariamente, chegaram a produzir a
ruptura das relaes. Finalmente, na sesso de 27 de Setembro de 1890,
Deodoro atacou brusca e inopinadamente a Benjamim que, replicando- lhe
tambm com violncia, quase que dava lugar a uma cena trgica, pois um
se colocou

em face do outro, na atitude de se baterem em duelo, dentro da mesma
sala de despachos do palcio do Itamarati: "Somos militares, bradou
Deodoro, puxe pela espada que eu puxarei pela minha". E parecia querer
lanar- se sobre Benjamim, que permanecia impassvel. Felizmente a
interveno de dois ministros conseguiu que o incidente no tivesse
conseqncias mais desagradveis, pois Floriano levou Benjamim para fora
da sala, enquanto Campos Sales conduzia Deodoro para um aposento
prximo, em que o bravo soldado foi atacado de forte acesso cardaco". 

Por a se v que em 27 de Setembro de 1890 se no fosse Campos Sales,
Deodoro da Fonseca teria espetado na sua espada, em pleno salo dos
despachos do Itamarati, o seu colega de proclamao da repblica
Benjamim Constant, ento ministro do Governo Provisrio. E nesse caso a
Histria do Brasil teria mais um captulo trgico com este ttulo: De
como o generalssimo Deodoro espetou na sua espada o seu ministro
Benjamim Constant.

___ O Padre Anchieta, enforcador 

Levantara- se, havia pouco tempo, o pelouro da cidade de S. Sebastio do
Rio de Janeiro. Os guerreiros de Mem de S levaram de vencida os
franceses de Villegaignon e mais os seus aliados tamoios. 

A, entretanto, se verifica um acontecimento extraordinrio:  que as
festas comemorativas da fundao da cidade se realizariam com o
enforcamento de um prisioneiro francs: o protestante e herege Joo de
Bols. Este j estivera preso no Rio em 1559 e de l fugira para S.
Vicente, de onde retornara para junto dos tamoios, seus amigos.

Mem de S condenara o inimigo sumariamente: que poderia esperar um
francs herege de um portugus catlico ? Pois o diabo do "estranja" no
dera tanto trabalho aos colonizadores lusitanos ? 

- "Que fosse enforcado", ordenou Mem de S. 

Aprestou- se a forca. Em torno dela os guerreiros do Governador do
Brasil reuniram- se, rodeando- a num crculo fnebre. 

O padre Jos de Anchieta foi encarregado de acompanhar o condenado.
Antes, porm, conseguiu, depois de horas de discusses teolgicas com o
que ia morrer, converter para a Santa Madre Igreja esse herege francs
que levantara os tamoios contra os portugueses. 

E ali, no cimo do morro do Castelo, a forca se levantara, sinistramente,
 espera da vtima. 

Falou Anchieta ao condenado: - Joo de Bols, Deus se amerceou de tua
alma, convertendo- te nos teus ltimos instantes de vida  verdadeira
f.

Respondeu o francs: - Padre, eu te agradeo do fundo do corao o me
teres revelado a Verdade Divina que  essa que ests ensinando neste
continente.

E o condenado subiu os degraus do patbulo. Cercavam- no Mem de S e os
seus soldados, ainda aquecidos pelo triunfo contra os franceses e
tamoios.

O carrasco fez a laada. A um sinal do comandante das armas, o corpo de
Joo de Bols ficou suspenso no ar. Mas o homem no morrera. A sua face
congestionada inspirava horror. E o condenado ainda vivia. O lao,
apanhando muito por cima o pescoo, no estrangulara. Retiraram ento o
corpo da laada da forca e o padre Anchieta, condodo da aflio do
francs, repreendeu o carrasco da sua impercia desumana. Mostrou- lhe
como se fazia o lao e como se devia pux- lo para se evitar ao ru a
barbaridade de aflies horripilantes, qual a de ficar o condenado
suspenso no instrumento de suplcio sem morrer. 

Novamente levantando o corpo do prisioneiro, foi puxada a corda pelo
carrasco e Joo de Bols estrebuchou nos seus derradeiros instantes de
vida. Consumara- se o enforcamento com a interveno do padre. 

Este caso, que se relata com os fundamentos da cidade de S. Sebastio do
Rio de Janeiro, foi citado em Roma contra a canonizao do padre Jos de
Anchieta, no fim do sculo passado. 

O papa nomeou um cardeal para defender a santidade do apstolo
catequista de Piratininga e um outro para o acusar. Ao primeiro se deu o
nome de "advogado de Deus", e ao outro... "advogado do Diabo". E o
advogado do Diabo, contra a canonizao de Anchieta, citou o episdio 

trgico da vida do padre, lendo umas pginas da "Crnica da Companhia de
Jesus" escrita pelo notvel jesuta Simo de Vasconcelos, que assim
discorre:

- "Aquele herege Joo de Bols, de quem dissemos no ano de 1559 que fora
fugido do Rio a S. Vicente, e dera ali em entender ao Padre Gran, em
atalhar seus falsos dogmas: agora d que fazer aqui ao Padre Jos:
porque depois de ser mandado preso  Bahia, foi trazido (no se diz a
causa porque) a este Rio de Janeiro, porventura para que fosse castigado
no lugar onde comeara a fazer suas heresias, ou porque ali teria
cometido outro algum delito grave; como quer que seja: o Governador Mem
de S mandou que fosse justiado em mos de um algoz, e aos olhos dos
mesmos inimigos (que ainda restavam). Para ajud- lo em to duro transe,
foi chamado o Padre Jos de Anchieta; achou o herege pertinaz em seus
errados fundamentos, pediu que se detivesse mais tempo a execuo da
justia e entre aquelas trguas da vida falou o novo sacerdote ao ru
com grande esprito, e eficcia de razes, que converteu seu empedernido
corao, e veio a reconciliar com a Santa Igreja aquela ovelha perdida e
quase tragada do lobo infernal, com aplauso do Cu, e dos homens. Porm,
aconteceu aqui um caso digno de ser sabido: porque o algoz, quando foi 
execuo do castigo, como era pouco destro no ofcio, detinha o
penitente no tormento demasiadamente, com agonia e impacincia
conhecida. Jos, que via este erro to grande, e receava que por
impacincia se perdesse a alma de um homem, por natural colrico, e to
pouco havia convertido; entrou em zelo, repreendeu o algoz, e instruiu-
o de como havia de fazer seu ofcio, com a brevidade desejada: ato de
fina caridade. Sabia muito bem Jos a pena das leis eclesisticas, que
suspendem seu ofcio a todo aquele que sendo sacerdote acelera a
execuo da morte, em qualquer ocasio que seja, ainda que pia; porm
preponderava com ele mais a caridade que devia ao prximo e respondeu
aos que lhe perguntaram a causa de tal resoluo desta maneira: "Porque
o dano de minha suspenso no  ofensa de deus, e tem remdio com a
absolvio da Igreja: porm o dano daquela alma, se ali se perdera por
impacincia, era pecaminoso, e no podia remediar- se; e pela salvao
de uma alma vivera eu suspenso toda a minha vida." Oh! resoluo de
engenhosa caridade! O Governador Mem de S depois deste castigo partiu
para a Bahia, contente dos sucessos que Deus lhe dera, deixando com o
governo daquelas partes a seu sobrinho Salvador Corra de S. 2 

E assim o "advogado do Diabo" venceu o "advogado de Deus", pois 

o padre Jos de Anchieta, embora merea o ttulo de santo, no foi
"santificado" somente porque... ajudou a enforcar o francs Joo de
Bols, conforme o relato do padre jesuta Simo de Vasconcelos, ilustre
cronista da Companhia de Jesus.

___ O preo dum General 

O manifesto republicano de 3 de Dezembro de 1870 causou no esprito
pblico a impresso de uma vistosa girndola de fogos de vista. Os
partidos monrquicos, quer o liberal, quer o conservador, revezavam- se
no poder, amparados pelas respectivas mquinas eleitorais, e ora subia
um, ora outro, como se a poltica imperial fora simplesmente uma balana
de duas conchas cujo fiel era o poder moderador representado pelo
monarca.

Os republicanos conseguiram, com a sua inteligente propaganda, alguns
lugares na representao nacional, porm, em 89, na ltima eleio feita
no Imprio, sofreram fragorosa derrota. Em S. Paulo os dois chefes de
grande prestgio, Prudente de Morais e Campos Sales, foram vencidos
respectivamente pelo conde do Pinhal e pelo Dr. Silveira Cintra. Se no
fora a habilidade republicana no aproveitamento da questo militar, que
latejava, havia alguns anos, como um tumor maligno no corpo enfezado da
Monarquia, os pregadores da repblica no veriam to cedo a realizao
dos eu ideal. S triunfaro revolues no Brasil quando tiverem a
cooperao dos diretores da engrenagem militar, qual se deu no movimento
de 15 de Novembro de 89, e pouco depois, na queda de Deodoro, em 23 de
Novembro de 1891. No primeiro caso, Deodoro era o chefe querido das
classes militares. O governo recebera o aviso do levante e entregara a
sua defesa ao tenente- general Floriano Peixoto e ao general Almeida
Barreto. Porm, ambos eram parceiros de bernarda. Se outro tivesse sido
o comandante das tropas monrquicas, um outro que soubesse cumprir o seu
dever, a ento legalidade, que era o Imprio, no teria sucumbido. No
segundo caso, Deodoro, sentindo- se trado

pelos seus dois grandes amigos, Floriano e Custdio, temendo os horrores
e os perigos de uma guerra civil, arrependido do golpe de Estado, poucos
dias antes desferido contra a Constituio, e com seu mal antigo
agravado, provocando- lhes freqentes e terrveis dispnias, resolveu
deixar- se vencer e resignou o mandato de presidente da nao para o seu
substituto legal, que conspirara contra ele.

 fora de dvida que no foram o povo e o partido republicano os
fautores da repblica. Foi a questo militar. 

Alfredo Chaves, ministro da guerra, repreendeu- os com severidade e
expediu a todos os corpos do Exrcito e reparties anexas uma circular
em que firmava a doutrina da ilegalidade das manifestaes de militares,
a quem no assistia o direito de publicar artigos nos jornais. 

Essa circular foi o rastilho de plvora que iria incendiar mais tarde a
conscincia do Exrcito, provocando, trs anos depois, a exploso de 15
de Novembro de 1889.

A questo surgiu, a latejar. De um lado o governo, com a sua doutrina
spera e asfixiante; de outro, a conscincia militar protestando pelo
que chamava o mais sagrado dos direitos do homem livre. 

Nessa poca, comandava a regio militar de Porto Alegre, no Rio Grande
do Sul, o general Manoel Deodoro da Fonseca. Valente e resoluto, hspido
mas bondoso, impulsivo mas querido, Deodoro imediatamente se ps ao lado
dos camaradas contra o governo. E, em Porto Alegre, permitiu que se
fizesse uma reunio militar de protesto. Fez mais ainda, pois aprovou o
que nela se resolveu.

Esse prestigioso e valente cabo de guerra comandava as melhores tropas
do exrcito, que eram as do Rio Grande do Sul. Sua coragem e sua
impulsividade constituam o seu apangio, j sobejamente conhecido. E
por isso era temido e temvel.

Presidia o ministrio o baro de Cotegipe, que desde logo temeu a
interferncia de Deodoro na questo militar, e tentou afast- lo do
movimento, a princpio pela interveno de amigos, depois pelo suborno.
Esse estadista no escondia a sua averso pelos militares e dizia
publicamente que venceria os mais graduados com os favores do governo, e
os outros com os castigos da lei.

Alm do posto de comandante das armas das tropas riograndenses, Deodoro
ainda era o vice- presidente da provncia. Cotegipe, em 

correspondncia oficial, apelou para o patriotismo de Deodoro e
ordenoulhe que, conforme os preceitos da lei, e na sua dupla funo de
comandante das armas e vice- presidente em exerccio, processasse e
punisse os revoltosos transgressores do Regulamento Militar. Retorquiu o
velho cabo de guerra ao poderoso ministro que no competia a ele, na
funo de comandante das armas e vice- presidente, aplicar as
penalidades, porque j se no considerava mais em tais cargos, tendo
pelo mesmo correio seguido o pedido de sua exonerao e, outrossim,
levava ao conhecimento do governo a sua afirmao de solidariedade para
com os camaradas que defendiam uma prerrogativa militar. Acrescentou
depois de algumas consideraes:

- "E, senhor ministro, creia V. Excia. que eu no tomei a iniciativa
desse ato incriminado de revoltoso e sujeito a penalidades, porque os
cargos que exercia de comandante das armas e vice- presidente em
exerccio me impunham o dever de falar ao governo pessoalmente, como seu
agente na provncia, e no coletivamente em nome dos militares, a cuja
classe perteno, levantando e defendendo os mais justos direitos e
proclamando as mais justas queixas". 

O baro de Cotegipe, segundo se infere de um artigo da poca, levou o
caso ao imperador que, alarmado, quis apelar para a amizade e gratido
do seu amigo e protegido.

Isso diria, observou o ministro, uma diminuio de autoridade. Ademais,
ele traria o general Deodoro para a causa do governo, pois sabia como se
"conquistavam" generais.

Nessa crena, lanou mo do suborno. Ofereceu a Deodoro uma cadeira de
senador, o ttulo de Visconde de Mato Grosso e expediu ordens ao
departamento de Guerra para que, a pretexto de ajudas de custo, se lhe
desse, ao general, uma certa quantia. E prelibou o gostinho do triunfo,
embora julgasse caro o preo pelo qual pretendia comprar a dedicao e
as divisas de um general. Era caro mas quem pagava era o governo, e o
governo precisava.

Deodoro da Fonseca, soldado rude mas honesto, sincero e bom, leal e
abnegado, no abandonou os seus companheiros de armas pelas humilhantes
vantagens de uma traio rendosa que lhe dava at os foros de nobreza e
a senatoria vitalcia, alm de certa quantia em dinheiro, e respondeu
altivamente numa carta publicada nos jornais desse tempo, depois
reproduzida em livro:

- "Sr. Ministro: 

A minha resposta  que as cadeiras do senado devem ser oferecidas aos
polticos e aos que se julgarem aptos para serem legisladores e que
quanto ao ttulo nobilirquico, eu me contentarei com a nobreza dos
sentimentos. Quero ser simples soldado, e portanto recuso uma e outra
coisa, preferindo antes de tudo ficar ao lado dos meus irmos de armas".


E em post- scriptum, esta chicotada na face do governo corruptor: -
"Minha famlia sou eu e mais minha mulher. Dispenso as ajudas de custas.
Basta- me o soldo a que por lei tenho direito". 

E no se vendeu. Cuspiu no prato de lentilhas apresentado pelo ministro
Cotegipe, que prometera ao Imperador a dedicao dum general, cujas
divisas pretendera comprar com posies e honrarias, esquecendo- se que
os bordados de um general brasileiro no se vendem nem se compram,
porque, sendo o apangio do nosso glorioso exrcito, traduzem a
sacrossanta dignidade da ptria.

___ A Matana do Quilmetro 65 

Em 16 de setembro de 1831 o ministro dos estrangeiros da Frana, conde
Horcio Sebastiani, respondendo na Cmara dos Deputados a uma
interpelao sobre a Polnia, cuja independncia era aparentemente
patrocinada pelos franceses, afirmou, com a responsabilidade de seu alto
cargo, e sob a sua palavra de honra:

- "Senhores, podeis confiar em minha palavra, que  a palavra do
governo: "Reina a paz em Varsvia. A liberdade impera na Polnia"... 

E Sebastiani, o grande e honrado ministro, no seu longo discurso
publicado no "Moniteur Universel" de 17 de Setembro de 1821, pedia aos
franceses que confiassem na ao patritica do governo, que tudo ia
muito bem, que era um mar de rosas a situao da Europa, e que a querida
e nunca jamais abandonada Polnia estava no regime do progresso e da
prosperidade, pois, em sua capital, Varsvia, reinava a paz.

Paz em Varsvia! Essa paz afirmada na tribuna da Cmara dos Deputados e
nas colunas do jornal oficial por um homem que levava aos representantes
do povo a palavra de honra do governo, essa paz cantada em um longo
discurso ministerial, era a paz das hecatombes, dos morticnios, da
sangueira, a paz dos cadveres...

Varsvia estrebuchava nessa ocasio nas frreas mos dos cossacos. A
mocidade polonesa, entrincheirada na Universidade, resistia com
herosmo, e os ltimos patriotas combatiam pela liberdade, asfixiada
pela Rssia.

Os prelos do mundo proclamaram a sensacional notcia datada de Cracvia
em 1. de setembro: 

- "O general Krakovieski foi efetivado no cargo do governador militar de
Varsvia, com amplos poderes que decorrem do estado de stio. Essa
medida  apenas preventiva, porque reina a paz em Varsvia e em toda a
Polnia. O povo, tranqilo e feliz, aplaude o governador e apoia a
poltica do Czar".

E essa notcia se proclamava aos quatro ventos da terra quando os
ltimos patriotas se opunham ao regime do cnut e aos grilhes russos;
quando Kosiusko, a encarnao viva da alma patritica polonesa,
baqueava, exclamando o "Finis Poloni"; quando a tirania moscovita
saciava na carnao palpitante da pobre e desprotegida vtima a sua
ferocidade liberticida; quando se extinguia o ltimo sopro da
independncia e da liberdade de um povo. E ainda havia um ministro de
estado, que ia ao Parlamento hipotecar a palavra de honra do governo,
afirmando a paz e a liberdade de um pobre e desgraado povo que
estrebuchava sob as botas da mais negra tirania que a Histria tem
registrado.

O general Krakovieski, o sanguinrio, fuzilava, diariamente, dezenas de
poloneses prisioneiros, alvejava com os seus canhes a Universidade,
invadia domiclios, desrespeitava a soberania da prpria moral, esmagava
todos os sentimentos de humanidade, e com as suas botas cossacas
encharcadas do sangue da mocidade patritica de Varsvia, mandava ao
Czar Alexandre I, para que o transmitisse  Europa, a cnica mentira
oficial: "Reina a paz em Varsvia".

Grandsville e Forest, caricaturistas de talento, imortalizaram o cinismo
da mentira oficial, dessa monstruosa hipocrisia russa, num quadro da
revista "La caricature", de outubro de 1831. A se v um soldado brutal,
de fisionomia tigrina, levantando ao ar uma baioneta ensangentada, em
cuja ponta se

acha uma cabea de mulher, e em torno, cadveres de homens, mulheres e
crianas. Em cima do quadro, a legenda explicativa: "A paz reina em
Varsvia".

Essa declarao do ministro francs Sebastiani, lembra uma outra, a do
Governador do Paran, Dr. Vicente Machado, ao presidente da Repblica,
Marechal Floriano Peixoto, expressa no seguinte telegrama, publicado nos
jornais do Rio de Janeiro:

"Presidente Marechal Floriano.  com prazer que comunico a V. Excia. que
tudo vai bem. Nenhuma anormalidade. Reina a paz aqui. Viva a Repblica! 

Vicente Machado, governador". 

Entretanto, essa paz anunciada pelo governador do Paran era idntica 
de Varsvia: a paz do sangue derramado; a paz das lgrimas de vivas e
crianas atiradas na orfandade; a paz dos cadveres de cidados
sumariamente fuzilados: era uma paz de Varsvia, essa famosa paz de
Curitiba.

Na antevspera desse telegrama se verificara o fuzilamento de vrios
cidados da elite social paranaense por simples suspeitas de
oposicionamento ao governo. A Histria registra tal acontecimento com a
denominao de "A matana do quilmetro 65".

Era ento comandante do distrito militar do Paran o general Ewerton
Quadros, pessoa de confiana do marechal Floriano. 

Em Curitiba governava o Dr. Vicente Machado, presidente do Estado. O
famigerado e sanguinrio coronel Moreira Csar movimentava um batalho,
que se notabilizara pelas mais execrandas violncias: morticnios de
cidados indefesos, saques, estupros em mulheres em meninas, incndios,
violaes de todas as espcies. Uma carta annima apontara como adeptos
da revoluo aos cidados Baro do Cerro Azul, negociante e fazendeiro;
Jos Loureno Schneider, negociante; Jos Joaquim Pereira de Moura,
mdico; Rodrigo de Mattos Guedes, farmacutico; Balbino Carneiro de
Mendona, advogado; Presciliano Correia, corretor; Joo Feliciano de
Castro,

funcionrio pblico; Adolfo Guimares, exportador de erva- mate.
Recebida a denncia, as casas desses homens respeitveis foram varejadas
em alta hora da noite e todos eles arrancados dos braos de suas esposas
e dos seus filhos para serem encarcerados. Embora protestassem serem
inocentes e nada contra eles constasse de positivo, foram cientes de
que, por ordem superior, seriam levados no dia seguinte, 20 de Maio de
1894, para o porto de Paranagu, de onde seguiriam escoltados para o Rio
de Janeiro.

Incomunicveis, deitados em tarimbas, os desgraados foram acordados s
10 horas da noite desse mesmo dia 20. Apenas com a roupa do corpo,
seguiram a p para a estao no meio de uma escolta acompanhada pelo
tenente Jos Moreira, parente e pessoa de absoluta confiana do Cel.
Moreira Csar.

A noite era trevosa e fria, e aqueles infelizes, com as roupas
encharcadas, pois chovera durante o trajeto, afinal atingiram a estao,
pouco antes das 11 horas. L estava, coberto por um largo capote preto,
o coronel Moreira Csar. O baro do Cerro Azul pediu ao tenente para
dizer duas palavras ao coronel e este veio atend- lo. 

- Sr. Coronel, no h nenhuma prova de que eu seja revoltoso; vivi
sempre e vivo para a minha famlia; nunca fiz mal a ningum; no sou
poltico; por que me prenderam e me mandam para o Rio ? 

- Voc, seu baro, no batizou na matriz uma criana com o nome de
Gumercindo ?

- Batizei,  verdade. - Voc no  admirador do Gumercindo Saraiva, esse
nojento gringo que com as suas tropas tem dado tanto trabalho ao governo
?

- No senhor. Somente o conheo de nome. - E por que escolheu o nome de
Gumercindo para o seu afilhado ? - Mas no fui eu. Foi a prpria me
dele. - Ah! foi a me dele ? Havemos de ver isso. Adeus, o trem vai
partir. E virando- se para o tenente: - Embarque essa gente, tenente
Moreira, e faa a "parada" no quilmetro 65.

- Suas ordens sero cumpridas, coronel. O trem apitou, uma coluna de
fumaa escura, batida pela chuva, esparramou- se na atmosfera. 

E quando a mquina j desaparecera alm, o coronel Moreira Csar, 

na plataforma da estao, soltando uma baforada de seu cigarro caipira,
tomou pelo brao um rapaz que se achava ao lado e que era um dos
secretrios do governador Vicente Machado: 

- Moo, diga ao "seu presidente" que os conspiradores j se foram para a
viagem que no tem volta. 

E sorriu, um sorriso amarelo e mau, mostrando uma fileira de dentes
escurecidos pelo sarro do cigarro, apodrecidos pela sfilis e bambos
pelo escorbuto. O seu modo de rir era sinistro. 

Os presos conversavam tristemente. Um pressgio lutuoso torturava
aquelas almas desgraadas de vtimas. De repente, o trem deu um
solavanco e estacou. Era o quilmetro 65. Metade da escolta desceu do
vago, e a outra metade, l dentro, montou guarda aos prisioneiros. O
tenente, do lado de fora, gritou:

- "Baro do Cerro Azul, desa..." O baro obedeceu e saiu do trem. Ao
lado esquerdo dos trilhos uma esguia esplanada, em cuja extremidade se
abria um profundo despenhadeiro. Na frente, oito soldados de carabinas
embaladas, formavam um lgrube peloto.

- Baro do Cerro Azul, eu tenho ordens superiores para fuzil- lo no
quilmetro 65. Aqui  o quilmetro 65. Se  religioso, reze, porque vai
morrer.

- Tenente Moreira, eu no conspirei contra o governo, eu no sou
revoltoso, eu no fui processado, nem contra mim h provas. Por que
mandaram matar- me ?

- Cumpro ordens e no as discuto. Prepare- se para morrer. O Baro do
Cerro Azul tinha como berloque da sua corrente um retratinho esmaltado
de sua esposa. Tirou a corrente do bolso, beijou a medalhinha com o
retrato daquela que iria ficar viva, e entregou o relgio ao tenente,
dizendo- lhe:

- Os condenados tm direito a um ltimo pedido. Este  o meu: faa
chegar isto s mos de minha mulher. Vou morrer, vtima inocente de uma
desumanidade horrvel.

- Ser entregue, baro. - Muito obrigado, tenente. E o baro ajoelhou-
se, pensando na sua esposa e em Deus. Ele ainda no terminara a sua
prece quando a um sinal do tenente Jos Moreira o peloto de soldados
fez pontaria e desfechou a descarga.

Varado por oito balas o baro de Cerro Azul baqueou de bruos,
murmurando:

- Meu Deus, coitada da minha mulher... E o seu ltimo pensamento foi
para Deus e para sua mulher. Um sargento, com o p direito, empurrou o
corpo da vtima para o precipcio e aquele cadver ensangentado
despenhou- se num rudo surdo e macabro.

Os outros prisioneiros, inteirados do fuzilamento do baro,
aterrorizaram- se e perderam a serenidade de nimo. 

Balbiano de Mendona, no atendendo ao chamado do tenente, foi arrancado
brutalmente do vago, e alucinado pelo terror, agarrou- se ao breque de
carro. Um soldado quebrou- lhe os punhos a coices de carabina e depois
de jogado ao cho, recebeu a descarga que o matou. 

O outro, Mattos Guedes, iludindo a vigilncia da escolta, conseguiu num
salto gil pular pela janela do carro e precipitar- se no despenhadeiro.
Rolara uns 10 metros e encontrara uma rvore que inclinada para o
precipcio, o reteve com os seus galhos. Os soldados do peloto correram
para l e vendo- o dependurado, suspenso no abismo, apontaram- lhe as
carabinas.

- "No me matem pelo amor de Deus!" gritou ele. Uma descarga foi a
resposta ao apelo feito em nome de Deus, e o corpo do desgraado l se
foi despedaar- se na pedras pontiagudas daquele precipcio. 

Os outros presos agarraram- se pelos bancos do vago e forcejavam por
no sarem.

O tenente irritado por aquela resistncia, ordenou aos soldados. -
Acabem com isto a mesmo. E ali mesmo, dentro do vago, os outros presos
foram cruelmente assassinados a tiros de carabina, desfechados  queima-
roupa. O tenente Jos Moreira, cumprindo ordens superiores, dera cabal
desempenho  sua funesta incumbncia.

Era ordens do coronel Moreira Csar... e seriam tambm as do presidente
Dr. Vicente Machado ? 

Quem o sabe ? E assim reinou a paz, uma paz sangrenta de Varsvia, na
cidade de Curitiba, paz comunicada ao Presidente da Repblica, pelo
Presidente do Paran, Dr. Vicente Machado, dizendo que ali tudo ia
admiravelmente bem.

Entretanto, por aquelas paragens, o sangue dos fuzilados encharcava as
estradas e as campinas verdoengas. 

Era essa uma paz tarjada de sangue. ___ O Alcoviteiro de Pedro I 

Nos primeiros tempos do primeiro Imprio, duas criaturas exerciam sobre
D. Pedro decisiva influncia. Uma era a amante, Domitila; outra, o seu
mais ntimo amigo, alcoviteiro e capanga - o Chiquinho Gomes, conhecido
por "Chalaa".

Sobre a formosa sereia paulista muito se tem escrito, por penas de
mestres admirveis como Alberto Rangel e outros. Porm o Chalaa durante
muito tempo permaneceu no esquecimento, apesar de ter sido um dos mais
poderosos favoritos do imprio.

Entretanto, quem era o Chalaa ? Qual o seu nome completo ? A que
famlia pertencia ? Que fez de notvel para ter assim assombrosa
influncia a ponto de ser bajulado at por ministros ? Vejamos. 

Francisco Gomes da Silva, aportado ao Rio com um tio relojoeiro e
ourives, dedicara- se  profisso do protetor, sem contudo passar de
aprendiz, tal a sua falta de inabilidade para o ofcio. Cansado de
desmanchar relgios dos fregueses do tio e de fundir pechisbeques e
ouro, afinal resolveu ser barbeiro, para o que se instalou, segundo
rezam as crnicas, numa loja da rua do Piolho (hoje da Carioca). A se
aplicavam bichas, se arrancavam dentes, se pelavam rostos e se sangrava
a veia do suplicante aflito. Porm, Chiquinho Gomes era esperto. E
apesar de to mau barbeiro como fora mau ourives, ganhou popularidade,
quer pela destreza com que manejava a lngua, nos remoques e chalaas,
quer pela percia com que, de noite, movimentava a navalha, o cacete e
dedilhava o seu inseparvel violo. Mas a popularidade primacial que o
celebrizou, foram as suas famosas chalaas. Da o seu apelido: Chiquinho
Chalaa, ou simplesmente, - "O Chalaa".

Em 1820 havia na rua da Viola (hoje Tefilo Ottoni), uma casa de
hospedagem de Maria Pulqueria, cognominada - "Maricota Corneta", porque
dava o sinal das refeies com uma corneta que pertencera ao seu defunto
marido, corneteiro do antigo corpo de infantaria da corte. 

Depois das ave- marias, sua casa se enchia do que tinha de melhor, na
pndega e na valentia, o Rio de Janeiro desse tempo. De vez em vez, a
polcia do intendente Joo Jos da Cunha dava uma batida na espelunca e
levava para o calabouo meia dzia de desordeiros. s vezes era a
polcia que fugia, deixando na dobrada das esquinas alguns mortos e
feridos.

To falada era essa hospedaria que, um dia, o prncipe D. Pedro resolveu
conhec- la de perto. Disfarado com uma grande capa paulista,
acompanhado de um valente e robusto camareiro, foi,  noite, visitar a
"Hospedaria da Corneta".

Entrou. Discutia- se poltica e marafonices. J se percebe que o
vocabulrio e as frases eram bocagianas, capazes de fazer corar o mais
resistente frade de pedra.

Chalaa trocava versos, dedilhando sua viola, com um pretalho de olhos
esbugalhados, ex- escravo do pao, alforriado por ter salvo a vida de
Carlota Joaquina, num acidente de cavalo. Chamava- se ele Jos Janurio.


Aboletado numa das mesas de madeira tosca, D. Pedro assistiu  disputa
dos dois turunas. De repente, Jos Janurio, encarando o pseudo
paulista, abriu a boca num sorriso alvar e cantou: 

Paulista  pssaro bisnau, Sem f, nem corao:  gente que se leva a
pau, A sopapo ou pescoo. 

Toda a assistncia olhou para o homem do capote paulista e riu numa
estrondosa gargalhada.

D. Pedro, rubro e nervoso, levantou- se. Afastando, colrico, a ponta do
seu grande capote, com que ocultara a face ao entrar na espelunca,
gritou ao companheiro, dando- se a conhecer: 

- Meta o pau nessa canalha... O negralho branqueou ao reconhecer o
prncipe e... azulou na mais desabalada das corridas, emprestando a
melhor canela do veado da fbula. 

Os valentes sumiram, com exceo de um: "O Chalaa". Para ele investiu o
companheiro do prncipe, de cacete erguido. Esperto como um raposo,
Chiquinho Chalaa evitou o golpe e com uma rasteira de arraia, ps no
cho, de pernas no ar, o agressor. Tomou- lhe o pau e, segurando- o 

pelo casaco, atirou- o, por uma porta, para o quintal da hospedaria.
Maricota Corneta escondeu- se debaixo da mesa. Defrontaram- se apenas
dois homens: o Chalaa e o prncipe. Este ltimo tremia de furor. Ento,
calmo e sereno, o barbeiro tirou o largo chapu catalo que usava, e,
numa curvatura de gentil- homem, fazendo com o sombrero um semicrculo
no ar, quase tocando o assoalho, um sorriso nos cantos dos lbios,
murmurou.

- "Francisco Gomes da Silva apresenta a Vossa Alteza os seus respeitos e
os seus servios". 

D. Pedro no se conteve. Estrondeou numa formidvel gargalhada, dessas
que s os portugueses sabem dar depois de um bom vinho de Trsos- Montes
e de uma bacalhoada minhota. Em seguida, alegre e aceitoso: 

- "Chalaa, tu s um homem..." - "Permita Vossa Alteza que lhe diga o
prognstico de minha tia: chamava- me ela sr. comendador". 

D. Pedro, de braos abertos, caminhou para o barbeiro e apertandoo num
grande amplexo, exclamou: 

- Comendador Chalaa, levo- te comigo para o Palcio. Na manh seguinte
o barbeiro Francisco Gomes da Silva fechava a sua lojinha na rua do
Piolho, e, enfarpelado com faustosa indumentria, passeava pelos
corredores do pao, ostentando faceiramente uma comenda na lapela. 

D. Pedro fizera dele um amigo do peito, companheiro de serenatas e
aventuras noturnas. Mais tarde, querendo nome- lo marqus, e
encontrando franca oposio do Visconde de Barbacena, e de toda a Corte,
resolveu transform- lo em diplomata. E assim o barbeiro Chalaa, que
fora a maior influncia poltica junto ao imperador, foi para a Europa
como ministro plenipotencirio do Imprio do Brasil.

No fim da vida, pagou a Almeida Garret para escrever as suas Memrias,
publicadas em meados do sculo XIX, em boa linguagem e riqueza de
episdios. E sobre ele muito escreveram os gazeteiros daqueles tempos,
uns atacando, outros louvando.

A boa tia bem lhe diagnosticara o "faustoso" futuro... Alcoviteiro- mr
de Sua Majestade o Sr. D. Pedro I, "notvel figuro" do primeiro
reinado, o "Comendador Chalaa"  uma interessante figura da nossa
histria de bastidores.

E bem mereceu esse papel pelo "muito" que soube fazer ao corao
cupidesco do seu imperial Senhor. 

___ As duas lindas Condessas 

Isabel Maria, reconhecida filha de Pedro I, por um documento particular,
transformado poucos dias depois num ato oficial, foi aos cinco anos de
idade arrancada dos braos maternos e enviada ao Colgio "Sacr Coeur",
de Paris, onde, segundo a vontade paterna, deveria ser freira, ao
atingir a idade necessria. Morrendo D. Pedro prematuramente, pediu
antes de expirar  sua esposa D. Amlia que protegesse a orfzinha
Isabel Maria. D. Pedro II enterneceu- se pela sorte da pequena e formosa
irm natural, que fora sua companheirinha de infncia nos folguedos de
So Cristvo.

Em carta de Paris de 21 de Maro de 1839, a ex- Imperatriz D. Amlia
dizia ao enteado, imperador do Brasil, que resolvera retirar do "Sacr
Coeur" a jovem Isabel, com a inteno de transferi- la para o "Instituto
Real de Moas", de Munique, fundado "ad instar" do de So Diniz, de
Frana. E assim pondo de lado o desejo de D. Pedro I de fazer de Isabel
uma freirinha, antes alvitrando o de cas- la muito bem na Alemanha, D.
Amlia escrevia a D. Pedro II:

"Eu me interesso tanto por tua irm Isabel que de nada me esqueo na
contribuio de sua felicidade, no podendo tambm me esquecer do quanto
era ela querida por teu pai". 

Em carta de 16 de Janeiro de 1841 D. Amlia d notcias ao Imperador do
Brasil da irmzinha, dizendo- lhe: 

"Continuo a receber excelentes notcias de Isabel, que est muito
contente no Instituto de Munique, e a Madre desse estabelecimento de
educao me escreveu contando que a tua irm cresceu e ficou mais
bonita. Se Deus quiser conseguirei arranjar- lhe na Alemanha um bom
casamento, pois tanto eu como a Madre do Instituto no poupamos esforos
para o arranjar. Entretanto, a herana que Isabel recebeu de teu pai no
 muito

grande, e isso dificulta o casamento. Estou certa que tens a inteno de
fazer  tua irm um presente de npcias, ou em diamantes ou em dinheiro.
Ser prefervel mandares dinheiro e peo- te me comunicares qual a
importncia que mandars de uma s vez. Tua irm Maria da Glria, rainha
de Portugal, dar tanto quanto tu deres, e as duas ddivas, reunidas 
herana do teu pai, constituiro um dote aprecivel que permitiro 
Isabel Maria um excelente casamento e uma existncia confortvel".

O Imperador do Brasil, em 12 de Agosto de 1841, respondeu  madrasta que
daria  irm, como presente de casamento, a quantia de 50.000 francos,
ouro. A rainha de Portugal foi mais generosa: ofereceu o dote de
100.000, contribuindo a ex- imperatriz D. Amlia com 50.000. A fortuna
de Isabel Maria, provinda da herana paterna e das ddivas que o pai lhe
fizera em vida, montava 500.000 francos, mais ou menos.

"E a me, quanto lhe dera ?" pergunta o cronista Rangel. Assim,
reconhecida como filha pelo 1. imperador do Brasil e como irm do 2. o
imperador; admiravelmente bela; educada nos dois melhores colgios da
Europa (o "Sagrado Corao" de Paris, e o "Instituo Real", de Munique),
com a amizade de sua madrasta, a ex- imperatriz Amlia e a de seus
irmos, o imperador do Brasil D. Pedro II e D. Maria da Glria, rainha
de Portugal; e ainda com um dote de cerca de meio milho de francos, a
linda Isabel Maria, Duquesa de Gois, conseguiu o to esperado e
desejado "bom casamento". E foi em carta de 23 de Outubro de 1842 que D.
Amlia de Leutchenberg, duquesa de Bragana e ex- imperatriz do Brasil,
comunicava ao seu enteado, D. Pedro II, o contrato de casamento de
Isabel Maria, duquesa de Gois, e pedia ao monarca brasileiro o alvar
de licena para os esponsais, concluindo:

"Este casamento oferece todas as vantagens que eu podia desejar e as
boas qualidades do noivo afianam a felicidade de tua irm". 

Com cerimnias principescas, no dia 17 de Abril de 1843, na corte do rei
da Baviera, o fidalgo alemo Ernesto Fischler, conde de Treuberg, baro
de Holzen, filho da princesa real de Hohenzollern Simarigen, grande
dignitrio da Ordem da Rosa, recebia como esposa a Isabel Maria, Duquesa
de Gois, filha legitimada de D. Pedro I, ex- imperador do Brasil e ex-
rei de Portugal.

Pedro I sonhara para a filhinha querida um convento e a viva D. Amlia
deu- lhe um marido e um castelo, e com tudo isso a felicidade do amor.
Quem o diz  a prpria Isabel Maria em carta de 14 de maio de 1867 

dirigida a D. Pedro II, comunicando- lhe a morte do esposo, numa frase
impregnada de angstia, de amor e de saudade: 

- "Ah! meu irmo! Eu confesso que amei o meu inesquecvel marido como
poucas mulheres tero amado o companheiro de sua vida". 

Enquanto, l na Europa, terna e meiga, Isabel Maria de Alcntara
Brasileira, duquesa de Gois, encontrara o amor no casamento com Ernesto
Fishler, conde de Treuberg, em S. Paulo, sua irm mais moa, Maria
Isabel de Alcntara Brasileira, casada com o conde de Iguau,
transformara o seu casamento em um verdadeiro inferno. Divorciada do
marido, influenciaramlhe a vida as intrigas amorosas que cercavam o
destino de sua me Domitila de Castro, Marquesa de Santos.
Desconceituada no meio social de sua provncia, irascvel e
voluntariosa, Maria Isabel gritava para a me, numa carta de desabafo
colrico:

"Arre! que afinal o diabo do meu marido j foi para o inferno!" Era o
contrabalano da dor amorosa da irm Isabel Maria que derramava junto ao
peito do irmo Pedro II a queixa dolorida pela perda do esposo que tanto
amara e tanto por ela fora amado.

Isabel Maria, a meiga e feliz condessa de Treuberg; Maria Isabel, a
irascvel e desventurada condessa de Iguau... 

Ambas, filhas de Pedro I; ambas, filhas da Marquesa de Santos; ambas
oriundas de um mesmo amor, e nascidas no mesmo ninho; ambas brasileiras,
ambas ricas e ambas belas mulheres... Porm o destino as separou. E
como?

D. Pedro I, na despedida da amante, deu- lhe a filha mais moa e ficou
com a primognita, a quem quis dar um ambiente santo, entregando- a s
freiras do "Sacr Coeur" de Paris. As freiras fizeram com que aquela
criaturinha de 5 anos de idade o que um lapidrio faz com o diamante:
deulhe facetas. E as facetas brilharam  luz da felicidade matrimonial. 

A outra, ficou com a me, porm a me fora uma infeliz esposa e no seu
lar bruxuleara a luz fumarenta de amores de combora. O fumo dessa luz
denegriu o diamante da alma infantil da filha mais moa. E a filha mais
moa perdeu- se no labirinto da desventura conjugal e viveu
desventurada.

 porisso que a histria nos mostra duas filhas da senhora Marquesa de
santos com destinos desiguais: Isabel Maria, a mais velha, feliz
condessa de Treuberg e Maria Isabel, a mais moa, desditosa condessa de
Iguau.

Duas condessas irms, ambas lindas e ricas, e dois destinos to
diferentes!

 que o Mundo, esse grande caprichoso de todos os tempos, se apraz
sempre em oferecer contrastes como esse. 

___ Os camalees do Governo 

Se nos for lcito retirar das pginas da Histria Universal uma figura
que simbolizasse a sentinela da Vitria, por certo essa no seria outra
seno o padre Talleyrand.

Poltico, na verdadeira acepo do vocbulo, dono de uma inteligncia
argutssima, maneiroso e acessvel, tal sacerdote francs, consumado
mestre da arte de transigir, foi o eixo sobre o qual giraram multides
de problemas diplomticos, em diferentes formas de governo. Na sua
transigncia encontrou o segredo de seus triunfos, subsistindo s quedas
dos seus vrios senhores, nos vrios regimes a que servira.

No apogeu do reinado de Luiz XVI, quando Maria Antonieta encantava a
Corte de Frana com os requintes de sua graa, com as sutilezas de sua
inteligncia, com o fulgor da sua formosura e com o "donaire" de sua
elegncia, uma das principais figuras das magnficas "causeries" de
Versalhes, e das maravilhosas festas do Trianon, era o padre Talleyrand.
Elegante e aceitoso, reunindo ao hbito sacerdotal a graa de um
gentilhomem, esse padre no somente ouvia no confessionrio de "Notre
Dame" os interessantes pecadilhos das melindrosas duquezinhas daquele
tempo, e da prpria princesa de Lamballe, de cuja direo espiritual se
incumbira, como tambm nas austeras reunies dos conselheiros do rei
expendia oportunas consideraes sobre "razes de Estado", e nos
faustosos bailes de Maria Antonieta organizava o programa das danas,
dirigindo, em requinte de elegncia, os primeiros lances do minueto
encantador.

Enquanto outros padres clamavam contra as alegrias pecaminosas de
Versalhes e nas prdicas de suas igrejas esconjuravam os pecados dos
cortesos, Talleyrand, na sabedoria da sua transigncia, pregava no
plpito

de "Notre Dame" s mais formosas fidalgas de Frana a bela doutrina de
que no peca quem vive dentro dos prazeres do mundo, pois se  permitido
s almas dos justos gozarem os prazeres e as alegrias do Cu, por que
no permitir aos corpos desses mesmos justos os prazeres e as alegrias
da Terra ?

Protegido e ntimo de Luiz XVI, assistiu impassvel ao aniquilamento do
seu real amigo. E quando os revolucionrios, sedentos de sangue,
expuseram diante de Talleyrand a cabea sanguinolenta da sua linda
confessanda e confidente, a princesa de Lamballe, nem porisso o padre
tremeu. Recebendo o barrete fgio que lhe oferecia uma gordalhuda
cidad, com ele se cobriu, e fixando seus olhos nos olhos mortos da sua
princesa bem amada, murmurou, diante de um truculento guardio
republicano, que se era mister mais cabeas ensangentadas, em prol da
Repblica, mais cabeas rolassem cortadas.

Esse truculento guardio revolucionrio era Barras, que, mais tarde,
subindo ao Diretrio, fez desse famoso padre um de seus mais ntimos
amigos. E assim Talleyrand, que fora poderoso com Dalton, com
Robespierre, com Marat, e com todos os chefes de Partido, j no fim da
Revoluo tambm triunfava. E no 18 Brumrio, era uma figura de
destaque.

Napoleo, na satisfao de suas ambies, no teve escrpulos. Esmagou,
um a um, os seus amigos da repblica. Porm, quando se cobriu com o
arminho do Imprio, um dos mais famosos ex- republicanos, tambm ex-
famoso realista, estava a seu lado. Era o padre Talleyrand. As guias
napolenicas sofreram a fatalidade da derrota, e baquearam, para sempre,
em Waterloo. Mas, Talleyrand, que no cara com Luiz XVI, nem com a
Revoluo, tampouco no acompanhou o Imprio na sua queda fragorosa. E
quando Luiz XVIII, irmo do desventurado Luiz XVI, levava para Versalhes
a restaurao da Realeza, ao seu lado, conservando os foros de prncipe
que lhe dera Bonaparte, l estava, sempre elegante e sempre poderoso,
esse magnfico padre Talleyrand, cheirando o rap do rei, com a mesma
graa e elegncia que j havia cheirado os raps da Revoluo e do
Imprio.

A senhora de Bridallone, cuja mordacidade era terrvel, e cuja
moralidade era duvidosa, perguntara um dia a Talleyrand, Prncipe de
Benevente, como pudera conservar- se poderoso por tanto tempo, servindo
a senhores to diferentes e em to diferentes governos. E sorriu, com o
seu sorriso to malicioso e to perverso, que a Histria o registrou. 

Impassvel, mostrando a sua linda caixinha de rap, em cuja tampa se via
o retrato esmaltado do rei Luiz XVIII, o prncipe e padre respondeu: 

- "Eu mudo, madame, as caras desta tampa de ouro, conforme os tempos.
Aqui j estiveram o rei Luiz XVI, o republicano Barras, o imperador
Napoleo e agora se acha o meu senhor el- rei Luiz XVIII". 

E com os dedos levou ao nariz uma pitada de rap, dum magnfico rap
oriental, que lhe dera o soberano. 

Madame Bridallone, porm, continuou, cruel e impertinente, fazendose de
desapercebida:

- "E  quando o sol se levanta que o Prncipe procura mudar a cara... de
sua caixinha de rap?" 

- "Mudar de cara, minha querida Madame,  coisa corriqueira entre
polticos e mulheres: os polticos mudam de cara, de quando em quando,
ao alvorecer de um sol, e as mulheres mudam de cara todos os dias, aos
primeiros raios do sol. Ambos, polticos e mulheres, devem ser peritos
na arte difcil de saber mudar de cara, quando nasce o sol, e nessa
mudana adequada e oportuna  que reside o segredo do triunfo. E a
est, Madame, porque ns ambos sabemos vencer: eu, no corao dos
governos, e Madame no corao dos homens: 

- Mudamos de cara... como artistas consumados que sabemos ser". Vem a
propsito dessas "mudanas de cara" um picaresco incidente do Parlamento
do Imprio. Um dia, na Cmara dos Deputados do Rio de Janeiro, no mais
aceso das discusses, certo deputado aparteador, marido de uma mulher
falada pelas suas aventuras amorosas, aparteava irritantemente o
jornalista e historiador Justiniano Jos da Rocha, acusado do feio
hbito de "virar casacas", ora passando do "Partido Liberal" para o
"Conservador", ora do "Conservador" para o "Liberal". 

Disse o aparteante: - V. Excia. que sabe histria, deve conhecer muito
bem os camalees polticos, discpulos de Talleyrand na arte de agradar
a todos os governos.

Respondeu o deputado Rocha: - E conheo tambm as mulheres amorosas,
discpulas de Madame Bridallone na arte de agradar a todos os homens. 

- No compreendi a inteno de V. Excia. Por que Madame Bridallone 

vem  baila neste caso? - Madame Bridallone, casada com o deputado
Antonio Bridallone e conhecida na intimidade por quase todos os colegas
do marido, que era um cidado pacfico e tolerante, foi amiga de
Talleyrand. V. Excia. chamou a esta casa a lembrana de Talleyrand; eu,
com o mesmo direito evocativo, trouxe Madame Bridallone para aqui,
demonstrando a V. Excia. Que sou bom conhecedor da histria de
bastidores, dessa mesma histria que se refere aos homens de todos os
governos e s mulheres de todos os homens. 

- V. Excia.  um mestre na arte de confundir e perturbar as idias. -
Tanto quanto  V. Excia. mestre na arte de tolerar, delicado e manso, os
confusos perturbadores de suas idias. 

- V. Excia. me insulta ? - Longe de mim a idia de insultar o "nobre e
honrado" colega... Em seguida Justiniano Jos da Rocha virou- se para o
presidente, dizendo: Senhor Presidente, fechando esse parnteses do meu
discurso, que foi uma confuso e perturbao de idias para "um nobre e
honrado colega", que ora talvez esteja sentindo dores de cabea, eu
direi que realmente tenho aplaudido governos diversos, ora como
"liberal", ora como "conservador", porm, j o disse Ccero, mudar para
melhorar  aperfeioar, e eu nessas mudanas que tenho feito, sempre
procurei um aperfeioamento poltico, errando, quem sabe, muitas vezes,
na nsia de ser melhor. Assim mudei de poltica como Talleyrand mudava
de regime. Serei um Talleyrand como disse em aparte meu nobre colega,
porm um Talleyrand bem intencionado que no sente dores de cabea como
aqueles que o acusam e o aparteiam com irritante persistncia".

O deputado Justiniano Jos da Rocha marcou um tento nessa disputa
parlamentar. A verdade, entretanto,  que h muitos Talleyrands sem
vergonha e muitos pacficos e mansos maridos de Madame Bridallone que
vivem a infernar a reputao alheia com crticas e maledicncias. 

___ A Degola dos Aspirantes 

O sol j corria para o ocaso. Era preciso partir. Tomamos as nossas
alimrias, e amos em caminho da cidade. O major Tambeiro preparou 

silenciosamente um cigarro de palha, acendeu- o, tirou uma baforada,
olhou para o cu e murmurou: 

- Bons tempos aqueles, seu doutor. A gente tinha tanto o que fazer.
Agora tudo isto  uma gua morta. At d ferrugem... 

- Mas voc, major, no me contou o que se passou aps o combate de Campo
Osrio.

- Ah! depois?! Depois a tropa se entregou ao escarcu e como quase todos
os cadveres foram desvestidos, para se aproveitarem as roupas, era
difcil reconhecer o do almirante. Felizmente, chegaram uns amigos
nossos trazendo dois guardas- marinhas ou aspirantes que se tinham
tresmalhado e foram achados escondidos numa valeta. O coronel ordenou
que eles percorressem o campo, examinando os cadveres, para dizerem se
o almirante estava ali. Coitados dos moos, choravam que at dava d na
gente. No eram homens, nem se tinham visto nessas entaladelas de brigas
a faco. As horas iam passando e nada. No se encontrava o corpo de
Saldanha da Gama. Na desconfiana de que os meninos estivessem mangando
com ele, Joo Francisco, j irritadssimo, ameaou- os de degola. Ento
um deles, trmulo e choroso, mostrou um cadver:

- " este", balbuciou o guarda- marinha. -  esse ? resmungou o coronel,
e curvou- se, tirando do bolso um retrato do almirante. Examinou o
retrato e o rosto do morto. Alguns sinais coincidiram. Depois, levantou
o brao direito do defunto e pela mo calosa e grosseira daquele
cadver, pelos ps disformes, e falta de asseio, ficou provado que o
menino mentira, talvez de medo, porm mentira.

O comandante mordeu os lbios. Chamou um cabo, disse- lhe algumas
palavras. E o cabo, num abrir e fechar de olhos, pulou sobre o
aspirante, que alis era franzino, e subjugou- o, amarrando- lhe as
pernas e os braos. Assim imobilizado, o guarda- marinha chorava
convulsivamente e pedia misericrdia, dizendo que tinha me e irms.

- E voc no se lembrou disso, seu co, quando veio aqui brigar ? rosnou
o cabo, cuspindo de lado. 

O executor tirou da cinta uma faca estreita, pontiaguda e afiada.
Agachou- se, debruando- se sobre o corpo amarrado do rapaz, cujos olhos
se arregalaram no paroxismo do terror. Num instante o degolador
suspendeu com o p direito a cabea do prisioneiro, com a mo esquerda
procurou conter- lhe a respirao, enfiando- lhe, rpido, dois dedos nas
ventas e com a

palma dessa mesma mo esquerda apertava a boca do rapazinho, sufocandoo.
As artrias do pescoo ressaltaram, entumecidas com essa presso. Ento
o cabo, com a mo direita movimentou a faca, enterrando a lmina, entre
um tendo e a cartida, num vai- e- vem. Um esguicho de sangue espumante
e quente foi bater na cara do executor. Consumara- se a degola. O outro
moo perdera os sentidos diante desta cena. O chefe f- lo voltar a si,
e soberano, ordenou- lhe:

- "Agora voc procure o almirante". O rapaz comeou a correr pelo campo,
aflito e lacrimoso. De repente, no paroxismo de uma crise nervosa,
desatou- se em gargalhadas, apontando para um cadver. Corremos para l.
Abaixamo- nos. O defunto tinha os olhos arregalados e a boca bem aberta.
Na dentadura viam- se dois dentes da frente obturados a ouro. Outros
sinais coincidiram. Mo finas, rosto delicado, olhos claros, corpo
regular. Ao lado, valioso revlver de bolso. Por se achar afastado, o
corpo no tinha sido pressentido pela rapaziada e ainda conservava as
suas vestes. Examinaram- se os bolsos: um relgio, um mapa porttil,
dinheiro, um retrato de mulher elegante e um recorte de jornal uruguaio
com uma notcia sobre Saldanha e as foras revolucionrias do Brasil.
No havia dvida, era ele mesmo. Um dos oficiais, com o cabo do
revlver, quebrou um dos dentes do almirante e guardou- o para berloque.
Joo Francisco dirigiu ao rapaz um olhar duro e desprezivo: 

- Tu s um covarde. No soubeste morrer com o teu chefe e ainda o
traste depois de morto. Os covardes no tm direito de viver". 

E mandou degola- lo. O corpo de Saldanha da Gama, horrivelmente
mutilado, foi envolvido em couro fresco e conservado como trofu da
vitria at a partida das tropas. Alguns de seus amigos que tinham vindo
ao campo de batalha dias aps o combate, quando j ia longe a gente de
Joo Francisco, levaram o cadver, j apodrecido, para o cemitrio de
Rivera, no Uruguai, onde teve sepultura. Um jornalista do sul comentou:

- "Joo Francisco teve a ttrica voluptuosidade de manter a sua gente
estacionada no acampamento de Saldanha at que os cadveres, expostos no
solo ensangentado, comeassem a apodrecer. F- lo com o fim de
familiarizar a tropa com o espetculo da morte, e por tal modo conseguiu
o seu propsito que, nesses dias, a milcia se entreteve em descarnar
cadveres, para, com a pele humana, tranar rdeas e guascas, que o
guerrilheiros

supersticiosos e ignorantes julgam ser amuletos contra as balas
inimigas. Jamais esquecerei a impresso que me produziu o relato de
oficiais de Joo Francisco que contavam com grandes gargalhadas, como os
milicianos se divertiam ao fazerem os mais tolos dos companheiros provar
churrasco de carne humana, tirada dos inimigos mortos, ou descrever
macabras disparadas de cavalos atravs do acampamento, arrastando
cadveres que se amarravam nas caudas dos animais". Esse relato dantesco
e horripilante nos d uma idia da loucura coletiva que se apodera dos
guerrilheiros nas lutas civis. So descries tiradas do Dr. Florncio
Sanches e do Dr. Silvano Pacheco. A est o retrato de uma revoluo,
que, sanguinolenta, ressalta do fundo escuro de todas as misrias
morais. E a se viu em relevo a figura sinistra dum caudilho, esse mesmo
Joo Francisco que, em S. Paulo, surgiu na vanguarda dos revoltosos, de
penacho vermelho e espadago em punho, ameaando "os princpios sagrados
da legalidade", essa mesma "Legalidade" a quem ele servira e ultrajara
em 1893, com as suas desumanas degolas, imortalizando- se pela crueza de
seus feitos.

E Revoluo quer dizer dias de sangue e de misrias morais: luto,
lgrimas e dios.

___ A Degola dos Aspirantes 

O sol j corria para o ocaso. Era preciso partir. Tomamos as nossas
alimrias, e amos em caminho da cidade. O major Tambeiro preparou
silenciosamente um cigarro de palha, acendeu- o, tirou uma baforada,
olhou para o cu e murmurou:

- Bons tempos aqueles, seu doutor. A gente tinha tanto o que fazer.
Agora tudo isto  uma gua morta. At d ferrugem... 

- Mas voc, major, no me contou o que se passou aps o combate de Campo
Osrio.

- Ah! depois?! Depois a tropa se entregou ao escarcu e como quase 

todos os cadveres foram desvestidos, para se aproveitarem as roupas,
era difcil reconhecer o do almirante. Felizmente, chegaram uns amigos
nossos trazendo dois guardas- marinhas ou aspirantes que se tinham
tresmalhado e foram achados escondidos numa valeta. O coronel ordenou
que eles percorressem o campo, examinando os cadveres, para dizerem se
o almirante estava ali. Coitados dos moos, choravam que at dava d na
gente. No eram homens, nem se tinham visto nessas entaladelas de brigas
a faco. As horas iam passando e nada. No se encontrava o corpo de
Saldanha da Gama. Na desconfiana de que os meninos estivessem mangando
com ele, Joo Francisco, j irritadssimo, ameaou- os de degola. Ento
um deles, trmulo e choroso, mostrou um cadver: 

- " este", balbuciou o guarda- marinha. -  esse ? resmungou o coronel,
e curvou- se, tirando do bolso um retrato do almirante. Examinou o
retrato e o rosto do morto. Alguns sinais coincidiram. Depois, levantou
o brao direito do defunto e pela mo calosa e grosseira daquele
cadver, pelos ps disformes, e falta de asseio, ficou provado que o
menino mentira, talvez de medo, porm mentira.

O comandante mordeu os lbios. Chamou um cabo, disse- lhe algumas
palavras. E o cabo, num abrir e fechar de olhos, pulou sobre o
aspirante, que alis era franzino, e subjugou- o, amarrando- lhe as
pernas e os braos. Assim imobilizado, o guarda- marinha chorava
convulsivamente e pedia misericrdia, dizendo que tinha me e irms.

- E voc no se lembrou disso, seu co, quando veio aqui brigar ? rosnou
o cabo, cuspindo de lado. 

O executor tirou da cinta uma faca estreita, pontiaguda e afiada.
Agachou- se, debruando- se sobre o corpo amarrado do rapaz, cujos olhos
se arregalaram no paroxismo do terror. Num instante o degolador
suspendeu com o p direito a cabea do prisioneiro, com a mo esquerda
procurou conter- lhe a respirao, enfiando- lhe, rpido, dois dedos nas
ventas e com a palma dessa mesma mo esquerda apertava a boca do
rapazinho, sufocandoo. As artrias do pescoo ressaltaram, entumecidas
com essa presso. Ento o cabo, com a mo direita movimentou a faca,
enterrando a lmina, entre um tendo e a cartida, num vai- e- vem. Um
esguicho de sangue espumante e quente foi bater na cara do executor.
Consumara- se a degola. O outro moo perdera os sentidos diante desta
cena. O chefe f- lo voltar a si, e soberano, ordenou- lhe:

- "Agora voc procure o almirante". O rapaz comeou a correr pelo campo,
aflito e lacrimoso. De repente, no paroxismo de uma crise nervosa,
desatou- se em gargalhadas, apontando para um cadver. Corremos para l.
Abaixamo- nos. O defunto tinha os olhos arregalados e a boca bem aberta.
Na dentadura viam- se dois dentes da frente obturados a ouro. Outros
sinais coincidiram. Mo finas, rosto delicado, olhos claros, corpo
regular. Ao lado, valioso revlver de bolso. Por se achar afastado, o
corpo no tinha sido pressentido pela rapaziada e ainda conservava as
suas vestes. Examinaram- se os bolsos: um relgio, um mapa porttil,
dinheiro, um retrato de mulher elegante e um recorte de jornal uruguaio
com uma notcia sobre Saldanha e as foras revolucionrias do Brasil.
No havia dvida, era ele mesmo. Um dos oficiais, com o cabo do
revlver, quebrou um dos dentes do almirante e guardou- o para berloque.
Joo Francisco dirigiu ao rapaz um olhar duro e desprezivo: 

- Tu s um covarde. No soubeste morrer com o teu chefe e ainda o
traste depois de morto. Os covardes no tm direito de viver". 

E mandou degola- lo. O corpo de Saldanha da Gama, horrivelmente
mutilado, foi envolvido em couro fresco e conservado como trofu da
vitria at a partida das tropas. Alguns de seus amigos que tinham vindo
ao campo de batalha dias aps o combate, quando j ia longe a gente de
Joo Francisco, levaram o cadver, j apodrecido, para o cemitrio de
Rivera, no Uruguai, onde teve sepultura. Um jornalista do sul comentou:

- "Joo Francisco teve a ttrica voluptuosidade de manter a sua gente
estacionada no acampamento de Saldanha at que os cadveres, expostos no
solo ensangentado, comeassem a apodrecer. F- lo com o fim de
familiarizar a tropa com o espetculo da morte, e por tal modo conseguiu
o seu propsito que, nesses dias, a milcia se entreteve em descarnar
cadveres, para, com a pele humana, tranar rdeas e guascas, que o
guerrilheiros supersticiosos e ignorantes julgam ser amuletos contra as
balas inimigas. 

Jamais esquecerei a impresso que me produziu o relato de oficiais de
Joo Francisco que contavam com grandes gargalhadas, como os milicianos
se divertiam ao fazerem os mais tolos dos companheiros provar churrasco
de carne humana, tirada dos inimigos mortos, ou descrever macabras
disparadas de cavalos atravs do acampamento, arrastando cadveres que
se amarravam nas caudas dos animais".

Esse relato dantesco e horripilante nos d uma idia da loucura coletiva
que se apodera dos guerrilheiros nas lutas civis. So descries tiradas
do Dr. Florncio Sanches e do Dr. Silvano Pacheco. A est o retrato de
uma revoluo, que, sanguinolenta, ressalta do fundo escuro de todas as
misrias morais. E a se viu em relevo a figura sinistra dum caudilho,
esse mesmo Joo Francisco que, em S. Paulo, surgiu na vanguarda dos
revoltosos, de penacho vermelho e espadago em punho, ameaando "os
princpios sagrados da legalidade", essa mesma "Legalidade" a quem ele
servira e ultrajara em 1893, com as suas desumanas degolas,
imortalizando- se pela crueza de seus feitos.

E Revoluo quer dizer dias de sangue e de misrias morais: luto,
lgrimas e dios.

___ Heris de Pechisbeque 

A histria oferece, quase sempre, episdios que se prestam  fantasia
dos escritores. Muitas vezes surge das multides um indivduo qualquer e
se arvora em heri. A crendice popular imediatamente o cerca de
prestgio e lhe empresta brilhantes frases que jamais pronunciou,
hericos feitos que jamais praticou. Nossa histria est cheia de
parolices de heris. Durante a guerra de Canudos houve um episdio
fantasiado pela imaginao popular que por um triz no fez de um
refinado poltro um heri de Homero. Referimonos ao caso do cabo Roque. 

A expedio Moreira Csar esfacelou- se ante a astcia e a valentia dos
jagunos. Um soldado de p ligeiro e conscincia leviana chegou  cidade
de S. Salvador na Bahia. Foi o primeiro que se ps na capital baiana. Um
jornalista entrevistou- o, pedindo- lhe sua impresso. E o "herico"
fujo deu na lngua da seguinte forma

"Saiba Vossa Senhoria que o maior feito da campanha foi o de um cabo. A
expedio, morto o Coronel, retrocedia desordenadamente, carregando
consigo o cadver do chefe. De repente, como legies de diabos, surgem
de todos os lados os caboclos do Antonio Conselheiro. Ento o pessoal
no conheceu mais chefes, nem meio chefes. Desandou no p, deixando
mochilas e armamentos para correr mais depressa. Entretanto, dois homens
ficaram firmes no seu lugar. Eu e o cabo Roque. Junto de ns estava o
cadver do comandante. Quando menos esperava, senti uma ccega. Era uma
bala da jagunada. Atirei- me ento para uma banda, escondendome numa
moita. E de l pude apreciar o cabo Roque. Homem valente! Era um tigre.
Quando no tinha mais balas, fez da Mauser um porrete e com ele matava
os caboclos. Afinal, exausto, sem mais uma gota de sangue, o cabo Roque,
como um jequitib abatido pelo machado, tombou ao solo. E num ltimo
estremeo, agarrou- se ao corpo do Comandante. E eu, ento, que no
tinha mais nada que fazer ali, me escapei como pude". 

O jornalista baiano bordou o relato do soldado com uma coluna de flores
de retrica e os jornais do Rio de Janeiro e do resto do Brasil elevaram
 culminncia da glria o herico cabo Roque, ordenana do Coronel
Moreira Csar. A nao inteira palpitou de orgulho por possuir
semelhante filho.

A mocidade vibrou. As cmaras municipais do pas cogitaram logo de dar o
nome do cabo Roque s suas belas vias pblicas. E um jornal da Bahia
assim se exprimiu: "Sim, baianos, esse herico cabo Roque penetrou,
sobranceiro e glorioso, num umbrais da Histria. O futuro historiador de
nossa ptria quando o divisar, atravs desta campanha, baixar a cabea,
pensativo e perplexo, e consigo mesmo dir: " Scevolas e Bayardos dos
fastos humanos, curvaivos ante esse novo heri que vos ultrapassou em
coragem, abnegao e bravura!"

Em seguida a essa tirada pattica, o jornalista, que por sinal era um
poeta, pedia que se desse a uma rua de sua terra o nome de Cabo Roque e
que se abrisse uma subscrio pblica para se levantar uma esttua ao
herico ordenana do Coronel Moreira Csar. A subscrio foi feita e a
rua foi batizada...

Em So Paulo, um ilustre jornalista, num brilhante e patritico impulso
intelectual, fez um formoso soneto, elevando aos cornos da lua o cabo
heri. A Cmara, a Academia e o povo da terra de Amador Bueno
emparelharam

aos maiores nomes nacionais o do humilde ordenana de Moreira Csar. E o
assunto obrigatrio de todas as palestras, no Brasil inteiro, era o
feito glorioso do abnegado cabo Roque. Eis seno quando surge na capital
da Bahia, lampeiro e inclume, desapercebido do que se passava, o
prosaico cabo Roque, de quem a imaginao popular, instigada pelos
oradores e jornalistas, fizera um grande heri, que suplantara os
Scevolas e os Bayardos. E o homenzinho tinha sido um dos que primeiro
emprestaram a canela do veado. Imaginem que formidvel heri no seria o
cabo Roque se se lembrasse de no aparecer mais com seu nome verdadeiro!
Com certeza, a mocidade j lhe teria erigido uma esttua na praa
pblica e os historiadores patrcios da atualidade j lhe teriam
consagrado o nome glorioso nas pginas de seus livros. E assim se faz a
Histria...

Na Histria da Frana h um caso mais ou menos parecido com o do cabo
Roque:  a clebre resposta que o General Cambrone deu aos ingleses. 

- Renda- se, General! Bradou o comandante ingls. - A guarda morre, mas
no se rende! Respondeu o General Cambrone. - Mais uma vez, general,
renda- se! Repetiu o ingls. - Merda, retrucou o francs 3 Esse episdio
fez poca na Frana e no mundo, a ponto de, quando se quer dar uma
resposta pouco cheirosa e de nenhuma educao, diz- se que se responde
com a resposta de Cambrone, e todos entendem.

O prprio Victor Hugo consagrou esse feito nas pginas dos Miserveis,
quando descreveu a batalha de Waterloo. Pierre Larousse, entretanto,
provou, com o prprio depoimento do General Cambrone, que tal resposta
era filha genuna da imaginao popular. Mas, mesmo assim, a lenda
continuou at agora e continuar per "omnia secula"...

A imaginao popular no se contentou em matar heroicamente o cabo
Roque. F- lo Tambm responder a um chefe jaguno que o interpelara: 

- Entrega- te, vergonha do Governo! - V tomar banho, seu berda-
merda... Essa frase fez poca, recontada por um ex- soldado de Moreira
Csar, que jurava ser ela autntica, por certo desconhecendo o
aparecimento, na Bahia, do afamado cabo Roque. E garantia que um seu
companheiro vira o cabo Roque, depois de matar 30 jagunos, estender- se
de borco para nunca mais se levantar.

E no sero assim muitas frases bonitas que correm mundo afora, 

dando foros de heris a uma dzia de felizardos, repimpados nos poleiros
da nossa histria civil e militar ? 

___ O Sacrilgio do Convento da Lapa 

O ms de Fevereiro de 1822 acendeu no patriotismo brasileiro, com
bravura espartana, o sentimento de liberdade. A cidade de S. Salvador da
Bahia, dominada pelo Brigadeiro Incio Luiz Madeira de Melo, apoiado no
mar por uma esquadrilha lusitana e em terra por um exrcito de cerca de
3.000 homens, estava em estado de stio, sob o regime da lei marcial. 

No dia 17 de Fevereiro os patriotas tirotearam com as tropas portuguesas
e no dia 19, de madrugada, as paredes da cidade surgiram aos olhos do
povo com a proclamao impressa do comandante da praa de guerra,
aconselhando calma e prometendo garantias. Dizia o Brigadeiro Madeira,
nessa proclamao:

- "Habitantes da Bahia! A desordem desde anteontem, est desgraadamente
entre ns e os esforos e sacrifcios no foram suficientes para
embaraar um to grande mal: vs tendes patenteado a vossa moderao e
eu vo- lo agradeo em nome da Nao e do Rei. Eu devo assegurar- vos que
vo tomar- se todas as medidas para se estabelecer o sossego pblico.
Estes malvados vos intimidam com a idia de um saque nas casas dos
cidados; porm eu vos certifico da parte da Ptria e do Rei, que a casa
do cidado ser um lugar inviolvel. Conservai- vos em vossas casas: no
ateeis mais os males da ptria, no vos intrometais nos negcios
pblicos, e vs gozareis de vossa segurana e propriedade. Quartel-
General da Bahia, 19 de Fevereiro de 1822. - Incio Luiz Madeira de
Melo, general das armas".

Ao lado dessa fala do brigadeiro portugus, outras proclamaes,
impressas em vermelho, foram afixadas nas paredes das ruas baianas.
Diziam:

"Patriotas da Bahia! Pegai em vossos arcabuzes e em vossas espadas e
vinde para as ruas combater contra a tirania! Fora com o despotismo! 

Viva a Liberdade!" Foi s 6 e meia da manh de 19, quando o sol j
iluminava o casario da cidade, que se iniciaram os combates para as
bandas da rua Joo Pereira. A luta generalizou- se por toda a cidade, a
fuzilaria pipocava, a metralha estrondeava, o sangue corria, e os dios
desembestados impunham o terror nos lares e nas vias pblicas. 

O 2. o batalho, em esquadro de cavalaria e um corpo de marinheiros
portugueses, desembarcados para reforarem as tropas do general Madeira,
regressavam da escaramua sangrenta da qual resultara o aniquilamento do
1. o batalho de patriotas revoltados, quando, ao passarem pelo largo da
Lapa, ouviram o vozerio piedoso das freiras do convento, guiadas pelo
capelo, que em preces angustiadas, diante do altar, pediam misericrdia
a Deus.

E uma voz se levantou na multido da soldadesca e de marinheiros: - "As
freiras". Um sargento malvado, ainda na embriaguez da chacina pouco
antes verificada, bradou  soldadesca sedenta de violncias: 

- "Ao convento!" Ento aqueles homens que regressavam de um combate
encarniado, se arremessaram como feras sedentas de sangue contra a
grande porta de jacarand lavrado do vetusto convento da Lapa. 

Ao estrondear dos coices de espingardas na velha porta da igreja
conventual, acudiram o capelo padre Daniel da Silva Lisboa e a abadessa
Joana Anglica. E l em cima, junto ao altar, trmulas e chorosas, as
freirinhas rezavam. O capelo Daniel deu volta  chave, o gonzo antigo
rangeu nos eixos, e portas abertas, a soldadesca estacou diante daquelas
duas respeitveis figuras.

A abadessa empunhava um crucifixo de prata e o capelo apresentava o
Santssimo.

O padre Daniel, velho de 70 anos de idade, com uma larga cabeleira
branca agitada pelo vento, olhos luzentes e faiscantes de apstolo ou
profeta, imprecou a turba sanguinria que se estacara diante da sua
majestade sacerdotal e do smbolo sacrossanto que ele apresentava na
destra:

- "Sacrlegos, que fazeis?! Parai, em nome de Deus!" Mal acabou de falar
e j um soldado que se achava na frente de todos, com uma brutal
coronhada de espingarda, partia a cabea do ministro de Deus. 

O velho capelo baqueou ensangentado e de p, ao lado do corpo do
padre, se agitou a figura delicada e venervel da abadessa Joana
Anglica, que alou a cruz, exclamando:

- "Oh! Deus do cu! No permiti que eu veja estes miserveis violarem a
clausura sagrada de vossas esposas e de vossas servas. Salvai- nos,
Senhor, e castigue os profanadores!" 

O mesmo soldado que, com uma coronhada abatera o velho capelo, enristou
a baioneta e com ela levantou para o ar o corpo da freira. O sangue da
mrtir, que fora assim levantada na ponta da baioneta, caiu sobre a
cabea do rprobo, e, molhado nesse sangue, se desprendeu a destra da
freira assassinada o crucifixo de prata. Dois corpos baquearam ao mesmo
tempo no portal do convento da Lapa: o da abadessa e o do soldado. Deus
ouvira a imprecao da freira, e quando o assassino lhe cravara nos
seios a baioneta e a levantara para o alto como um trofu sanguinolento,
o crucifixo de prata ensangentado se desprendera das mos da abadessa
Joana Anglica e cara na nuca do sacrlego, partindo- lhe o osso
occipital e dando- lhe assim morte imediata, fulminante. 

Enquanto isso, as freirinhas da lapa, como se fora um bando de rolas
assustadas pela aproximao de milhares de abutres, fugiram pelos fundos
do altar, ganharam o quintal do convento, e escapuliram pelas casas
vizinhas.

Isto consta das crnicas antigas e autnticas da Bahia. ___ 

A Lgica do Porrete O jornalismo de oposio e o regime do pau  muito
velho em nossa terra e nasceu com a prpria nacionalidade. O
aparecimento, no Brasil, do primeiro jornal vermelho, registrou a
primeira surra na cacunda do primeiro jornalista da oposio. 

Em 15 de Dezembro de 1821 apareceu um jornal com o ttulo de "A 

Malagueta", destinado, dizia o redator num manifesto aos cariocas, a
queimar com a pimenta da crtica a lngua louvaminheira e a boca voraz
dos aduladores do Pao e dos Prncipes. 

Como se v, pelo ttulo e pelo programa, era esse um jornal vermelho. E
no fosse "Malagueta"... 

O redator de tal imprensa era Luiz Augusto May, ex- aluno da
Universidade de Coimbra, ex- soldado de Jos Bonifcio no famoso 3. o
batalho de estudantes, da brigada do general Trant, em 1808, quando foi
da invaso francesa em Portugal e conseqente fuga de D. Joo VI para o
Brasil.

May fazia parte da clebre loja manica da Praia Grande (Niteri) onde
era influncia o negociante Manoel Joaquim Portugal Lima, com loja na
rua do Ouvidor, n. 15, e armazns nas proximidades da Alfndega. Esse
mercador abastado era grande ledor de panfletos carbonrios, conforme se
verificou na devassa que a polcia lhe fez em 1822, e foi ele quem
comprou no Havre a pequena tipografia na qual se imprimiu o primeiro
jornal oposicionista do Brasil. Com amplas probabilidades de vencer,
tendo a garantia de uma pena desabusada de panfletrio, a bolsa de um
opulento negociante e a voraz curiosidade que sempre os cariocas tiveram
pelos escndalos polticos e familiares, por certo essa imprensa tinha
que vencer e venceu. Foi um sucesso. Em 1823, dizia um boletim da "A
Malagueta", o jornal contava somente na corte cerca de 500 assinaturas. 

E enquanto o "Reverbero" do cnego Janurio e de Gonalves Ledo morria
por falta de assinaturas, a gazetinha de Luiz Augusto May ia de vento em
popa. Porm, no h medalha sem reverso. O triunfo custou- lhe uma sova
de pau, na qual tomaram parte o prprio imperador e seu ministro
Bonifcio.

Vejamos essa histria que merece agora um lembrete, para amainar a
animosidade dos atuais plumitivos que julgam ser a sova jornalstica,
novidade da Repblica.

Em 5 de Junho de 1823, saiu um nmero extraordinrio da "Malagueta",
onde vinha uma atrevidssima carta- aberta de ataques aos Andradas e ao
Imperador. No dia seguinte, domingo, Jos Bonifcio passou a cavalo em
frente  casa do redator do jornal oposicionista, casa essa que tinha o
nmero 77 da rua S. Cristvo. A, no porto, estava o feitor da chcara
a quem o ministro deu o recado:

- "Que o redator da "A Malagueta" o esperasse  noite, pois lhe faria
uma visita de corteses esclarecimentos. Seria coisa de um instantinho". 

O jornalista Luiz May ficou em casa, mandando porm sua mulher e filhos,
com a sua cunhada d. Mariana Lopes de Arajo Azambuja, para a rua Mata-
Cavalos, em casa de uma comadre, onde jantaram. Depois, convidou vrios
amigos para servirem de testemunhas da visita e humilhao do poderoso
ministro de D. Pedro I - o famigerado paulista Jos Bonifcio. Queria
que se registrasse o prestgio de um rgo oposicionista, que se dizia
ser o defensor dos direitos do povo, a voz da justia, o ltego dos
tiranos, etc., etc.

L chegaram para o edificante espetculo alguns amigos valentes e
destemidos, cujos nomes o processo mencionou: Luiz Saldanha, padre
Antonio Gomes, vigrio de S. sebastio; Antonio Jos da Silva Calado,
cirurgio- mr da Academia da Marinha. Ia animada a prosa e j os
circunstantes motejavam do ministro e do imperador, em sonoras
gargalhadas, quando s 8 horas da noite, aps o servio do ch, quatro
homens irromperam inesperadamente pela sala a dentro, manobrando
terrveis espadages.

O intrpido apstolo das massas populares, redator da "A Malagueta",
tinha posto no porto uma escrava para o avisar da aproximao de quem
quer que fosse. Mas a preta, agarrada e ameaada de morte, no deu pio,
deixando de dar aviso da chegada dos inimigos. Neste ponto, daremos a
palavra ao advogado que descreveu a cena conforme o processo- crime: 

- "Os assaltantes invadiram a casa inesperadamente e, entrando na sala,
o primeiro que avanou deu um golpe de espada sobre May, que a esse
tempo, suspendendo um castial, para melhor ver o rosto dos agressores,
se sentiu ferido, reconhecendo em quem o feria o prprio Imperador.
Apagadas as luzes que estavam na sala, o cirurgio Calado precipitou- se
pela janela, o vigrio meteu- se debaixo do piano de cauda, e May,
surrado, aproveitou a escurido e fugiu. Os agressores, acutilando os
trastes s escuras, quando j no podiam acutilar os presentes, que
escapuliram  sua fria, desceram pela escada e escaparam. O feitor,
ouvindo o barulho, correu para dentro, armado de foice, mas nada pde
fazer porque tudo j estava consumado.

Luiz Augusto May, logo que viu os assaltantes descerem escada abaixo,
arrastou- se de gatinhas no escuro e mesmo com a mo cortada, de que
ficou aleijado, e com a cabea partida e ensangentada, saiu de casa e
foi cair num valo que separava a sua chcara da em que morava o padre 

Serafim dos Anjos. Estava chovendo, mas uns ces, que o padre tinha para
guardar a sua propriedade, deram o alarme, e por isso mandou o padre ver
o que era aquilo. O escravo foi e voltou, informando que no valo de
separao das duas chcaras estava um homem ferido, gemendo e pedindo
socorro. Ento o piedoso sacerdote, muito doente, com cerca de 80 anos,
tomado de caridade crist, foi ao local, com dois pretos e reconheceu o
seu vizinho naquele homem quase morto. Conduzindo- o para a sua cama,
mandou chamar um cirurgio que pensou as feridas.

Nessa ocasio, apareceu o imperador no porto e sorrindo perguntou ao
grupo que estava ali se tinham matado o May. O ministro Jos Bonifcio
foi visto naquela noite chuvosa na rua Engenho Velho, montado a cavalo,
fato esse muito fora dos seus hbitos".

A est o depoimento de uma parte do processo. Curado da formidvel
surra governamental, pois ao Imperador e ao ministro se atribura a
responsabilidade do delito, cujo processo no deu em nada, o jornalista
Luiz Augusto May no se emendou e com mais violncia atacou a gente do
governo que lhe quebrara a mo direita e lhe marcara a cabea com uma
brecha. E clamou num violentssimo artigo:

- "Podem os capangas do governo repetir as suas agresses, podem at
matar- me. Se eu morrer, aparecer outro que me substituir, porque o
pensamento no pode, a no ser que se queira fazer do Brasil Turquia ou
frica,  impedir que a "A Malagueta" circule e seja lida, ardendo na
conscincia dos polticos rancorosos e maus, dos ministros corruptores e
de um imperador Bamboche. E h de circular, porque estamos num pas
livre".

E realmente, garantido pela liberdade de imprensa, esse jornaleco
circulou at 1832, durante 10 anos, morrendo com o seu prprio diretor e
criando no Brasil, para gudio dos paladares de assuntos salgados, esse
jornalismo vermelho que faz at hoje a delcia do pblico brasileiro. 

___ A Queda de um Ministro 

Ao decreto de 17 de Julho de 1823 prende- se um episdio
interessantssimo dos bastidores de nossa histria. Conta- o rapidamente
o historiador Melo Morais e circunstanciadamente "Um deputado", no
folheto "Ingratides de Csar", publicado em 1831.

Sobre a queda dos Andradas discorreu um dos mais brilhantes cronistas de
Pedro I, da seguinte maneira: - "Por fora do papel de organizador
supremo de nossa unidade e do fundo intrnseco de intolerancismo, Jos
Bonifcio, que tinha sido infavorvel ao relevamento inscrito no decreto
de 22 de Setembro de 1822, foi o autor de quatro portarias, que poderiam
ser apostiladas por Draco no cdigo de ferro. A primeira, em ordem de
data, mandava "devassar nas provncias os inimigos do governo" e nela se
ordenava cuidar sem perda de tempo de vigiar e descobrir com todo esmero
e novidade quaisquer ramificaes deste infernal partido (o de Gonalves
Ledo). Goethe achava odiosos os missionrios da liberdade e os
satirizava: "no pedem para eles seno o poder absoluto". O patriota
(Jos Bonifcio) transmudado em mando de aldeia, recalcava a liberdade
de que tinha sido apstolo e soldado e da qual o seu grande esprito era
o mais legtimo dos filhos.

Pois bem. D. Domitila, tendo falado em perdo e anistia ampla aos
insurrectos do Rio e de So Paulo, sendo que a estes a prendiam laos de
conterrnea, Jos Bonifcio, o spero e digno homem de Estado, que
concordava com a indulgncia, mas exigia o julgamento prvio de rus,
num luxo de autoridade e justia desencadeadas, acusou- a de concusso. 

D. Pedro, a 17 de Julho de 1823, esporeado pela injustia do conceito
que enxovalhava a amiga, e insuflado por certas comunicaes como a da
carta a que alude a viva Graham, contendo mais de 300 assinaturas de
queixosos das violncias dos Andradas em So Paulo, arranca- se da cama
onde se achava enrolado em ataduras, e, interrompendo a conferncia com
o seu egrgio interlocutor (Jos Bonifcio), envolveu- se num manto e
escapou- se para a averiguao em que o seu denodo se comprazia. Fora
caiam pancadas d'gua. Aguardavam- no alguns oficiais e o piquete de uns
cincoenta soldados. Todos montavam em cavalos desferrados para
ensurdecer a ronda. A noite era propcia  diligncia imposta por
denncia annima. No havia um gato nas ruas. Galopar fnebre o daqueles
vultos embuados e silenciosos. O tropel deteve- se. Apearam- se  porta
conhecida, a do "Apostolado", couto de dscolos e enfticos, refgio de
dissidncia

manica, cozinha de mal assombrados da Constituio que no veio a
termo, homizio de insdias e conluios de politicantes. A entrada do
afiliado e gro mestre foi feita segundo protocolo de simbolismos
ttricos. Chusma de punhais enristaram- se  passagem do Arconte- Rei;
os que o acompanhavam, ignorantes do ritual e supondo que atacavam o
Imperador, puxaram das espadas. Contendo os companheiros, D. Pedro
arredou- os para o vestbulo. Em passadas resolutas, e de sobrolhos
carregados, ele se apossou da cadeira da presidncia, donde expulsou
Antonio Carlos. Assenhoreando- se dos papis encontrados sobre a mesa,
D. Pedro dirigiu a palavra aos circunstantes, ditando- lhes com toda a
calma:

"Podem retirar- se, ficando cientes que no haver mais reunies no
Apostolado sem a minha ordem". Os soldados da escolta, na porta da
sada, abriram alas aos supostos conspiradores, que passavam inclumes
para outros focos de intriga e outros covis de rebelio... No se ergueu
um brao armado, no chocalhou uma algema.

Nessa noite de 17 de Julho de 1823 se lavrou o desfavor dos Andradas. Os
despachos de demisso de Jos Bonifcio e de Martim Francisco redigidos
sem rancor, no mesmo tom dos de suas nomeaes, e publicados a 21 de
Julho, trazem precisamente a data da noite do varejo e da estalada. De
sorte que teriam as supostas alcavalas de D. Domitila, emparelhada com
Oeynhausen, a utilidade de tirar a limpo as infidelidades do egrgio
valido e dos seus irmos, todos carbonrios.

Oficialmente consta que, em 17 de Julho, D. Pedro se vestiu e deu as
primeiras passadas de convalescente". 

Nessa pgina, escrita pelo veraz cronista, revela- se em cores vivas a
queda dos Andradas. 

O golpe fora tremendo. No dia 18, D. Pedro escreveu uma proclamao aos
brasileiros. Em 21 surgiu publicado o decreto de demisso do grande
Ministro, porm com a data de 17. 

Assim caiu o Conselheiro Jos Bonifcio. Tendo perseguido tenazmente
seus inimigos polticos, ficou sendo ele o chefe incontestvel da
Poltica nacional. Na Assemblia Constituinte mandavam os Andradas. Nas
ruas os seus cabos eleitorais imperavam. Nos quartis os seus amigos
militares esperavam ordens do grande paulista. D. Pedro, irritadssimo e
ainda malso dos ferimentos que recebera nas costelas (de um tombo,
diziam alguns; de

uma sova, afirmavam quase todos), foi avisado pelo intendente de polcia
que "grandes acontecimentos" se preparavam. Faltou- lhe ento a coragem
para nomear como substituto de Bonifcio um declarado adversrio desse
poltico ilustre e quis contemporizar, chamando para primeiro ministro o
Dr. Pedro de Arajo Lima, homem de grande respeito e muito querido no
Brasil inteiro. Alis, era amigo ntimo e compadre do ministro decado,
e mesmo correligionrio, porm moderado, dos Andradas.

D. Domitila queria que o novo ministro fosse Oeynhausen ou Costa
Carvalho. D. Pedro I, porm, consultando os nimos da tropa e do povo, e
ouvindo a opinio do intendente da polcia, mandou chamar ao Dr. Pedro
de Arajo Lima e ofereceu- lhe o lugar de primeiro ministro, na
substituio de Jos Bonifcio. O Dr. Arajo Lima, alegando molstia e
fingindo- se muito doente, pediu licena para no aceitar. O verdadeiro
motivo era no querer servir de instrumento contra os Andradas. Nomeado
o novo Ministrio, este entrou logo em luta com a Constituinte e com o
partido andradista. Os Andradas em pouco tempo fizeram da Assemblia um
campo revolucionrio, procurando contrariar o Imperador. As coisas
marchavam de tal modo que em 12 de Novembro de 1823 D. Pedro dissolveu a
Assemblia Constituinte e mandou prender Jos Bonifcio e seus
comparsas. O povo, que se afeioara aos Andradas, movimentou- se.
Correram boatos de revoluo na Corte e nas Provncias. Ento, pela
segunda vez, D. Pedro se lembrou do Dr. Pedro de Arajo Lima, que era o
dolo da populaa, respeitado por todos, andradistas e ledistas. Mandou
lavrar o decreto do exlio, em 18 de Novembro de 1823, e no dia 19,
temendo qualquer movimento, dispensou do servio vrios oficiais
afeioados aos Andradas. Depois chamou o Dr. Arajo Lima, a quem disse
estas palavras:

- " a segunda vez que o chamo. Deportei os Andradas e seus apaniguados.
Preciso no ministrio de um homem da sua qualidade. Da vez passada o
senhor alegou doena para no me servir. Desta vez o que alega?" 

O prestigioso brasileiro respondeu: - "Nada. Estou pronto a servir a
Vossa Majestade com todo o patriotismo que tenho. Serei Ministro. Servo
obediente, estou pronto para o que me ordenar. Porm permita, Senhor,
que eu pea uma graa pelos servios que de mim Vossa Majestade exige. 
uma merc que o Brasil inteiro pede por minha boca: Anule, Senhor, o
decreto de exlio do Dr. Jos Bonifcio de Andrada e de seus irmos. O
Brasil no pode ver no exlio as

suas verdadeiras glrias...". D. Pedro franziu o sobrolho, e naquele
cacoete que bem o caracterizava nos momentos de clera, bateu com a mo
esquerda na nuca. Seus olhos fuzilavam, raivosos, estriados rubramente. 

Era a crise epilptica que se avizinhava, violenta e irreprimvel. E com
os lbios trementes, umedecidos por uma tnue espuma salivar, bramiu,
roufenho e ameaador:

- "Cachorro!" Placidamente o sbio poltico fixou seus olhos no
Imperador e lhe respondeu, sereno e resoluto: 

- "Ento Vossa Majestade procure outro... que no seja cachorro". Irado,
possesso, o imperador segurou Arajo Lima pelo brao. E num rpido
movimento de impulso atirou para longe de si aquele a quem acabava de
oferecer uma pasta de primeiro ministro.

Cara com a agresso, o amigo dos Andradas. E, ao se levantar, murmurou
um palaciano que o acudira delicadamente, lastimando o incidente: 

- "Agora caem os patriotas... Um dia cair Sua Majestade..." E Pedro I,
em verdade, caiu em 7 de Abril de 1831, quando, no campo de Santana, o
exrcito e o povo, irmanados, provocaram a abdicao... e conseqente
exlio, para todo o sempre, do ex- imperador.

___ Agonia de Me 

Em princpio de Novembro de 1826, D. Leopoldina, imperatriz do Brasil,
adoeceu. No encontrando melhoras com o seu mdico habitual, recorreu ao
cirurgio- mr da Corte, conselheiro Domingos Ribeiro dos Guimares
Peixoto. A imperatriz teve delivramento prematuro, cujas conseqncias
lhe determinaram a morte, dias depois. O "Dirio Fluminense" de 4 de
Dezembro de 1826, assim se expressava:

"Os ansiosos desvelos, os aflitivos cuidados que, com tanta justia, tm
inquietado os honrados habitantes desta leal Corte acerca da preciosa
sade de S. M. a Imperatriz; os fervorosos votos pela terminao de um
incmodo, desgraadamente prolongado, e que pelo seu carter assustador 

fez estremecer os generosos coraes de um povo, que adora as virtudes
da augusta paciente, se tem mostrado de maneira mais evidente, pelo
concurso inumervel de pessoas que se dirigem  Imperial Quinta da Boa
Vista, desejosas de ouvirem uma favorvel notcia ou ao menos uma
lisonjeira esperana. Os criados da Imperial Casa, que de mais perto tm
a fortuna de admirar as sublimes qualidades de Sua majestade, desde as
classes mais elevadas at as mais inferiores, so inseparveis daquele
recinto, onde est retratada a dor e a aflio. Os Exmos. Srs.
Conselheiros, ministros e secretrios de Estado empregam todos os
momentos que lhes deixam suas poderosssimas ocupaes, em mostrarem
assiduamente sua solicitude, revezando a sua assistncia de maneira que
sempre se ache presente ao menos um. Quase no desamparam o Pao o Exmo.
Mordomo- mr, a Exma. Camareira- mr, o baro Marschal (ministro da
ustria), os titulares e as pessoas mais distintas e qualificadas,
demonstrando todos o mais vivo interesse pela sade de S. M. Imperial,
ardendo em nsias pelo seu restabelecimento, to necessrio  nossa
felicidade. No  s no Imperial Pao que se observam to generosos
sentimentos: nas praas e nas ruas desta cidade, nas conversaes
domsticas, o primeiro e pode dizer- se o exclusivo objeto de todas as
esperanas  que o Supremo Rei dos Reis atenda s humildes e fervorosas
splicas que lhe dirige o povo brasileiro, acompanhando a Igreja nas
preces pblicas que j se ordenaram e comearam nos sagrados templos,
para que deus nos conceda, ainda por dilatados anos, a vida preciosa
d'Aquela, que, hoje, absorve todos os nossos cuidados e que  o augusto
objeto de nossos votos".

Como se v, era geral a consternao. O mesmo "Dirio Fluminense" dizia
ao pblico:

"Enquanto durar o muito sentido estado de incmodo de S. M. a Imperatriz
e continuarem as preces pela sua preciosa sade, no haver espetculos
nesta cidade".

Trs mdicos revezavam- se  cabeceira da Imperial enferma: eram eles os
Drs. Jernimo Alves de Moura, Domingos Ribeiro dos Guimares Peixoto e
Vicente Navarro de Andrada (baro de Inhomirim). 

O povo ia sendo avisado do estado da imperatriz, em boletins dirios. No
7. o boletim, s 6 horas da tarde, o chefe do corpo clnico informava: -
"Sua Majestade no tem passado melhor; tm continuado todos os sintomas
do mesmo modo que de manh e como o estado do crebro e dos 

nervos, cujas funes aparecem, hoje, mais perturbadas, exigisse uma
ateno particular, resolveu- se na conferncia que se fez s 11 horas,
juntar ao uso dos remdios, em que se achava, cnfora, ter, um
vesicatrio na nuca e sinapismos, e substituiu- se o vinho quinado 
gua de Inglaterra. Esperamos pelos efeitos desta modificao no
tratamento para se decidir na conferncia que h de haver pelas 8 horas,
se convm mais alterao - 

Baro de Inhomirim ". Entretanto a imperial doente piorava. No 15. o
boletim, explicava o mdico: 

- "Sua Majestade continua a passar mal e como tivesse pelas 11 horas
desta manh um arrefecimento considervel nas extremidades, administrou-
lhe o Excelentssimo e Reverendssimo Bispo Capelo- Mr a extrema-
uno; presentemente cessou qualquer arrefecimento e acha- se S. M. do
mesmo modo e com a mesma gravidade de molstia que se publicou nos
boletins anteriores. - Baro de Inhomirim ".

No dia seguinte, 11 de Dezembro de 1826, s 10 horas da manh, informava
o mdico:

"S. M. a Imperatriz tem passado pior; as suas foras vo desaparecendo e
tudo quanto faz parte da sua enfermidade tem piorado. Tem- se posto em
prtica tudo quanto se podia aplicar interna e externamente e no h
recurso que no se tenha tentado, por deliberao das conferncias
feitas de manh e de tarde. S. M. ainda vive e as diligncias ainda
continuam, mas o seu estado  para desanimar. - Baro de Inhomirim ". 

Finalmente, s 10 horas e um quarto, desse mesmo dia 11, surgia a
notcia lutuosa no seguinte boletim: 

"Pela maior das desgraas se faz pblico que a enfermidade de S. M. a
Imperatriz resistiu a todas as diligncias mdicas, empregadas com todo
o cuidado por todos os mdicos da Imperial Cmara. Foi Deus servido
chamla a si pelas 10 horas e um quarto. - Baro de Inhomirim ". 

Quando se soube que o estado de sade de Leopoldina era desesperador,
todas as suas amigas, diante do Santssimo, exposto na capela do Pao,
iniciaram a orao dos agonizantes. Aps a prece fervorosa, uma das
senhoras presentes, a Marquesa de Aguiar, confidente da Imperatriz, foi
ao quarto da imperial amiga. E a se manteve at o desenlace. 

Plida e ofegante, D. Leopoldina apertou a mo da amiga, dizendo- 

lhe, com as lgrimas nos olhos, que ia partir da terra para uma vida
melhor, pois estava certa de que Deus a acolheria, porque sofrera muito
neste mundo...

Um tremor convulsivo da doente provocava nos alvos lenis de cambraia
ondulaes suaves, lembrando o dorso duma torrente do vale quando a
brisa a beija nas manhs de maio. 

Elisa Rohan, a pedido da Imperatriz, retirou do pequeno oratrio doirado
a imagem de Nossa Senhora das Dores. E a moribunda. Nos ltimos
instantes da sua vida de santa, apertou, bem perto do seu nobre corao,
aquela efgie sagrada de me que tanto soube amar e sofrer, como em
geral sofrem e amam as mulheres que so mes. Depois, fixou com seus
olhos azuis, que se iam apagando na vitralizao da morte, a amiga
predileta, Marquesa de Aguiar. Duas lgrimas sulcaram lentamente em sua
face desmaiada, e suavemente seus olhos se voltaram para a imagem de
Maria santssima. Beijou- a, com muita devoo e num balbuciar que mais
se assemelhava a um gemido de dor, proferiu suas ltimas palavras,
colhidas pela amiga e pelo capelo:

- "Me do Cu, protegei meus filhinhos, meu marido e o Brasil..." E
assim morreu a primeira Imperatriz da terra de Santa cruz, pensando no
marido querido, nos filhinhos adorados, e no Brasil, ptria que tambm
se tornara sua, pelo corao e pelo amor...

___ Festanas de Outrora 

Os ledores de jornais antigos do Brasil encontraro na imprensa carioca
de 1821 a narrativa dum famoso baile que aos prncipes D. Pedro e a D.
Leopoldina ofereceram os oficiais lusitanos, auxiliados,
pecuniariamente, pelo comrcio portugus do tempo.

Essa principesca e assombrosa festa que foi, durante muitos anos,
assunto obrigatrio na nobreza do primeiro imprio, teve como promotores
o general Jorge Avilez, comandante das tropas portuguesas do Rio, e o
abastado

negociante e argentrio comendador Joo Coelho Caminha. Na seriao dos
acontecimentos polticos que provocaram o desmembramento do Reino Unido
do Brasil e Portugal, esse baile clebre representa o termmetro
revelador das dissenses profundas que em 1821 separavam inexoravelmente
a gente brasileira da gente lusitana.

Como um exemplo de valor moral dos brasileiros de 1821 e de uma festa do
primeiro imprio, aqui transcrevemos a descrio que desse baile fez um
capito de milcias daquele tempo: 

- "s 8 horas da noite comearam a correr as pessoas que tinham que
assistir quele baile. 

A maior parte dos militares que no tinham comisso e se no propunham
figurar na festa foram ocupar as diferentes ordens de camarotes (o baile
foi no teatro) assim como muitos magistrados e outros indivduos que
queriam estar comodamente.

As demais pessoas iam entrando pela sala do baile. As senhoras eram
recebidas pelo mestre- sala e conduzidas  porta principal da platia.
A, um mestre- sala e um membro da comisso lhes ofereciam com a mxima
gentileza e donaire uma belssima e artstica medalha de prata dourada,
pendente de um lao de fita azul- claro e encarnado. Estas medalhas
tinham o feitio das que sua majestade mandara cunhar para os militares
que se distinguiram nas ltimas guerras da Europa.

Mais ou menos uma cruz. Foram numeradas desde 2 at 324, tendo no
reverso a data de 1821, primeiro da regenerao nacional pela
Constituio.

Cada senhora que chegava recebia uma medalha, cujo nmero correspondia 
ordem de chegada, em relao s que j tinham vindo. E assim eram
conduzidas aos assentos da sala. Haveria para as senhoras quatro mesas
de doces. Na primeira se assentariam as de nmero 2 at 100; na segunda,
de 101 at 200; na terceira as de nmero 201 a 300; na quarta, as
restantes.

Adotou- se tal critrio de numerao para que no houvesse melindres
ofendidos pela preferncia desta ou daquela mesa. A cruz nmero 1 era
feita de ouro, ricamente burilada, e estava reservada para a senhora
princesa real D. Leopoldina, posto que no tivesse o mesmo fim das
outras.

s oito e meia da noite a orquestra rompeu uma sinfonia. Depois executou
vrias peas de msica at 9 horas, quando surgiram na entrada 

do salo os prncipes D. Pedro e D. Leopoldina. De p, a assistncia,
acompanhada pela orquestra, cantou o hino constitucional, que era letra
e msica do prprio prncipe regente. 

Terminado o hino, disps- se tudo para o incio do baile. O
tenentegeneral Jorge Avilez, num vistoso e brilhante uniforme de gala,
dirigiu- se marcialmente em direo  formosssima e graciosa condessa
de Belmonte, curvou- se gentilmente diante dela, e pediu- lhe a honra de
uma contradana. A condessa, com um cativante sorriso, levantou- se e,
agradecendo a gentileza do general, ofereceu- lhe o brao. E o par,
sozinho, deu a volta pelo salo. O general era o homem mais bonito e
mais gentil da sala; a condessa era a senhora mais graciosa e mais
cativante. Terminada a volta pelo salo, o lindo par deteve- se diante
do trono dos prncipes e graciosamente se curvou, em respeitoso
cumprimento. O prncipe estendeu a destra ao general e a princesa 
condessa. Ambos ento beijaram as mos que se lhes estenderam.

Nessa ocasio, a orquestra rompeu uma valsa vienense, e o par, como duas
borboletas juntas, revoluteou pelo salo. Era o sinal. Os cavalheiros,
dirigidos pelos mestres- salas, procuravam as damas. E o baile animou-
se. A ordem era uma contradana austraca, alternada sucessivamente com
contradanas inglesas, francesas e espanholas.

A valsa era a dana que predominava. A comisso da copa tinha mandado
aprontar grande quantidade de doces prprios para ch e com eles, em
ricas bandejas de prata, iam os cavalheiros da copa servindo as damas,
durante os intervalos das danas.

As damas, quando queriam, procuravam o toucador, onde se concertavam, se
necessrio, e onde encontravam vrias criadas, para todos os servios
que desejassem e at trajes para mudar. Os prncipes dignaramse honrar
com a sua augusta presena todos os departamentos destinados para os
diferentes usos dos convidados, dando aos encarregados de cada um deles
todo o merecido louvor pela delicadeza e asseio com que tudo era
dirigido, chegando ao extremo de bondade de sarem do lugar que se lhes
reservara e permanecerem no salo com os convidados, durante algum
tempo.

s 11 horas, houve a ceia dos prncipes, servidos pelos criados do pao
e assistidos por trs cavalheiros e trs damas da melhor nobreza, que
faziam parte da comisso de recepo, composta de dez membros. 

Quando terminou a ceia dos prncipes, os membros da comisso da 

mesa descerraram o pano do proscnio e surgiu no palco a grande mesa da
ceia geral dos convidados, tendo a forma de uma estrela, toda iluminada
com candelabros de prata e servida em baixela de prata e da mais fina
porcelana. Para a primeira mesa foram as senhoras que tinham medalhas
at o nmero 100, e na cabeceira de cada mesa, que formava um dos raios
da estrela, se colocava uma das senhoras destinadas a fazer as honras da
festa, e no meio de cada um lado um dos cavalheiros mestres- salas para
servirem as senhoras. Enquanto este primeiro turno de senhoras ceava
alegremente, as outras damas danavam ou tomavam refrescos. 

Quando se acabou a primeira mesa, em um instante se renovaram todas as
peas e pratos e tiraram os guardanapos servidos, pondo- se outros
limpos. E assim se foram repetindo os turnos, at o ltimo, que j se
fez na madrugada do dia 25, reformando- se sempre a mesa com pratos
novos e com a maior prontido, por ser avultado o nmero de criados
destinados para aqueles e para outros servios. Nesta principesca festa,
oferecida pelos oficiais da 1. a ,2. a , e 3. a linhas e corpos de
marinha, auxiliados pecuniariamente pelo comrcio, gastaram- se 53
contos".

Mello Morais, no Brasil- Reino, apresenta uma descrio parecida com
esta, sem dizer onde a encontrou. 

Eis a como no Brasil- Reino se faziam festas maravilhosas. Menos
brilhante foi a do Clube dos Dirios, oferecida pelo alto comrcio ao
presidente da Repblica, em 1920. 

Referindo- se ao baile de 1821, comenta Mello Morais no Brasil- Reino: -
"Apesar do concurso e da m educao dos oficiais lusitanos que davam o
baile, no houve ocorrncia de maior importncia, a no ser a ausncia
da gente grada brasileira, que, sendo convidada, s uma ou outra pessoa
apareceu por condescendncia ao prncipe, circunstncia que no escapou
a D. Pedro. Os oficiais dissimularam e no deram a menor demonstrao de
haverem percebido, salvo mais tarde, quando a sociedade foi diminuindo e
se limitou a eles s. Este baile ps a limpo a ciso mais ou menos
encoberta que j havia entre brasileiros e portugueses. No era preciso
refletir muito para ver que no nimo de cada brasileiro passava alguma
coisa que se no podia amalgamar". 

E essa "alguma coisa" era justamente o sentimento separatista que
latejava na conscincia brasileira de 1821. 

O "Anurio", de Mr. Planchet, editado em 1823, traz coisas 

interessantes sobre o carnaval do ano da nossa Independncia. Igualmente
interessantes so os relatos dos jornais: "O Espelho", "A Malagueta" e a
"Vespa".

Nunca houve, at ento, to belo carnaval. Formou- se nesse ano, e nesse
ano mesmo desapareceu, uma sociedade carnavalesca para as homenagens a
Momo: "Cavaleiros da Folia". Dela faziam parte rapazes e moas das
principais famlias brasileiras, sendo presidente honorrio o prncipe
D. Pedro e presidente efetivo um filho do visconde do Rio Seco. Apareceu
o prstito, composto de oito carruagens e 36 cavaleiros. No se faziam
carros de crtica, como hoje.

No primeiro carro estava o filho do visconde do Rio Seco, ladeado por
uma irm e pela filha do comendador Vtor da Silva Pinto. O rapaz se
fantasiara de Luiz XIV, e empunhava um estandarte de seda, com bordados
de ouro, exprimindo o nome e a data da fundao da sociedade. Em baixo,
as palavras "Evoh!" "Evoh!"

A primeira carruagem rodava puxada por quatro fogosos cavalos brancos,
cada qual montado por um pagem vestido de escarlate. 

A senhorita Silva Pinto representava Isabel da Inglaterra e a outra
companheira, catarina da Rssia. 

No segundo carro, puxado por animais pretos, viam- se os representantes
do Olimpo: Jpiter, Juno, Vnus, Apolo e Cupido, este representado por
uma linda criana, filha do camareiro- mor do Pao. 

No terceiro carro, homenagem  princesa Leopoldina, havia personagens
gloriosos da ustria: Maria Teresa, representada pela condessa de
Belmonte; Francisco I, representado por d. Jos Plcido; Metternich, por
d. Paulo de Souza, sobrinho do duque de Palmella, e trs crianas,
simbolizando a Justia, a Glria e a Felicidade.

No quarto carro, Orfeu, ao lado de Psique, cercado pelas trs Musas e
trs Graas.

No quinto carro, homenagem a D. Pedro, viam- se vultos notveis da
histria portuguesa: no meio de todos, em lugar elevado, o duque de
Bragana, fundador da dinastia Bragantina; em torno dele dom Manoel e
Cabral; Afonso Henriques e Nuno lvares; d. Jos I e Pombal. 

O sexto carro era composto somente de senhoras e senhoritas que
cantavam, ao som de bandolins e guitarras, estes versinhos: 

- "Em um navio de oiro, Vejo, enfim, o meu amor, Quebrando um grilho
pesado, Da Ptria amada em louvor. 

Do trono mais elevado, S Ele ser sucessor: Da nossa terra querida,
Ser Ele imperador.

J na trombeta da fama Soa com graa e vigor: Viva o prncipe Regente,
D. Pedro, Nosso Senhor! 

- "Viva o Prncipe Regente, D. Pedro, Nosso Senhor! 

To grande impresso causaram no nimo de D. Pedro esses versinhos que,
logo, depois, quando os habitantes de Vila Rica organizaram as
festividades em honra do prncipe, que a visitava, encarregaram o poeta
local, Francisco Xavier da Cmara, de recompor essas quadrinhas para a
solenidade.

De fato, ao entrar o prncipe no Pao da Cmara, trinta moas de Vila
Rica, ao som da msica em surdina, entoavam os versos do poeta Francisco
da Cmara, mais ou menos como os dos "Cavaleiros da Folia". 

Nos trs ltimos carros, senhoras e cavalheiros cantavam, quando os da
frente se calavam, a quadra que servia de divisa aos carnavalescos: 

- "Se a vida toda se tece Nos fios do bem e do Mal, Cariocas, a grande
messe,  gozar o Carnaval!" 

Riqussimas eram as indumentrias. Porm, a mais bela fantasia foi a da
Senhorita Silva Pinto: um vestido azul de princesa, com orlas de lindas
e

vistosas prolas no colo, realadas por um colar de brilhantes, no
pescoo; em cima de cada seio, uma tecitura de ouro, circular; na
cintura, uma linda faixa de seda branca, bordada a ouro, presa por
artstica fivela do precioso metal, com cravaes de rubis e safiras. Na
cabea, uma diadema pequeno de prata dourada.

O cronista de quem tiramos este relato, afirma que essa toalete
certamente valeria, incluindo- se as jias, cerca de 40 contos. Para o
tempo, era isso uma fortuna, sabendo- se que a Chcara do Sisson,
compreendendo quase todo o bairro do Catete, fora vendida por 16: 500$
000, em 1809, e a Chcara da Glria, que compreende hoje trs ruas, foi
adjudicada, em 1817, pelo Coronel Matias da Silva Pinto aos duques de
Cardaval por 8: 000$ 000 e por estes revendida, dez anos depois, ao
marqus de Jundia, por 15: 000$ 000. 

O percurso do prstito foi o seguinte: Trajeto: largo e rua da Glria,
rua do Aterrado (hoje do Passeio); da Ajuda (hoje, em parte, Senador
Dantas); largo do Chafariz da carioca (hoje Largo da Carioca); rua do
Piolho (hoje da Carioca); praa da Constituio (hoje Tiradentes); rua
do Conde (hoje Visconde do Rio Branco); campo de Santana (hoje praa da
Repblica); rua So Joaquim (hoje Marechal Floriano); rua do Fogo (hoje
dos Andradas); rua do Ouvidor, at a rua Direita (hoje Primeiro de
Maro); largo do Pao (hoje Praa 15). 

Neste largo estiveram meia hora em batalhas de laranjinhas, 4 entre
cavalheiros do prstito e damas das sacadas do Pao da cidade, enquanto
as senhoras, no sobrado do comendador Silva, descansavam e se
dessedentavam com refrescos.

Do Pao seguiram pela rua da Cadeia (hoje da Assemblia); rua dos
Latoeiros (hoje Gonalves Dias), da tomando a rua da Vala (hoje
Uruguaiana), at o cruzamento com a rua do Sabo (hoje General Cmara),
que subiram at a ltima esquina, donde, atravessando a rua da Viola
(hoje Tefilo Ottoni), tomaram o rumo do campo de Santana, dissolvendo-
se a o admirvel cortejo dos "Cavaleiros da Folia".

To brilhante como este Carnaval, em que tomaram parte as mais fidalgas
famlias do Rio, s houve outro, em 1862, assim descrito por um
cronista:

"Numa escaldante tarde de fevereiro de 1862, tera- feira de Carnaval,
descendo pela rua de So Pedro, em direo  rua Direta (1. de Maro),
vinha um imponente conjunto de cavaleiros montados em animais de pura 

raa, ricamente ajaezados, arreios de prata e mantas de pura seda. Em
carros, as mais distintas famlias da cidade davam a nota "chique" com
variadas e riqussimas fantasias. 

Na direo da rua do Ouvidor o povo premia- se: Era o "Clube X" que,
pela primeira vez, aparecia ao povo carioca. Prstito pequeno mas rico,
s alegorias mitolgicas. O carro estandarte, puxado por dois camelos,
assombrava o povo, que no sabia o que mais admirar, tal luxo e
esplendor de tudo quanto lhe apresentavam.

O prstito seguiu vagarosamente o seu itinerrio, passando pela rua da
vala (Uruguaiana), do Piolho (Carioca), Latoeiros (Gonalves Dias), e
muitas outras, recolhendo- se alta noite, cerca de 10 horas (bons tempos
aqueles em que 10 horas da noite eram alta noite!) a um barraco situado
no caminho de Mata- Porcos".

O Carnaval de hoje  mais "republicano". Nos prstitos desapareceu a
nota brilhante da elite social. 

Marafonas seminuas, "escarrapachadas" em "poleiros" de papelo, ostentam
a sua impudiccia aos olhos congestos da plebe ululante e excitada. Um
milho de criaturas de todas as cores morais e sociais deblatera- se no
centro da "urbes" devassa e alucinada, pletorando a avenida Rio Branco e
adjacncias numa ascorosa confuso.

E assim se modernizou o carnaval carioca. ___ Partindo para sempre 

As tropas e o povo do Rio, ululantes, vibrando na vigncia de um poderio
que lhes fora desconhecido at ento, irmanados na mesma conscincia
imperativa da vontade nacional, que se revoltara contra um governo de
ulicos ou palacianos, em arranco de energia varonil, exigiram do
monarca a demisso do Ministrio.

Sentindo- se ferido no seu amor prprio, o Imperador abdicou o trono em
favor de seu filho, criana de quase seis anos de idade. 

No campo de Santana, a multido agitava- se, em estos revolucionrios.
Em S. Cristvo, D. Pedro e D. Amlia preparavam- se para a partida.
Passara assim o dia 6 de Abril de 1831. E j brilhava alm, no
horizonte, a estrela dalva, anunciando o dia 7, quando os imperadores
abdicantes foram ao quarto do novo monarca, o menino Pedro II. 

Sem compreender os trgicos acontecimentos do dia que se passara, a
imperial criana repousava placidamente, talvez sonhando com histrias
de fadas. Um leve sorriso debuxava- se em seus lindos lbios infantis. 

D. Pedro e D. Amlia contemplaram, emudecidos, com os olhos marejados de
lgrimas, aquele dormir de inocncia, enquanto l fora, bramia, furiosa,
a patulia revoltada.

Depois dessa contemplao, em que se dilacerara, na despedida, um
corao de pai, o ex- imperador baixou a cabea at o leito, e na fronte
do filho depositou o seu ltimo beijo. Duas lgrimas quentes deslizaram
rpidas, e aqueceram ligeiramente a face da criana. 

D. Amlia, comovida, tambm baixou os lbios at a cabecita loira do
imperial menino. Beijando- o duas vezes, viam- se na face da madrasta
dois sulcos luzidios, por onde descaiam, vagarosamente, lgrimas
sinceras de mulher que sabe amar e que sabe sofrer.

D. Pedro e D. Amlia iam partir, deixando, entregue aos seus sonhos
encantados, com ligeiro sorriso na flor dos lbios o novo imperador, que
ficava nas mos do destino, sob a proteo da alma brasileira, vigilante
e afetiva.

E iam partir... Na majestosa Guanabara, balouante, um vulto destacava-
se: era a nave inglesa "Warspite". A esse pedao da Inglaterra, atirado
s guas esmeraldinas de nossa famosa baa, o duque de Bragana, D.
Pedro de Alcntara, e sua esposa, D. Amlia, iriam pedir asilo na sua
desventura de imperadores sem Imprio.

Assim, nesse dia 7, os ex- imperadores se despediam da criana a quem
tanto amaram e que deixavam entregue ao carinho e lealdade do povo
brasileiro, estertorante na plenitude da sua soberania. 

D. Mariana Augusta Pinto Ribeiro, aafata da criana imperial, trouxera
as jias da ex- imperatriz. 

D. Amlia escolheu uma pequena cruz de brilhantes, jia que mais
estimava por ter sido o primeiro presente que lhe dera, em terra do
Brasil, o querido esposo. Juntando- a a uma carta, que pouco antes
escrevera, deu a
carta e a jia a D. Mariana, pedindo- lhe que as transmitisse ao jovem
prncipe, quando acordasse.

Na carta pusera a madrasta toda a afetividade de mulher que vive para o
amor e que sabe amar. Era o derradeiro adeus, grito angustioso dum
corao dilacerado pela despedida do ser que ela adotara como filho, e
que como filho amava, embora apenas fosse sua madrasta. 

S mulheres que so mes podero bem compreender as torturas que surgem
e resultem em momentos angustiosos duma separao como essa. Esta carta
que se vai ler, deixada por D. Amlia como despedida ao enteado,  um
pungente grito de dor.

Eis a carta da Imperatriz sem Imprio: 5 - "Meu filho querido, delcias
da minha alma, alegria de meus olhos, filho que meu corao tinha
adotado! Adeus para sempre!

O quanto s formoso nesse teu repouso! Meus olhos chorosos no se
puderam furtar de te contemplar! A majestade de uma coroa, a debilidade
da infncia, a inocncia dos anjos, cingem tua fronte de um resplendor
misterioso que fascina...

s o espetculo mais tocante que terra pode oferecer! Quanta grandeza e
quanta fraqueza a humanidade encerra, representadas por ti, criana
idolatrada: uma coroa e um bero!

A prpura ainda no serve seno para estofo, e tu, que comandas
exrcitos e reges um Imprio, ainda careces de todos os desvelos e
carinhos de me.

Ah! querido menino, se eu fosse tua verdadeira me, se meu ventre te
tivesse concebido, nenhum poder valeria para me separar de ti, nenhuma
fora te arrancaria dos meus braos! 

Prostrada aos ps daqueles que abandonaram meu esposo, eu lhes diria
entre lgrimas: "No sou mais Imperatriz, e sim a me amantssima...
Permiti que vigie o "nosso tesouro", que  esta criana e que  meu
filho e vosso Imperador. E eu lhes diria assim: 

- "Vs o quereis seguro e bem tratado, e quem o haveria de guardar e
cuidar com maior devoo seno eu, sua me. Apenas, sou tua madrasta,
embora te queira como se fosses o sangue do meu sangue. Um dever sagrado
me obriga a acompanhar o ex- imperador no seu exlio, atravs dos mares,
em terras estranhas... Adeus, pois, para sempre! 

Oh! mes brasileiras, vs que sois meigas e carinhosas para com 

vossos filhinhos, supri minhas vezes: adotai o rfo coroado, dai- lhe,
todas vs, um lugar na vossa famlia e no vosso corao. 

Se a maldade e a traio lhe prepararem ciladas, vs mesmas armai em sua
defesa vossos esposos, com a espada, o mosquete e a baioneta. Ensinai,
com voz terna, as palavras de misericrdia que consolam o infortnio; as
palavras de patriotismo que exaltam as almas generosas, e de vez em
quando sussurrai ao seu ouvido o nome de sua me de adoo, que sou eu. 

Oh! mes brasileiras, eu vos confio este preciosssimo penhor da
felicidade do vosso pas, de vosso povo: belo e inocente ele vos fica
entregue.

E tu minha criana querida, ests dormindo enquanto ns, teu pai e tua
me de adoo, partimos para o exlio, sem esperanas de nunca mais te
vermos... seno em sonhos.

Adeus, rfo- imperador, vtima de tua grandeza antes que o saibas
conhecer! Adeus, anjo de inocncia e formosura! Adeus! Deixo- te um
beijo, ainda outro... e mais um ltimo. 

Adeus, adeus para sempre. - Amlia". 

L, em plena Guanabara, a nave inglesa "Warspite" esperava os
eximperadores. Deviam partir... e partiram. Ao deixar o palcio,
lanando um ltimo olhar ao bero de Pedro II, a imperial madrasta,
lacrimejando, balbuciou para D. Mariana, aafata do Pao: 

- "Ah! minha amiga, se eu fosse me dessa criana, em vez de ser sua
madrasta, revoluo alguma conseguiria separar- me dela. Mais forte que
as revolues sanguinolentas dos homens,  um corao de me..." 

E saiu... Enxugando as lgrimas tpidas que sulcavam sua face, D.
Mariana virou- se para a outra aafata do Pao, D. Joaquina Severiana
Pinto Ribeiro e disse- lhe soluante: 

- "D. Joaquina, essa mulher sabe amar... Viu suas lgrimas?" D. Joaquina
Severiana, hiertica, solene, inflamada de orgulho patritico por ver
dois estrangeiros de sangue real vencidos pela vontade do povo
brasileiro, com uma voz sibilante, retorquiu:

- "Pois no compreendeu, D. Mariana? Foram apenas lgrimas de
Madrasta..".

___ O Marechal de Ferro 

Apesar de j se ter escrito muita coisa sobre o Marechal Floriano
Peixoto, ainda sua figura de esfinge no foi completamente estudada e
decifrada.

H no Rio algum que conviveu com o marechal, merecendo- lhe profunda
amizade e absoluta confiana. Esse algum  hoje um pacato negociante
que, como qualquer transmontano ou minhoto da Avenida ou da rua do
Rosrio, usufrui a paz proveitosa do comrcio carioca. Mas, esse feliz
burgus de hoje j foi outrora um dos mais valentes e briosos oficias do
nosso Exrcito, ento em franca atividade republicana. Referimo- nos ao
capito reformado Guilherme Silva, que era ajudante de ordens de
Floriano em 15 de novembro de 1889, cargo que continuou a ocupar na
Repblica. Era, nesse tempo, tenente de artilharia. Ningum mais do que
o capito Guilherme Silva poderia com justia dizer algo sobre a
individualidade do marechal de Ferro. E disse- o. Interessante  o seu
depoimento. Talvez seja um valioso subsdio, se no for o melhor, para a
decifrao dessa grande esfinge, da Histria da Repblica que foi
Floriano Peixoto.

O que disse o capito Silva merece as honras de um registro nas pginas
da Histria. Publicado no nmero de 29 de Junho de 1920 no apreciado e
interessante vespertino carioca "A Noite", o seu depoimento simples e
sincero revela uma face desconhecida da vida do imortal consolidador da
Repblica. Leiamo- la, pois:

- "Floriano nunca foi republicano. Liberal por ndole, quando se viu
envolvido nos tumultos republicanos, cumpriu o seu dever. Lembro- me de,
no dia da proclamao, depois de assistir no gabinete do Ministrio da
Guerra  reunio dos prceres republicanos, o marechal, quando saa,
tocou- me no ombro, para acrescentar: - "O nosso velho vai mesmo embora
desta vez". De momento, no atinei com a inteno das suas palavras e
inquiri sobre

quem era o velho. A isso Floriano respondeu, emocionado: "O Imperador!"
Olhei para ele e vi que tinha os olhos rasos d'gua. Levado, depois, ao
poder, a sua conduta foi sempre ditada pela vontade consciente. Essa
vontade, eu a verifiquei, pelas ordens enrgicas e oportunas que dele
recebi nas diversas emergncias. Cito duas: no dia da proclamao, o
marechal chamoume e disse: "Voc vai com a fora receber os prncipes,
que descem de Petrpolis. Meta- os no carro e cerque- os de todas as
garantias. No permita o menor desrespeito, nem um assobio". Executei as
ordens suas; os prncipes vieram por mar. Por ocasio de ser preso o
conselheiro Mayrink, o marechal deu- me ordens de executar a captura,
nos seguintes termos: "Prenda- o.  preciso traz- lo, ainda que seja a
sua cabea". Felizmente no foi preciso tanto. 

Esse homem de vontade segura era, na intimidade, um simples e um bom.
Querendo reintegrar um compadre seu, alagoano, e tendo Rui Barbosa se
negado a executar o ato, fui por ele encarregado de procurar o ministro
da fazenda, e s abandon- lo depois da nomeao. Assim fiz. 

A sua vida ntima demonstra uma simplicidade extraordinria. Ouvia a
todos como se estivesse aceitando as opinies de cada um, para, depois,
executar a sua vontade. Avesso a cerimnias, como chefe de governo,
nunca pde conformar- se com as exigncias do protocolo. A sua opinio
era ostensivamente contrria ao golpe de estado do Marechal Deodoro.
Pois bem. Sabendo que assumiria o poder com a vitria do ponto de vista
que adotada, no tomou atitude solene. A posse era s 10 horas e s 9
ele estava em casa vestido de "robe- de- chambre". 

Mais tarde, tendo que receber o nncio apostlico, em palcio, s 11
horas, s 10 no tinha camisa e mandava comprar uma pelo sargento de
polcia destacado ao seu servio. Vestido de preto, de chapu mole,
inspecionava os lugares de mais risco. Sublevara- se o regimento de
cavalaria. Chamando- me, Floriano encarregou- me da misso melindrosa de
ir ao regimento ouvir os soldados e sondar a respeito dos
acontecimentos. Fui. Logo que a cheguei, tive a surpresa de encontrar o
marechal,  paisana, entre os rebeldes, executando a misso de que me
encarregara.

A vida ntima de Floriano Peixoto foi sempre um exemplo de simplicidade.
Entregue aos seus misteres, resolvendo tudo, para executar as concluses
a que chegava, nunca deixou ningum perceber o seu desejo, antes de dar
incio  sua execuo".

Assim falou Guilherme Silva, que privou na intimidade do "Marechal de
Ferro" e que possui cartas e bilhetes de seu antigo chefe. O curioso 
que as narrativas a respeito dos acontecimentos da proclamao da
Repblica, s se referem a esse ex- oficial do Exrcito, dizendo "um
alferes" ou "o alferes". Guilherme Silva preferiu o silncio, julgando
de pouca valia a sua assistncia junto de quem , dado pelo histria,
como o consolidador da Repblica. Ainda agora, citando episdios,
recordando aspectos ntimos de Floriano, mostrando os termos da sua
interveno, o capito Guilherme Silva alega: 

- "O meu papel era apenas de espectador. Alferes com 21 anos, apenas
cumpria o meu dever". 

Nem por isso as suas impresses so menos interessantes. Conhecendo
episdios que definem o carter e acentuam o perfil de Floriano Peixoto,
esse ex- oficial os cita com singeleza e preciso. 

O que a Esquadra fez a Deodoro em 23 de Novembro de 1891, fez a Floriano
Peixoto em 6 de Setembro de 1893. Porm, Floriano resistiu e venceu,
chegando ao fim do seu governo em 15 de Novembro de 1894. 

Logo no princpio da revolta, certa nao estrangeira, muito poderosa,
parecia ser simptica aos revoltosos. Na baa da Guanabara estavam dois
navios desse pas. Um dia, o comandante de um desses vasos de guerra,
acompanhado pelo respectivo cnsul, procurou o Marechal no palcio do
Itamarati. Disse- lhe que no confiava nas providncias do Governo, que
os seus patrcios precisavam ser garantidos em suas vidas e em suas
propriedades e que por isso a marinhagem estrangeira ia desembarcar. Mas
antes de dar as necessrias providncias, desejaria saber como o Governo
receberia os marinheiros de sua nao. Floriano levantou- se como se
fosse movido por um choque eltrico. Aquela pergunta era um insulto 
ptria, ao brio e  honra dos brasileiros.

- "Sr. Marechal, como receber os nossos marinheiros?" O Marechal,
olhando indignado o atrevido estrangeiro, deu dois passos para a frente
e respondeu secamente:

- Sero recebidos  bala... Os dois estrangeiros cumprimentaram o
Marechal e saram. Mal tinham sado, Floriano chamou um dos seus
oficiais ajudantes e por ele mandou a ordem escrita ao comandante das
tropas que defendiam os pontos

de desembarque: "varrer com metralha a marinhagem estrangeira que
desembarcar". Depois, ele prprio foi dar providncias, distribuindo
soldados pelo litoral e inspecionando as obras de defesa da cidade.
Esperou os acontecimentos.

Os estrangeiros no desembarcaram... Discute- se muito sobre a
proclamao da Repblica. Para uns, o regime atual foi devido a benjamim
Constant; para outros, a Deodoro. A verdade, porm,  que a Repblica
foi feita por ambos: Benjamim foi o crebro que arquitetou o plano
revolucionrio, que incandesceu as conscincias patriticas; Deodoro, o
brao que executou a obra ideada e preparada pelo grande e saudoso
mestre da mocidade de outrora. Benjamim gastou muitos anos apostolando a
repblica, na sua ctedra da escola Militar; Deodoro, o chefe revoltado
contra o ministrio Ouro Preto, s se fez republicano poucos dias antes
de 15 de Novembro de 1889. De ambos  a glria de fautores de nossa
repblica. Mas se se quiser distinguir um do outro, em merecimento
republicano, certo  que a primazia pertence a Benjamim Constant. Um
homem que no mentia, um homem que encarnou em si toda a energia
nacional, um homem que consolidou o regime republicano, convulsionado
pelas tempestades polticas disse que a Repblica foi obra de benjamim
Constant e Deodoro da Fonseca. E colocou Benjamim em primeiro lugar,
justamente. E ningum mais do que esse homem que se chamava Floriano
Peixoto estaria a par dos acontecimentos.

Em resposta  oficialidade do exrcito brasileiro, que o proclamara
consolidador da repblica, em 1895, escreveu o "Marechal de Ferro" a sua
ltima carta, que pode ser considerada um testamento poltico. Em frases
incisivas com o seu olhar acerado, em perodos candentes como sua alma
inflamada pelo amor da ptria, em asseres impressionantes como a sua
energia espartana, o glorioso marechal traou no papel as ltimas letras
de sua vida poltica.

Nesse documento assinado por Floriano, se aprende que a Repblica foi "a
obra grandiosa de Benjamim Constant e Deodoro". Eis a sua carta: 

- "Divisa, 20 de junho de 1895. - Meus amigos - Recebi com especial
agrado a sincera manifestao do vosso apreo. Ela tem para mim um valor
inefvel, pois revela a generosidade dos vossos nobres coraes. 

Ela me enche a alma de um prazer imenso, porque vejo nela um tributo da
vossa gratido a um velho servidor da ptria, que lhe consagrou de
corao o melhor de sua vida, e da Repblica, por amor da qual
sacrificou o resto da sade e vigor que lhe deixou a penosa campanha do
Paraguai. Hoje, como vedes, vivo longe do lar, a procurar em vrios
climas a reparao das foras perdidas nas lutas pela ptria e pelas
nossas instituies. Nesta peregrinao alimento a esperana de alcanar
o Criador e a merc de viver mais algum tempo para prover a educao dos
filhos, rfos, h cinco anos, dos cuidados paternos; e tambm para
lograr o prazer de contemplar a jovem Repblica, livre de embaraos que
ora lhe estorvam os passos, a marchar, desassombrada e feliz, ao lado
das naes mais adiantadas do velho e do novo mundo.

A vs, que sois moos, e trazeis vivo e ardente no corao o amor da
ptria e da repblica, a vs corre o dever de ampar- la e defend- la
dos ataques insidiosos dos inimigos. 

Diz- se , e repete- se, que ela est consolidada e no corre perigo. No
vos fieis nisso, nem vos deixeis apanhar de surpresa. O fermento da
restaurao agita- se em sua ao lenta, mas contnua e surda. 

Alerta! Pois. A mim me chamais o consolidador da Repblica. Consolidador
da obra grandiosa de benjamim Constant e Deodoro so o Exrcito Nacional
e uma parte da armada, que  a lei e s instituies se conservaram
fiis. Consolidador da Repblica  a Guarda Nacional, so os corpos de
polcia da capital e do estado do Rio, batendo- se com inexcedvel
herosmo e selando com o seu sangue as instituies proclamadas pela
revoluo de 15 de Novembro. Consolidador da Repblica, finalmente,  o
grande e glorioso partido republicano, que, tomando a forma de batalhes
patriticos, tais e tantos feitos de bravura praticou, que sero ouvidos
sempre com venerao e respeito pelas geraes futuras. So esses os
heris para os quais a ptria deve volver os olhos, agradecida.  frente
de elementos to valiosos no duvidei, um momento sequer, do nosso
triunfo; e, pedindo conselhos  inspirao e  experincia, e procurando
amparo no sentimento da grande responsabilidade que trazia sobre os
ombros, tive a felicidade de poder guiar os nossos no caminho da
vitria.

Foi esse o meu papel: se mrito existe nele, no almejo outra recompensa
seno a prosperidade da repblica e a estima dos que 

sinceramente lhe consagram o seu amor. Vou terminar: as prescries
mdicas no me permitem o mais leve trabalho mental; mas, para
corresponder  vossa gentileza, no duvidei infringir os conselhos da
Cincia, e escrever estas linhas que vos entrego como penhor e
testemunho da minha eterna gratido. - Floriano Peixoto".

E morria Floriano, nove dias depois de escrever esta carta, que  o
reflexo das suas nsias patriticas, a expresso sobre- humana de um
idlatra da repblica, o soluar comovente de um pai que sacrificou o
seu lar, a sua sade, o seu bem- estar, em favor da Ptria. 

E quem sabe se lgrimas candentes no deslizaram devagar, bem devagar,
pela sua bronze face de esfinge, ao pr assim a sua alma de heri nas
pginas de uma simples carta ?! 

____ Alma Herica dos Pampas 

A dcada monrquica que decorre de 1835 a 1845 deveria chamarse, nas
pginas da histria ptria, a "Dcada de Sangue". 

Em verdade, dentro de seus limites jorraram abundantemente caudais de
sangue brasileiro.

O ento jovem imprio do Brasil estremecia nos seus alicerces, ameaados
de formidvel derrocada. 

A poltica punha entre duas faces poderosas marcos intransponveis. O
imperador, criana privilegiada que os maus fados separaram do carinho
paterno, constitua apenas uma figura decorativa nos cenrios dos
acontecimentos polticos. Na virente idade dos brincos juvenis, no lhe
era possvel esmaltar as energias latentes com o abnegado e sincero
devotamento  ptria, de que tanto precisava a poltica desse tempo. Em
furiosas catadupas de dio, estrondeavam por toda a parte as lutas
sangrentas dos dois partidos que ento disputavam o poder. Na Bahia, a
Sabinada empolgara a ateno dos boateiros; no Maranho, os 

cabanos e bem- te- vis escabujavam, enfurecidos, no p da peleja. Em
Minas, o prestgio formidvel dos Ottonis provocava a luta de Santa
Luzia, em que 3.000 mineiros, apesar da sua assaz celebrada astcia,
foram enrodilhados e completamente esmagados pela habilidade dos felizes
irmos Luiz e Jos Joaquim de Lima e Silva.

Em So Paulo, eram a magna influncia de Feij e a ambio do coronel
Rafael Tobias de Aguiar que acirravam os dios e reuniam em Sorocaba um
pequeno exrcito, manejando ridcula artilharia. E mal o bravo e astuto
Caxias pisava terra paulista, j o rubicundo Tobias ganhava a estrada do
Rio Grande do Sul, numa desabalada corrida.

No Rio Grande do Sul era a mgoa incontida dum chefe de partido que
ameaava a integridade nacional. E neste ponto, nesta nesga bravia dos
pampas, na terra gloriosa do famoso Pinto Bandeira - a melhor espada
brasileira do sculo XVIII - o movimento assumiu propores de uma
calamidade nacional. Enquanto o governo central sufocara em trs tempos
revolues de provncias importantes como as de Minas, S. Paulo, Bahia e
Maranho, no Rio Grande as foras imperiais sofriam revezes, e, se
triunfavam, o triunfo, em vez de arrefecer a combatividade dos gachos e
pampeiros, acirravam mais a alma espartana na nsia da desforra. E foi
assim que a nossa histria registrou a "Guerra dos Farrapos". J na
Europa os fastos mavrticos encontraram na Flandres uns farroupilhas
gloriosos (les gueux) que, com a espada na mo, expulsaram o espanhol
usurpador duma terra bendita, donde surgiram dois belos pases: a
Blgica e a Holanda.

Foi em 20 de setembro de 1835 que o Rio Grande do Sul, na pessoa de seu
filho mais representativo, atirou o cartel de desafio ao governo
central.

Na corte digladiavam- se dois partidos. De um lado, a regncia, com o
liberal padre Diogo Feij. Do outro, Arajo Lima e Bernardo Pereira de
Vasconcelos.

No Rio Grande, onde os conservadores ou pedristas eram perseguidos por
uma criatura de Feij que era o Dr. Fernandes Braga, repimpado na
governana da provncia, os nimos exaltavam- se. Foi ento que Bento
Gonalves escreveu ao Regente:

- "Senhor: Em nome do povo do Rio Grande depus o governador Braga, e
entreguei o governo ao seu substituto legal Mariano Jos Ribeiro. E em
nome do Rio Grande eu lhe digo que nesta provncia extrema, afastada dos
corrilhos e convenincias da corte, dos rapaps e salamaleques, no 

toleraremos imposies humilhantes, nem insultos de qualquer espcie. O
pampeiro destas paragens tempera o sangue rio- grandense de modo
diferente do de certa gente que por a h. Ns rio- grandenses,
preferimos a morte no campo spero da batalha s humilhaes nas salas
blandiciosas do pao do Rio de Janeiro. O Rio Grande  a sentinela do
Brasil que olha vigilante para o Rio da Prata. Merece, pois, mais
considerao e respeito. No pode nem deve ser oprimido por dspotas de
fancaria. Exigimos que o governo imperial nos d um governador de nossa
confiana, que olhe pelos nossos interesses, pelo nosso progresso, pela
nossa dignidade, ou nos separaremos do centro, e com a espada na mo,
saberemos morrer com honra, ou viver com liberdade.  preciso que V.
Excia., Sr. Regente, que  obra difcil, seno impossvel, escravizar o
Rio Grande, impondo- lhe governadores despticos e tiranos. Em nome do
Rio Grande, como brasileiro, eu lhe digo, Sr. regente, reflita bem antes
de responder, porque da sua resposta depende talvez o sossego do Brasil.
Dela resultar a satisfao dos justos desejos de um punhado de
brasileiros que defendeu contra a voracidade espanhola uma nesga fecunda
da ptria; e dela tambm poder resultar uma luta sangrenta, a runa de
uma provncia ou a formao de um novo Estado dentro do Brasil".

Lendo esta carta, o Regente Feij sorriu. O grande ituano no acreditava
que o Rio Grande do Sul pudesse, sozinho, sustentar uma luta com o resto
do Brasil. E a resposta foi enviar para Porto Alegre, como substituto de
Fernandes Braga, governador deposto, uma figura detestada por Bento
Gonalves - Jos de Arajo Ribeiro. Mas o rio- grandense  feito de
fibras de ao: no se quebra facilmente. Os gachos j vinham de longo
tempo sofrendo do centro as maiores humilhaes. Em 15 de abril de 1823,
Jos Bonifcio expediu um decreto perseguindo o membro da junta
governativa do Rio Grande - Antonio Bernardes Machado, unicamente porque
Bernardes Machado era amigo do ex- governador Saldanha e por isso "podia
vir a ser mui prejudicial  segurana do estado, se no tomassem a
respeito todas as medidas de precauo", dizia o aviso imperial.

Fora uma provocao ou um acinte de Jos Bonifcio. Os gachos Bernardes
Machado e Saldanha eram dois chefes poderosos nos pampas. Mais tarde,
aps a batalha de Ituzaingo, o Brasil, contra a vontade do Rio Grande,
assinou a paz com Buenos Aires. Houve ento em 1828 um movimento de rio-
grandenses para, por sua conta e risco, fazer a guerra contra os
argentinos, pois Ituzaingo era uma ndoa na dignidade nacional,

que precisava ser lavada. Justamente o Rio Grande era o mais interessado
no revide, por ser o que mais sofrera. Assim, os nimos estavam
exaltadssimos quando surgiu o incidente de 20 de Setembro de 1835 e com
ele a "Guerra dos Farrapos" e a proclamao da repblica de Piratini na
serra dos Tapes.

Durante dez anos o Rio Grande, em defesa de sua liberdade poltica,
sustentou uma luta formidvel com o resto do Brasil, ora vencendo, ora
vencido.

Em 1843 Caxias assumiu o comando das foras imperiais. E proclamou aos
farroupilhas:

- "Lembrai- vos que a poucos passos de vs est o inimigo de todos, o
inimigo da nossa raa e da nossa tradio. No pode tardar que nos
meamos com os soldados de Rosas e de Oribe; guardemos para ento,
nossas espadas e nosso sangue. Vede que esse estrangeiro exulta com esta
triste guerra, com quem ns mesmos nos estamos enfraquecendo e
destruindo. Abracemonos e unamo- nos para marcharmos, no peito a peito,
mas ombro a ombro, em defesa da ptria, que  a nossa me comum".

Sabedor dessa proclamao patritica, em que se lhe fazia referncia,
Rosas exasperou- se. Mandou um mensageiro oferecer a Davi Canabarro um
auxlio poderoso de homens, armamentos e dinheiro, terminando com estas
frases:

- "Meus homens esto prontos para se unirem aos valentes do Rio Grande.
A um simples aceno eles transporo a fronteira e esmagaro os imperiais,
combatendo pela vossa repblica. Quereis o meu auxlio? Ele decidir o
vosso triunfo".

Canabarro respondeu: - "Senhor. O primeiro soldado de vossas tropas que
atravessar a fronteira fornecer o sangue com que ser assinada a paz de
Piratini com os imperiais. Acima de nosso amor  repblica colocamos o
nosso brio de brasileiros. Quisemos a separao. Hoje queremos a
integridade da ptria. Se puserdes agora vossos soldados na fronteira
encontrareis ombro a ombro os soldados republicanos de Piratini e os
soldados monarquistas do Sr. D. Pedro II".

Da  paz honrosa de 35 foi um pequeno passo. Pouco depois, ombro a
ombro, como dissera Canabarro, os republicanos de Piratini com os
monarquistas de Pedro II, batiam fragosamente os platinos de Rosas na 

batalha de Monte Caseros, limpando a ndoa de Ituzaingo. Silveira
Martins foi um dos maiores vultos que tm surgido na vida agitada e
febril do invicto e glorioso estado do Rio Grande do Sul. Figura
empolgante e atltica de tribuno das multides, fascinava com o seu belo
aspecto de apstolo poltico e de condutor de idias. Sua voz forte e
potente tonitroava em catadupas de imagens brilhantes, levando o
esprito da assistncia a convico inabalvel. 

E era assim, temido e temvel. Em toda a campanha rio- grandense, quando
se falava no Gaspar, o gacho valoroso estacava, convicto e reverente, e
na inconscincia dum mpeto formidvel, balbuciava: 

- "Ah! o Gaspar!" E destarte, Silveira Martins, que tinha sido uma fora
incontrastvel nas lutas do segundo imprio, se tornou na Repblica,
apesar de deportado e perseguido, o pesadelo das primeiras governanas
republicanas. Temiamno todos os chefes inimigos como o beduno do Saara
teme o tempestuoso simum.

E o simples nome do conselheiro Gaspar perturbava o sono das vestais da
Repblica e provocava o alvoroo no terreiral dos gansos capitolinos. 

Em verdade, Gaspar era um perfeito condutor de homens atravs de idias:
seduzia e empolgava. Seu nome era uma bandeira. A um simples aceno de
Gaspar toda a campanha do Rio Grande se levantaria como um s homem,
para vencer ou morrer.

Mas o glorioso tribuno era, acima de tudo, um grande patriota.
Caluniavam- no. Diz a histria que foi esse grande filho dos pampas quem
instigou os rio- grandenses para a homrica e gigantesca luta de 92.
Mentem os que assim afirmam. Ao contrrio do que se diz, Silveira
Martins quis evitar o derramamento copioso de sangue irmo. E a prova
flagrante, irrecusvel, convincente, indestrutvel  o seguinte
telegrama que ele passou ao general Jca Tavares, chefe federalista,
antes do rompimento decisivo:

- "General Silva Tavares - Bag - Governo central apoia com foras
federais situao poltica por ele criada Estado; por mais numerosas
sejam

foras comandais, se no desarmardes, terrvel guerra civil - maior
flagelo pode cair sobre um povo, - ser fatal conseqncia. Centro no
pensou, guerra neste Estado abalar toda federao no ainda
consolidada. Como em 35, guerra pode tornar- se de independncia; como
em 25, intervindo repblicas vizinhas, pode tornar- se externa; vossa
grande ptria, dilacerada pelos dios, enfraquecida pela intolerncia,
se dissolver. 

Que brasileiro hesitar fazer mximo sacrifcio para evitar irreparvel
calamidade? Patriotismo manda suportar tudo; proteste contra precedente,
ressalve direito Estado; mas entre acordo desarmar. No ficar menor,
antes muito elevado. Haver descontentes; no tem sua responsabilidade;
histria no registrar feito mais patritico veterano guerra Paraguai.
General Mitre frente 7.000 homens deps armas La Verde para no arruinar
ptria pela guerra civil; Mitre ainda  o cidado mais respeitado de
toda Confederao. 

No comandastes em chefe exrcito aliado, no fostes chefe Estado como
Mitre, mas no sois menos brasileiro que Mitre argentino; haveis de
proceder como ele.

Como chefe de partido aconselho, como correligionrio peo, como rio-
grandense suplico: - Guerra civil, no. No  necessria para conquistar
poder e conter governo federal; dificuldades todo gnero, erros naturais
de governos, liberdade de imprensa, opinio pblica fazem o que
violncia no consegue. S fora maior tem impedido achar- me a para
poder verbalmente manifestar necessidade evitar todo transe guerra
civil. - Porto Alegre, 21 de Junho de 1892. - Silveira Martins".

De nada valeu esse conselho. O general Jca da Silva Tavares no recebia
insultos impunemente. Nas suas veias corria e borbulhava o sangue nobre
da gente rio- grandense. O governo atirara- lhe o cartel de desafio, com
uma insolncia irritante e perversa. Um rio- grandense jamais foge da
arena de combate. Provocado, luta para vencer ou morrer. E Jca Tavares,
de p firme,  frente de um pugilo de bravos, esperou o ataque e
repeliu- o briosamente. Em alternativas de triunfos e derrotas, pela
segunda vez o Rio Grande do Sul sustentou sozinho uma gigantesca luta
contra o resto do Brasil. Se em 1835 o Rio Grande, aps 10 anos de
combates incessantes, no foi humilhado, tambm na primeira dcada
republicana ele no o foi e nunca jamais o ser, porque os rio-
grandenses morrem mas no se humilham.

Retrato fiel da alma herica dos pampa nos d, em traos de gua forte,
o gacho Roque Callage, como se vai ver: 

- "No combate travado em 15 de Agosto, nas cercanias de Canguu, morreu
heroicamente o legionrio Jorge Elejalde, com 17 anos, estudante de
preparatrios, filho de uma das principais famlias de Porto Alegre. 

Zca Neto, de cuja coluna fazia parte o jovem combatente, deu cincia do
ocorrido  me de Jorge, senhora viva, lamentando a grande perda. 

Pouco depois recebia o valoroso guerrilheiro este impressionante
telegrama:

"Ao general Neto, agradecida pela sua comunicao. Estou consolada
porque meu amado filho morreu cumprindo o seu dever de rio- grandense.
(Assig.) Viva Elejalde:.

No mesmo combate caiu sem vida, tambm, outro gacho valoroso, o jovem
lvaro Lemos.

Informada do doloroso desfecho, a famlia telegrafa nestes termos:
"Pedimos transmitir general Neto nosso afetuoso abrao, dizendo- lhe
estarmos plenamente consolados perda seu dedicado soldado, nosso irmo
lvaro, morto no campo da honra".

De outra senhora sabemos que ao lhe darem notcia da morte do filho, em
Santa Maria Chico, respondeu com a serenidade de uma matrona romana: 

"A dor em perd- lo  grande; consola- me, porm, a ventura de ver em
breve a nossa amada terra libertada". 

H, sem dvida, qualquer coisa de extraordinrio na afirmao desses
gestos.

 realmente assim a alma da mulher gacha. Essa atitude que  bem a
clssica atitude das heroinas de Homero, no  um episdio perdido na
nossa existncia de povo atirado entre fronteiras, nos confins do
Brasil. Fatos inmeros, casos perfeitamente idnticos entre si, so
rememorados em lies dirias, no convvio do lar, nas palestras do
fogo amigo, nos cantares dos troveiros, nas faanhas que se contam
pelas estncias e ranchos, de outras pocas agitadas da vida rio-
grandense. Toda a nossa histria brbara e herica, desde o seu incio
at hoje, est cheia dos mesmos episdios, cada qual mostrando que em
transes tais, em momentos decisivos para o corao e para o afeto, a
mulher tem sabido trocar a sua encantadora fragilidade - em verdade a
sua arma mais poderosa - pelos lances resolutos, de desprendimento de
alma, de grande, de poderosa, de absoluta abnegao 

moral. Com isso mais aumenta a estranha poesia mstica da alma feminina,
revivendo todo o ciclo, ora sombrio, ora luminoso, quase sempre
tumulturio desse pedao da Me- Ptria, a ela ligado por indissolvel
lao, na comunho, na partilha do mesmo destino". E assim ficou
retratada, nesses episdios acima descritos, a grande, invicta e formosa
"alma herica" dos pampas rio- grandenses.

___ A Literatura de Pedro I 

Contam os analistas do primeiro reinado que Pedro I era um bomio
incorrigvel. Arrebanhara na salsugem um punhado de amigos, que o
acompanhavam alegremente nas serenatas e regabofes noturnos, muitas
vezes terminados em pancadaria grossa, da qual nem sempre escapava o
prprio prncipe, quando os adversrios eram valentes e geis. 

Msica e poeta, a qualquer pretexto o primeiro imperador musicava e
poetava. Porm, onde mais se inspirava o seu estro era na perda ou
aquisio de mulheres. De sua versalhada esparsa a pelos arquivos
particulares, em originais ou cpias, o investigador poder aproveitar
muita coisa para o aspecto bomio ou literrio do "heri do Ipiranga".

Na clebre viagem a S. Paulo, o prncipe foi informado dum crime
emocionante: "uma formosa paulista, de conceituada famlia, esquecera-
se de seus deveres conjugais e perdera- se de amores por um certo
rapago. O marido, o alferes Felcio Pinto, num impulso de revide,
esfaqueou impiedosamente a adltera. A justia providenciou com energia,
pois a vtima era irm de um alferes da Guarda do Prncipe. Chamava- se
a bela - "Domitila de Castro". Mais tarde seria a "senhora marquesa de
Santos" que, com um simples "muxoxo", poria a sbio Jos Bonifcio no
desagrado do Pao, e, em seguimento, na amargura dum exlio. 

Levado pela curiosidade, quis D. Pedro visitar a famosa Domitila, ento
na residncia do coronel Castro, seu pai. Com um sorriso de mulher 

bonita, a adltera conquistou o corao do prncipe, onde espumejava o
sangue turbulento da sensual dinastia bragantina. Representada a cena do
Ipiranga, D. Pedro, j perdido de amores pela fascinante flor dos
Castros, e indignado com a maledicncia das matrona paulistanas que
censuravam acremente a adltera, cavalgou Pgaso e no Parnaso pediu s
musas a inspirao para um soneto  aviltada. E assim, com a sua prpria
letra, versejou: 

DOMITILA Filha dos Csares, Imperatriz Augusta, 6 

Tu abateste altiva soberbia, Com que tuas damas da raa mpia Abater
queriam quem delas no se assusta. 

Vede aristocratas cafres quanto custa, Espezinhar aquela cuja alegria,
Consiste em amar a Pedro e a Maria, 7 Titilia bela, a tua causa  justa.
8

O mrito, a verdade em todos os pases, Apareceram sempre em grande
esplendor, Sustentem- nos os soberanos: so suas razes. 

Conta com Pedro, pois ele  o defensor Do pobre, do rico, do Brasil, dos
infelizes, Ama a justia, dos seus amigos  vingador. 

Assim poetando, D. Pedro escreveu estas linhas  sua amada: 9 "Domitila,
minha Imperatriz do corao, desde que pus meus olhos na tua formosura,
quis ser todo e sempre teu.

Queres, divina Augusta de meu pensamento?  para ti esses versos, meu
Amor. - Pedro".

O resultado foi este, que o circunspecto conselheiro Vasconcelos Drumond
contou em suas "Memrias". 

"O Imperador mandou vir de So Paulo uma mulher que l havia conhecido,
depois de ser ela j conhecida de um ciado particular seu, e se ia
apaixonando to vivamente que deixava j entrever os escndalos de que
essa mulher foi depois a causa no Pao e na Corte". 

H outros versos de D. Pedro, dedicados  amante. Quanto  virtuosa
Imperatriz Leopoldina, todo mundo sabe que era desprezada e maltratada
pelo imperial consorte. Contudo, quando deus na sua infinita
misericrdia quis que a pobre abandonada, a santa Imperatriz, partisse
na viagem derradeira, D. Pedro, qui mordido pelo remorso, pranteou a
falecida neste soneto de sua lavra:

LEOPOLDINA Deus eterno por que me arrebatastes A minha muito amada
Imperatriz ?! Tua divina bondade assim o quis. Sabe que o meu corao
dilacerastes ?!

Tu decerto contra mim te iraste, Eu no sei o motivo, nem que fiz. E
porisso direi como o que me diz: Tu ma deste, senhor, tu ma tiraste. 

Ela me amava com o maior amor Eu nela admirava a honestidade Sinto meu
corao por fim quebrar de dor. 

O mundo nunca mais ver em outra idade Um modelo to perfeito e to
melhor, Da honra, candura, bonomia e caridade. 

Morta a Imperatriz, j se preparava D. Pedro para desposas a marquesa de
Santos quando os horizontes polticos escureceram, ameaando a tormenta.


O marqus de Aracati declarou peremptoriamente: - "Vossa Majestade, se
persistir nesse intento perde a coroa, sem esperanas de 

recuperar a de Portugal, e com a coroa, a amizade dos soberanos da
Europa. Vossa Majestade arrisca a herana de seus pais, e o patrimnio
de seus filhos".

Coube ao visconde de Cairu e ao Marqus de Barbacena a tarefa rdua de
convencer D. Pedro a procurar esposa nas casas reais. E assim tivemos a
segunda Imperatriz - D. Amlia. 

O Imperador, ao receb- la, deu rdeas a Pgaso e versejou como de
costume:

AMLIA Aquela que orna o Solo Majestoso,  filha de uma Vnus e de um
Marte, Enleia nossas almas e destarte Oh! mimo do Brasil, glria do
Esposo.

No temeu o Oceano proceloso. Cantando espalharei por toda a parte. Seus
lares deixa Amlia por amar- te. s mui feliz,  Pedro, s mui ditoso! 

Amlia fez nascer a idade de ouro! Amlia no Brasil  nova diva! 
Amlia de Pedro um gr tesouro! Amlia Augusta os coraes cativa!
Amlia nos garante excelso agouro! Viva a Imperatriz Amlia, Viva! 

Este soneto, quando no tivesse o mrito da metrificao, tinha o da
sinceridade. D. Amlia, filha de Eugnio de Beauharnais, neta da
encantadora Josefina (primeira mulher de Napoleo), era simplesmente
linda e cativante na sua florida mocidade. E de tal modo soube encantar
o irrequieto D. Pedro, que o transformou completamente, at na cara,
porque depois do segundo casamento o Imperador deixou crescer a barba,
ficando um solene "barbaa".

A verdade  que (quem o diz  Aracati), a verdade  que com a vinda 

da formosa D. Amlia, a Marquesa de Santos aprontou a trouxa e... voltou
para S. Paulo, onde se casou com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar,
riqussimo chefe dos liberais". 

E foi feliz... Mais feliz que antes? Talvez sim, talvez no... Para quem
se afez ao manuseio de jornais, panfletos e papis desse tempo, no 
novidade o que para os leigos  uma revelao - "Pedro I foi
jornalista".

O primeiro imperador apreciava doidamente as polmicas jornalsticas. E
mesmo as provocava, nelas se imiscuindo com o pseudnimo de
"UltraBrasileiro" e "P. patriota".

O "Dirio Fluminense", que na poltica brasileira teve to importante
papel representou no fim da 3. a dcada do sculo passado, tendo como
testa de ferro, o portugus Joo Loureiro, foi a sua arena de gladiador
plumitivo.

O famoso primognito carlotino escrevia mal, lxica e sintaticamente,
mas o que escrevia passava pelo "crivo" de outros mais sabidos,
geralmente os seus secretrios ou o redator do jornal onde colaborava.
Muitas vezes o imperante empregava termos e frases com acentuados laivos
de grosseria, e, arrependido, logo depois se retratava. Haja vista a
proclamao de 12 de novembro de 1822, por ele redigida, em que se v um
qualificativo grosseiro referente a Jos Bonifcio, ento longe das
graas imperiais. Caindo em si, advertido pela esposa, no dia seguinte
subscreveu novo manifesto, desta vez em forma de explicao, retratando-
se com restries esquisitas.

O jornal "Dirio Fluminense", que era de sua propriedade, apresentou
artigos sabidamente da sua lavra. Nem segredo havia quanto ao dono de
tais escritos, pois o imperador era o primeiro a se vangloriar do que
publicava.

Joo Loureiro, diretor "in- nomine" do "Dirio Fluminense", em carta, j
publicada em parte pelo ilustre patrcio Dr. Alberto Rangel, no livro
"Marquesa de Santos", proclamava a colaborao literrio- poltica de
Pedro I, no seguinte tpico:

"Os nicos artigos que vieram no "Dirio Fluminense" eram da pena do
Imperador, que escreve com muita vanglria, e a mido, e guarda um
annimo, "de que se gaba".

Amostra do jornalismo de Pedro I  o artigo seguinte, impresso na
oficina do "Dirio Fluminense", com o pseudnimo de "P. Ultra-
Patriota".

- "O Imperador tem muita pacincia com toda essa gente. Ele tem 

feito tudo pelo Brasil e este nada por ele. O que significa essa
oposio,  Fluminenses? Sossego,  Brasileiros, que os lobos vestidos
de cordeiros, os anarquistas republicanos, querem turvar as guas para
devorar os inocentes. Perdestes a razo? Onde estais que no vedes a
loucura de falar de vosso imperador? Ele  justo e defensor dos fracos e
amigo dos amigos. Ingratos! Quem fez a vossa independncia? Falais em
Maonaria? Mas ela conspirou at 1822 sem poder fazer nada, e se quis
alguma coisa foi preciso recorrer a D. Pedro, e sem ele nada se faria.
Quem fez a Assemblia Constituinte? Foi o imperador D. Pedro, contra a
vontade de seus prprios ministros e do seu prprio pai. Nem a
Maonaria, nem o Ledo, nem o Clemente, nem o Andrada, nem ningum seria
capaz de fazer o que o imperador, que  brasileiro de corao,
sinceramente quis fazer. Se ele quisesse, ainda reis quem fostes. A
Maonaria sem D. Pedro era o Nada.  Fluminenses,  Brasileiros
patriotas, rememorai o sucedido e vide se h razo para se atacar o
prncipe que quebrou os grilhes da Ptria que  nossa. Rememorai e
vereis a verdade que anarquistas, republicanos, perversos e retrgrados,
pretendem agora esconder, conspirando em conventculos malditos por Deus
e pela lei nas desoras da noite. Se acompanhardes esses lobos, 
Brasileiros, no conteis mais com o Imperador. "L do outro lado do mar,
h um glorioso povo que muito o quer e que muito o chama. E se o
perderdes, e se ele partir, ai do Brasil nas garras dos anarquistas
republicanos! Pobre Brasil!  tempo de ter juzo". 

A ficou a amostra de Pedro I, jornalista. Outra,  este passo subscrito
por "P. Patriota", pseudnimo imperial: 

- "Quem poupa os inimigos nas mos lhe morre. A esto os Andradas, com
o velho "Sbio" na frente. Cuidado com este, Fluminenses! Ele no fez a
Independncia, como vivem a bazofiar os seus amigos. Foi o imperador com
o Ledo e o Clemente da maonaria, foi o Grande Oriente, do qual ele,
depois de ter sido Gro Mestre, foi inimigo. O velho Andrada acompanhou
a onda. D. Pedro perdoou- lhe. Ele veio, a agitao comeou, o mar est
bravo, mas se fizer conspirao como em 1823, a lei e o imperador sero
inexorveis, sem piedade para "Ningum".

Era, como se v, um grito de medo pelo retorno de Jos Bonifcio 'ptria
amada. Mais tarde, depois do 7 de Abril de 1831, o sbio Andrada
conspirou, porm em favor de Pedro I, sentando no banco dos rus por 

desejar o retorno ao trono do ex- imperador. Algum tempo depois de ter
chegado ao Brasil, Bonifcio,  noite, em companhia de seus amigos
Vasconcelos, Belchior e Rocha Filho, discutiam literatura na casa do
primeiro deles, em que se hospedava o sbio Andrada. Pedro I, recebendo
uma denncia annima de que se conspirava em casa de Vasconcelos, cercou
o prdio,  frente de 10 homens de sua Guarda.

Furioso, entre injrias e exclamaes, mandou prender os presentes,
arrecadando uma pasta de papis que supunha ser a correspondncia e os
projetos dos conspiradores. De repente, o seu capanga "Chalaa" fixou os
olhos num grande armrio, chamando a ateno do imperador para esse
mvel:

"Que ali tinha algo de importncia, pois Vasconcelos, aflito, no
despregara os olhos do armrio". 

Todos se precipitaram para l, trmulos de emoo. Seria certamente o
"arquivo" completo dos conspiradores ou ento algum dos cabeas que ali
se ocultara?

"Chalaa" entreabriu o armrio e recuou subitamente, deixando a porta
semicerrada.

- "Que era gente, talvez o chefe militar. Vira bem a farda e o bon".
Foi um rebolio. Pedro I, de espada em punho, avanou intemeratamente: 

"Que se rendesse o rebelde, o anarquista, pois quem falava era o
imperador. Que sasse j e j". 

Recuou. Os companheiros de espada ou pistola em punho, esperavam a sada
do provvel brigadeiro - conspirador. 

Ento o armrio se moveu, as portas se abriram e um pequeno vulto saltou
para fora: trmula, com as pernas molhadas de gua sada da bexiga,
olhos esbugalhados, gaguejante, uma pretinha balbuciou: 

- "Ah! Sinhzinho! No me mate..." E rolou pelo cho aos soluos. Era
uma pequena escrava do dono da casa. Estrondeou uma gargalhada homrica:
Pedro I, de mos na barriga, congestionado, lacrimoso, riu- se com esse
riso portugus que se assemelha ao ribombar das trovoadas tropicais. 

Deixando em paz os pseudo- conspiradores, ele mesmo contou o caso num
"artiguete" humorstico, publicado cinco dias depois, com a assinatura 

de "Ultra- Brasileiro". E procurando ridicularizar, nesse artigo, o
sbio Andrada, terminava assim: 

- "O intendente da polcia est satisfeito: provou ao imperador que os
conspiradores, inclusive o "Grande sbio das Arbias", no conspiraram
mais, como antigamente, com o "bode- preto"; o smbolo agora,  uma
"cabrita preta".

___ A Chacina de Campo Osrio 

No leme da repblica estava Floriano Peixoto. No Sul, os Jucas Tigres e
os Joes Franciscos criavam cenas de entremez e tambm de tragdias
macabras. Estuava a chacina em manifestaes de loucura coletiva,
desaparecendo na avalanche de dios incontidos a piedade crist que
governa os povos civilizados e por toda a parte, em torvelinhos de
lutas, a besta- fera das paixes sanguinolentas estendia o seu imprio
negregado. Era a guerra impiedosa das revolues enfuriadas, em plena
prtica do "Vai Victis" de Brenno: "Ai dos vencidos!". 

No combate do Rio Negro, 300 prisioneiros encurralados num pavoroso
groto sofreram a degola, um a um. O incndio, as violaes, os
massacres eram a "normalidade" nas campanhas do sul. 

O almirante Saldanha da Gama, que se manifestara neutro no princpio da
revoluo contra Floriano, resolveu declarar- se a favor de seus
companheiros da Armada Nacional, movimentados contra a legalidade. E
como a energia de Floriano Peixoto esmagasse a revolta dos navios, a
Revoluo se circunscreveu ao Sul, onde se achavam em luta os
federalistas contra os castilhistas. No podendo combater o governo no
portal de um vaso de guerra, porque a esquadra desaparecera da luta,
completamente vencida, Saldanha da Gama, ferido pelo seu amor prprio, e
temendo o ridculo que pesaria sobre ele de se ter declarado revoltoso
sem lutar, partiu para o Plata, e com alguns oficiais, guardas marinhas
e marinheiros, fincou p no territrio ptrio, encostado na fronteira do
Uruguai, junto ao rio

Quaraim, no lugar conhecido por "Campo Osrio". O que sucedeu ento 
narrado com uma simplicidade comovente por um mdico de Montevidu, que
esteve no local. Esse era o Dr. Florncio Sanches, imparcial retratista
de uma loucura coletiva. Uns artigos estampados em 1896, nos "Arquivos
de Psiquiatria", magnfica revista mdico- social de Buenos Aires,  o
que ora, em resumo, se vai ler, dando- nos ao esprito o retrato fiel, a
fisionomia exata do que  uma "Revoluo" com as suas conseqncias e
com os seus instintos: 

Joo Francisco foi figura saliente, durante essa guerra do Rio Grande do
Sul.  frente de uma fora pouco numerosa jamais quis afastar- se das
fronteiras, campando pela regio durante os trs anos de lutas, em uma
zona de talvez 60 lguas. Foi hbil e previsora a sua resoluo. 

- "Os revolucionrios derrotados no interior ho de procurar a fronteira
oriental para se refazerem e ento aqui eu os enfiarei na lana" - dizia
ele, sorrindo.

Houve engano, porm, na forma referida pelo caudilho castilhista. E se
houve engano, foi apenas na lana que quase no entrou em cena, porque a
maior parte dos revolucionrios foi colhida pelo seu faco e pelo da sua
gente. Com alternativas lgicas marchou de vitria em vitria, ou antes,
de massacre em massacre, e no fim da revoluo pde mandar ao governador
Castilho a parte memorvel de Varsvia: reinava a paz na fronteira, s
restando vivos e em p firme ele e os seus amigos.

Saldanha da gama, acompanhado de cerca de 400 homens, gente quase toda
da marinha, com brilhante estado- maior de oficiais da vencida esquadra,
e um batalho de aspirantes e alunos da escola naval, que o acompanharam
fascinados pela sua coragem e audcia, sem meio fcil e rpido de
mobilizao, embora com abundantes munies e armas, fortificouse em uma
plancie, apoiando suas trincheiras nas margens do rio Quaraim, linha
divisria. Escolhera esse local na previso de um desastre. Cincoenta
gachos, dirigidos pelo comandante Chico Rivera, que era um bravo
lidador dos pampas, abastecia o acampamento. 

Joo Francisco vigiava os movimentos da fora invasora, deixando- a
agir, temendo que um ataque prematuro lhe fizesse perder a presa. Quando
julgou o inimigo em condies de se tornar forte, decidiu- se a atirar-
lhe o cartel de desafio. E a manobra foi de uma simplicidade
encantadora, diziam depois da refrega os seus milicianos, que eram ao
todo 850 homens.

'Joo Francisco, no dia julgado propcio para um triunfo esmagador,
juntou sua gente e ordenou- lhe que avanassem at as trincheiras
adversrias, marchando em trote e fazendo fogo com os clavinotes. Aquilo
era positivamente uma loucura. Os marinheiros de Saldanha, bons na
fuzilaria, varreram  bala as primeiras colunas de assaltantes,
dizimando impunemente aqueles loucos que iam avanando, iam sempre
avanando para a morte. De repente, os clarins de Saldanha estridularam
a vitria. O inimigo, que chagara at uns 50 metros das trincheiras,
retrocedeu em evidente estado de desnimo e pnico. E Chico Rivera, com
os seus cincoenta milicianos, quis completar a derrota inimiga com uma
carga de cavalaria nos que pareciam debandar. E nesse pressuposto, saiu
das trincheiras e avanou. Os entrincheirados descobriram- se.

Aquilo fora um estratagema do caudilho Joo Francisco. Quando viu a
descoberto os homens de Saldanha, j sem a eficincia das trincheiras,
ordenou aos seus corneteiros que tocassem a ordem de "meia volta, sabre
em punho, carregar".

Em poucos minutos viu- se a cavalaria de Joo Francisco, aparentemente
em fuga, deter- se, virar- se, carregar de sabre em punho. E aqueles
homens no mais pareciam criaturas humanas: eram demnios. Para o
acampamento correu toda aquela gente j misturada na confuso do
combate. O coronel do Caty previra, com a intuio de um homem afeito 
guerra gacha, a sada para fora das trincheiras do impetuoso Chico
Rivera, chefe dos lanceiros de Saldanha da Gama. Sua ttica fora
provoc- lo e depois bat- lo, aproveitando o momento em que o inimigo
no podia fazer fogo, caindo ento como uma tromba sobre o campo
fortificado.

- "Nem um s ficou de p" - dizia mais tarde o major Salvador Tambeiro,
em uma excurso ao local dos sucessos. 

Esse major Tambeiro fora o matador de Saldanha da Gama. Sentados sobre
uma das trincheiras, que a ainda se viam das que foram construdas
pelos desditosos vencidos, esse terrvel assecla de Joo Francisco
narrou o combate.

- E ningum se rendeu? Perguntaram- lhe. - No houve tempo, porque nossa
gente, de sabre em punho, dizimou os marinheiros do almirante e os
lanceiros de Chico Rivera.

Em seguida, o major Tambeiro levantou do solo onde se achava uma
caveira, um crnio fendido por um golpe de sabre. Olhando aquilo, sorriu
e

explicou: - "Aqui est um belssimo golpe de mestre. Quem fez isto  da
minha escola. At parece que fui eu mesmo quem deu esta linda cutilada".


Saldanha da Gama foi uma das mais brilhantes figuras de nossa marinha de
guerra.

"A presena do almirante na fronteira do Uruguai produziu uma sensao
difcil de descrever. A fama do ilustre capito do mar, a tradio da
sua gentileza, a elevada estirpe de sua fidalguia, o seu renome
intelectual e a sua severidade moral, entretecendo lendas, formavam, por
toda a parte, em torno do seu nome e  sua figura, uma onda comunicativa
de simpatia. Mas, depois do desastre da esquadra, a 13 de Maro, na baa
do Rio de Janeiro, todos acreditavam na sua bravura, mas ningum
confiava na sua capacidade de general. Era comum ouvir- se, no Rio
Grande, frases deste sabor: "O Saldanha pensa que coxilha  portal de
navio".

As tropas que marchavam contra o almirante tinham a certeza da vitria,
estavam alentadas por xitos recentes e, sabendo que os revolucionrios
no contavam com outras foras, avanavam com a segurana de quem luta,
com um inimigo isolado e desprotegido. O seu chefe, coronel Joo
Francisco, tendo perdido, dias antes, num tiroteio, um de seus irmos, o
capito Francisco Pedro Pereira de Souza, comunicou- lhe um certo
entusiasmo feroz, jurando, sobre o cadver de seu irmo, exterminar o
maior nmero possvel de adversrios, no os poupando. O estado
psicolgico do almirante era dos mais delicados. Fora do seu meio
natural de ao, devendo estabelecer as suas combinaes com chefes de
estrutura mental diversa da sua, no tendo aptido para as pequenas
guerrilhas e no possuindo as foras para as grandes batalhas,
comparando os seus escassos recursos aos inesgotveis meios de que
dispunha o governo, esse brioso e valente comandante de esquadras,
reduzido a caudilho dos bandos desfalcados, concentrava a sua esperana
final na resoluo de no sobreviver ao seu prestgio militar e, ao
invadir o solo rio- grandense, despedindo- se do comissrio uruguaio que
o acompanhava, disse- lhe:

- "Eu no voltarei a comer o po do exlio". Trs ou quatro dias depois
do combate de Campo Osrio, em Santana 

do Livramento, ao agradecer uma manifestao que lhe fizeram, o coronel
Joo Francisco, proferindo um discurso, no edifcio da Maonaria,
declarou:

"Antes de aceitar o combate e depois de verificar a superioridade
numrica das foras legais, Saldanha da Gama poderia ter- se retirado
comodamente para o Estado Oriental; mas no quis recuar. Ele estava
disposto a morrer. E morreu".

Vrias outras circunstncias fazem crer que essa fosse a disposio real
do almirante. Declaraes repetidas do coronel Joo Francisco, do major
Joo Pedro Baro, dos capites Gentil Rolim, Salvador Loureno de Sena
(Salvador Tambeiro) e do alferes Joo Brito Pereira, alm de outros,
assim descrevem o combate:

As foas do almirante ocupavam uma linha de trincheiras a vinte quadras
da orla do mato que divide o Brasil do Uruguai. O coronel Joo
Francisco, surgindo de frente, com as suas tropas, resolveu tomar de
assalto as posies inimigas; ordenou  infantaria que no respondesse
ao fogo adverso, mandou os atiradores a cavalo colocar as carabinas 
bandeirola e aprestando- se para a luta de arma branca, fazia avanar em
passo a linha dos seus cavalarianos, quando a cavalaria revolucionria
deu uma carga de flanco, repelida sem esforo pelo esquadro do comando
do capito Bernardino Pedro Pereira de Souza, que foi ferido num brao.
A cavalaria revolucionria, ao ser rechaada, cometeu o erro de retirar-
se sobre a frente da linha de Saldanha, obrigando- o a cessar o fogo
para no mat- la. Habilmente, valendo- se dessa circunstncia, o
coronel Joo Francisco deu sinal para o assalto e os seus lanceiros
entraram nas trincheiras inimigas, confundidos com a cavalaria fugitiva,
e em poucos instantes, tendo exterminado os ltimos companheiros do
almirante, dominavam o campo.

Saldanha da Gama foi morto pelo capito Salvador Loureno de Sena, vulgo
Salvador Tambeiro. Esse oficial, em sua residncia, diante de muitas
pessoas, descreveu esse episdio, dando autorizao para public- lo.
Eis a sua descrio:

- "O combate j tinha terminado e a nossa gente estava acampando, quando
eu vi trs cavaleiros que se dirigiam para a linha divisria e que,
pelas vestimentas, verifiquei no pertencerem s nossas tropas. Vendo
que eu os percebera, dois deles quiseram galopar, mas o que estava no
centro, pegando- se aos arreios, reteve o cavalo. Conclui que no sabia
montar e que ele era um marinheiro. Tirei do bolso o retrato do
almirante Saldanha da 

Gama, que havia sido distribudo s nossas tropas, mas fiquei incerto,
porque na fotografia ele estava fardado e o marinheiro que se retirava
para a fronteira estava  paisana. Fosse ele quem fosse, era um inimigo.
Sacudi a lana, dei um grande brado e investi. Os dois cavaleiros que o
ladeavam fugiram, e, sem encontrar resistncia, dei- lhe um lanao nas
costas, atirando- o pelas orelhas do cavalo, de bruos, ao cho. Chamei
um soldado que passava e mandei que acabasse de mat- lo, enquanto eu ia
perseguir os outros. Esse soldado deu- lhe um pontao de espada no
pescoo. Quando corria em perseguio a um dos dois cavaleiros, olhando
para o mato, vi que o marinheiro se levantara e tentava caminhar em
direo  linha divisria. Atirei- me, de novo, sobre ele, e alcanando-
o  entrada do mato, dei- lhe um pontao nas costelas. Ento, segurando
na minha mo, ele bradou:

- "Deixe- me, que eu j estou morrendo..." Arranquei- lhe a lana das
mos e lha enterrei no peito. Ele caiu de costas e fui procurar o
coronel Joo Francisco, a quem dei a parte do sucedido: 

"Comandante, eu matei um homem que parece ser o almirante Saldanha". 

Joo Francisco no acreditou, porm eu realmente tinha matado o
almirante, como foi verificado depois. 

Procurado e encontrado depois da refrega o corpo de Saldanha, o coronel
Joo Francisco mandou que o despissem e inventariou o que ele possua.
Guardou para si, o mapa do Rio Grande do Sul; deu, a um cabo, as roupas
ensangentadas; ao major Joo Pedro Baro, um binculo; e ao capito
Bernardino Pedro Pereira de Souza um revlver, de pequeno alcance.
Depois, ordenou que ao cadver amarrassem uma corda aos ps e o
arrastassem para a frente da sua barraca. O terreno era pedregoso e,
para que o corpo no se dilacerasse, o capito Gentil Rolim mandou que o
levassem sobre um couro. 

O aspecto do campo de batalha, segundo uma pessoa que de Livramento foi
com o mdico Dr. Cato Mezza, para prestar socorros a um amigo ferido,
era horrvel. Quase todos os mortos foram vitimados por arma branca e
estavam degolados. O cadver de Saldanha ficar nu, com uma casca de
laranja sobre o ventre,  porta da tenda do vencedor.

O coronel Joo Francisco, antes de abandonar Campo Osrio, ordenou ao
capito Gentil Rolim que incinerasse o cadver do almirante, e s muito
tempo depois  que soube que a sua ordem no tinha sido cumprida. Isto
foi

em Santana do Livramento, numa sala do "Hotel do Comrcio". A comisso
incumbida de remover o corpo de Saldanha, do campo, onde fosse achado,
para a Rivera, chegara a uma vila oriental, e Joo Francisco, cercado de
amigos, comentava esse fato, dizendo que o almirante nunca mais havia de
transpor a barra do Rio de Janeiro, quando o capito Gentil Rolim
declarou:

"Comandante, o corpo que os federalistas acharam  mesmo o do almirante.
Eu no o queimei". Houve, ento, entre o capito e o seu chefe, uma cena
violenta de que resultou a excluso do Gentil Rolim do Regimento do
Caty, do qual era comandante o Coronel Joo Francisco. Assim concluiu
uma testemunha do fato.

___ A Cidade Misteriosa 

Andam em moda agora as descobertas prodigiosas de cidades e monumentos
de remota antigidade. Em toda a parte os sbios arquelogos farejam
runas e escavam o solo, na nsia das antigidades. Agora que se
organizou nos Estados Unidos uma misso do Museu de Nova York de estudos
arqueolgicos para a Amrica do Sul, seria oportuno que se dissesse algo
sobre a cidade misteriosa do interior das matas do Brasil.

Em Agosto de 1900, "A Imprensa", jornal de Rui Barbosa, dava a seguinte
notcia:

"Em 27 de Julho ltimo, o venerando escritor e jurisconsulto ngelo M.
do Amaral, dirigiu ao "Jornal de Notcias", da Bahia, uma carta curiosa,
revivendo a velha tradio da existncia de uma cidade no interior
daquele estado, abandonada dos antigos povoadores e desconhecida
inteiramente de quaisquer outros. Isso, como os leitores provavelmente
se lembraro,  um assunto que j foi tratado no Instituo Histrico e
Geogrfico do Rio de Janeiro, mas sobre que nada se adiantou de
positivo. Nos ltimos dias do ms findo, tendo surgido novas opinies e
escritos sobre a curiosssima ruinaria perdida no serto da Bahia, o
conselheiro ngelo do Amaral dirigiu nova carta quele jornal". 

Essa carta referida pela "A Imprensa", do Rio, e publicada no "Jornal de
Notcias", da Bahia, nmero 16 de Agosto de 1900,  a seguinte: 

- "Sr. redator - Depois do artigo que escrevemos sob esta epgrafe,
publicado neste jornal em 27 do corrente (Julho de 1900), entendemos
dever fazer algumas consideraes sobre "a cidade abandonada". A notcia
dada pelos exploradores  datada deste Estado (Bahia) e dos rios
Parauau ou Paraguau e Una. De 1753, quando foi escrita, at hoje
(1900), vo 147 anos. As exploraes mandadas fazer pelo Instituto
Histrico e Geogrfico do Brasil so de 1841, isto , h 57 anos. Em 147
anos as rvores tero tomado enormes propores e, portanto, a cidade
deve estar dentro de uma mata, quase virgem, nos arredores do rio
Paraguau- mirim e Una, sendo natural que se ache em terrenos marginais.


Segundo a "Relao" j publicada no se descobriram as decantadas minas
de prata, porque o ento governador, no intuito de usurpar- lhe a
glria, prendeu neste Estado o notvel explorador Moribeca (Robrio
Dias), que morreu no crcere. No menciona essa "Relao" publicada no
nmero de 1839, da "Revista Trimestral" do Instituto Histrico e
Geogrfico do Brasil, nem a memria nem a carta do cnego Benigno Jos
de Carvalho Cunha, publicadas em revista posterior, o nome do governador
que ento era d. Luiz Pedro Peregrino de carvalho Menezes de Athayde,
10. o conde de Athoguia e 6. o vice- rei, o qual tomou posse do cargo em
16 de Dezembro de 1749 e governou at 1755. Mediante investigaes nos
arquivos pblicos se poder saber quando, em 1752 ou 56, foi preso
Moribeca (Robrio Dias) e qual o motivo de sua priso que decerto no
constar ter sido por haver descoberto tais minas. Supomos que a cidade
era abandonada, no foi edificada nem pelos portugueses, nem pelos
holandeses, nem pelos franceses, nem pelos espanhis, nem pelos
dinamarqueses, nem, finalmente, pelos gentios. 

Decorre o nosso juzo do que refere a "Relao" no tocante aos
caracteres gregos ou runos, encontrados nas inscries, esttuas,
"agulhas em imitao das que usavam os romanos", ou na moeda de ouro ali
achada por Joo Antonio, etc. Seria essa cidade edificada pelos romanos
que nessa poca davam leis ao mundo? Se- lo- ia pelos fencios, cujos
arrojados empreendimentos at os contemporneos admiram?

O Brasil j era conhecido antes de ser encontrado por Pedro lvares
Cabral? Do que ficou dito sobe de ponto a convenincia de procurarem o
governo e o nossos Instituto Histrico e Geogrfico no s descobrir
essas

minas de prata de que trata a "Relao" (existente no Arquivo Nacional),
como tambm tirar do deserto, onde se perde e permanece esquecida h
centenas de anos, a cidade que foi porventura centro de uma civilizao
que o tempo velou. Para isso sero necessrias grandes despesas, porque
segundo a "Relao", a cidade abandonada deve estar na margem esquerda
do rio que  conhecido por brao do Cincor, a lgua e meia, pouco mais
ou menos, da tromba que ali h, que estando neste estado e no distando
muito da capital, nem havendo nos lugares a percorrer ndios bravios,
nem quilombos como em 1842, nenhum obstculo encontraro os novos
exploradores aos quais com prazer nos associaramos se contra esse
desejo no protestasse nossa avanada idade. - S. Salvador, 15- 08- 1900
- A. M. do Amaral".

Em seguida, cumpre que se saibam mais que essa zona mencionada na carta
do Conselheiro Amaral foi conhecida dos antigos bandeirantes, que a
atravessaram, algumas vezes, embora habitada por selvagens bravios e,
pondo- os de parte tradies mais ou menos maravilhosas, convm fixar
fatos positivos:

1. A grande e larga estrada que partindo do litoral atravessa essa
regio pelo Gongugi e sai na estrada de Conquista e as Poes. Esta
estrada  to antiga que se acha obstruda num dos extremos por rvores
seculares. 2. Quando o inconfidente bacharel Jos de Bittencourt
Accioly, fugindo de

Minas Gerais, aps a denncia do infame Joaquim Silvrio, edificou o
sobrado que dista da Vila (Conquista?) nove quilmetros, por ocasio de
se fazerem escavaes e os alicerces, foi encontrada uma grande espada
de copos de prata, com a Lmina bastante carcomida, tambm pedaos de
fina loua da sia, alm de artefatos de vidro com bordado e doiradura. 

Nesse sentido seria proveitosa a leitura de um artigo da "A Razo" de 20
de Maio de 1850, publicado na Bahia, em cujo arquivo pblico se
encontra.

3. Na mata da Preguia foi encontrada uma calada antiqussima, da qual
apenas parte se percebia, pois a maior poro estava coberta de mato. 4.
Na antiga biblioteca dos jesutas da Bahia, segundo informa "A Imprensa"


de 16 de Agosto de 1900, existia um roteiro, com um "croquis" de runas
existentes no meio de uma grande mata virgem do serto baiano. 5. Na
Biblioteca Nacional igualmente existe um desenho e um roteiro dessas 

runas. Pois em Tihuannaco, na fronteira da Bolvia, no se encontraram
runas de templos gigantescos anteriores centenas de anos ao
descobrimento da Amrica? Ai ficaram essas notas, quando mais no seja
pelo menos a ttulo de curiosa oportunidade para este tempo que v
sulcarem os ares as grandes mquinas voadoras idealizadas por Bartolomeu
de Gusmo, e brotarem do seio da terra cidades misteriosas, submergidas
h talvez centenas de sculos, como aquela que Prezelwaski descobriu no
deserto de Gobi e que ainda h pouco foi estudada pelo sbio arquelogo
Dr. Stein. E  porisso que a etnografia moderna afirma pelo conceito
autorizado do grande Poussin, em seu ltimo livro: 

- "As raas humanas sofrem as mutaes conforme os cataclismos que
transformam a crosta terrestre no decorrer dos milnios, e a cada
convulso geolgica que perturba a terra sucede uma convulso social que
perturba as civilizaes".

 que as civilizaes so como os homens; nascem, vivem, crescem e
morrem. Civilizaes sucedem- se a civilizaes, e detrs de cada
selvajaria muitas vezes se esconde uma admirvel civilizao morta. 

E no teria havido na Amrica uma interessante civilizao
prcolombiana? ___ No Tempo de Domitila 

Nosso primeiro imperador tinha em si a tara de seus antepassados,
devassos representantes do bastardo duque de Bragana. 

Sua me, Carlota Joaquina, impetuosa e ninfomanaca, foi "notvel" 

pelas suas loucuras amorosas com o famoso Joo Santos, moo de
cavalaria. Sua av, D. Maria I, passou para a Histria com o cognome de
"A Louca".

Filho e neto de duas loucas, certo D. Pedro no poderia ser um monarca
pudico e morigerado, um homem normal de temperamento equilibrado. 

Ele teve graves defeitos, sendo um dos maiores a sua famosa devoo pelo
"rabo de saia". Diante duma formos mulher D. Pedro perdia a compostura e
o juzo, fosse ela uma simples marafona ou a consorte dum de seus
ministros. Nesse particular tinha ousadias perigosas, Os maridos de
mulheres bonitas sabiam disso e precatavam- se como melhor podiam,
proibindo mesmo alguns figures que as caras metades freqentassem as
festas do Pao, para que o monarca no as visse e nas as cobiasse.

Ainda h pouco tempo um velhinho de Taubat nos contava que ouvira de
seu pai o seguinte relato: 

"Em 1822, quando D. Pedro esteve de viagem para S. Paulo, deveria passar
por Taubat - princesa do norte paulista, que ento disputava com a
prpria capital da provncia a primazia de progresso e riqueza. Havia
ali lindas mulheres, formosas taubateanas. O vigrio, que j conhecia de
fama o prncipe e o seu "fraco" pelas moas bonitas, temendo, com razo,
qualquer incidente desagradvel, bom pastor que era, afastou da cidade,
com proveitosos conselhos, "as lindas ovelhinhas", que poderiam ser
cobiadas pelo insacivel "lobo" de sangue azul. E assim D. Pedro s viu
em Taubat matronas respeitveis... pela feiura". 

 possvel que isso acontecesse em outras cidades por onde passou o
prncipe, at o fim da sua jornada. 

Da, talvez, a origem das palavras proferidas ao abraar o velho Jos
Bonifcio, quando acabava de chegar de S. Paulo: 

"Sua terra  encantadora, sua gente muito bondosa: mas, oh! meu amigo,
cansei de ver mulheres feia: s vi uma "carinha" de anjo - a Domitila, a
quem o marido esfaqueou barbaramente". 

O velho Andrada, rindo- se, retrucou ironicamente: "Talvez, Alteza, as
paulistas formosas se escondessem cautelosamente". 

Dias depois D. Pedro mandava buscar a "carinha de anjo", para 

transformar na "Senhora Marquesa de Santos"... e quase "Imperatriz do
Brasil". E foi esta mulher que torturou a pobre Maria Leopoldina com as
maiores humilhaes que uma feliz amante pode dispensar a uma virtuosa
esposa.

Leopoldina tudo suportou com pacincia verdadeiramente crist. Diante do
esposo e da Corte, a Imperatriz parecia a mais feliz das criaturas. Mas
na intimidade dos amigos chorava copiosamente. 

A princpio era seu confidente o velho Jos Bonifcio; deportado este,
tomou o seu lugar o circunspecto Marqus de Aracati. 

Do seu concubinato com a Domitila D. Pedro teve filhas, a quem legitimou
ostensivamente, dando- lhes ttulos de nobreza. Eis um desses
documentos:

- "Declaro que houve Uma Filha de mulher nobre, e Limpa de Sangue, a
qual ordenei que se chamasse Dona Isabel Maria de Alcntara Brasileira,
e a mandei criar em casa do Gentil- Homem de Minha Imperial Cmara, Joo
de Castro Canto e Melo. E para que isto a todo tempo conste, fao esta
expressa declarao, que ser registrada nos Livros da Secretaria de
Estado dos Negcios do Imprio, ficando o original em mo do mesmo
Gentil- Homem da Imperial Cmara para ser devidamente entregue  dita
Minha Filha, como seu Ttulo. - Palcio do Rio de Janeiro, vinte e
quatro de Maio de mil oitocentos e vinte e seis, Quarto do Imprio e da
Independncia. - Imperador".

Assim reconhecidas as filhas adulterinas, aps o perodo da lactao,
eram batizadas com as mesmssimas solenidades dos filhos legais, e
passavam a figurar em todas as festas do Pao, ao lado da Imperatriz e
dos filhos legtimos. A este respeito conta um historiador do Imprio:
"Vieram os filhos desse conbio e o Imperador, porque os anos e as
responsabilidades do cargo lhe amenizassem a ndole quase selvagem, ou
porque obedecesse  transformao que a paternidade opera nas almas
rijas e aflitivas, compreendeu o indeclinvel dever de disfarar o
passado, elevando a mulher amada para que ela pudesse chegar depurada
por um ttulo de nobreza aos degraus do trono, dignificando assim o
ventre onde o sangue real engendrara prncipes e enfrentando franca e
corajosamente todas as conseqncias de seus desvarios. Aps solene
batizado, a infante Duquesa de Gois foi, por ordem do Imperador, levada
ao pao, para que a corte se curvasse reverente ante a filha da amante;
e para que isso fosse

mais solene e completo o reconhecimento da filha adulterina,
apresentaramna  Imperatriz que, fiel ao compromisso de holocausto dos
direitos de mulher aos deveres de esposa de um monarca, beijou com
carinho a duquezinha, dizendo- lhe entre lgrimas:

- Tu no tens culpa". Quanta santidade no encerram essas quatro
palavras, murmuradas pela Imperatriz, na presena da Corte, diante do
pai da duquezinha, que era o seu prprio marido e tambm da amante de
seu marido.

Filha do Imperador da ustria, um dos maiores monarcas do mundo, e
cunhada de Napoleo, o mais famoso general da terra, essa pobre
arquiduquesa Maria Leopoldina veio ao Brasil, na flor dos anos, com uma
primorosa educao moral, literria e cientfica, para ser esposa dum
prncipe estabanado que passava as noites nas escusas vielas da Corte,
em demanda de aventuras noturnas e duvidosas, acompanhado por gente da
mais baixa espcie, lacaios, caceteiros, capoeiras, barbeiros e
alcoviteiros.

Era esse mesmo prncipe que tinha a coragem de levar ao Pao, na mais
solene das festas, a amante e a filha, apresentando- as aos vassalos e 
Imperatriz. E a esposa ludibriada, olhando com desprezo a combora
atrevida que ousava afront- la em sua prpria residncia, recusou- lhe
a mo e dandolhe as costas, beijou a filha dessa mesma mulher que lhe
roubara o corao do esposo, murmurando entre lgrimas, as palavras que
por si s retratam a alma de uma santa, proclamando que a criana no
tinha culpa dos pecados da me...

E realmente a criancinha no tinha culpa. Em fins de 1822, e princpios
de 1823, aps o ato solene da aclamao de Pedro I como Imperador do
Brasil, o Ministro Jos Bonifcio se tornara um terrvel ditador. Em
quatro decretos submeteu o pas a um verdadeiro estado de stio. At os
deputados no se sentiram garantidos e um deles, Gonalves Ledo, para
escapulir das garras ministeriais, teve que pintar a face, as mos e as
pernas e, assim transformado, meter- se dentro duma grande saia listrada
de preta baiana. Nesse disfarce ganhou a residncia do Cnsul sueco
Loureno Westime, e da, em veleiro da Sucia, rumou para o Sul, em
demanda de Buenos Aires.

E o partido andradista, que fora derrotado em S. Paulo e no Rio, se
tornou onipotente.

Da corte foram deportados os principais chefes anti- andradistas, e 

com eles quatorze cabos eleitorais de grande prestgio. Em So Paulo, 30
criaturas de relevo social sofreram a pena de expulso de seus lares. 

Jos Clemente, o Cnego Janurio, o General Nbrega, o Brigadeiro
Barreto, o jornalista Soares Lisboa (redator- proprietrio do Correio do
Rio), o Dr. Costa carvalho, o Coronal Francisco Incio, o Bispo D.
Mateus e, principalmente, o deputado Joaquim Gonalves Ledo, chefe
valoroso do partido constitucionalista, j no faziam mais sombra ao
prestgio andradino. Dominava soberanamente o Ministro na poltica dos
homens, enquanto sua Majestade imperava docemente na poltica das
mulheres.

O Andrada institura a lei de Saturno na terra de Santa Cruz; Imperador
levantara ao recndito dos lares o altar melfluo de cupido. Assim
discriminadas as atribuies, tudo parecia marchar de acordo com a
vontade andradina: cada qual com a sua inclinao. Um, devorava com os
decretos de encarceramento e exlio os homens de boa vontade; outro, com
a guitarra e as cantigas de amor, hauria o perfume dos laranjais
floridos de formosas Julietas. 

E os princpios liberais? E as garantias constitucionais, juradas pelo
Prncipe? Pura utopia. 

Jos Bonifcio, di- lo Varnhagem, inaugurava deste modo, logo no
primeiro ms do Imprio, uma sistema inquisitorial que nem sequer tinha
estado em vigor no Rio de Janeiro durante os treze anos de regime
absoluto que findara em 23 de Fevereiro do ano precedente (1821). 

Assim correria sempre o tempo se no fossem as diabruras de amor de D.
Pedro. Sem os percalos do leme da Poltica que parecia impertinente e
aborrecida para os ardores sangneos de um jovem de 20 anos, bonito e
elegante, audaz e querido, certo tudo iria s mil maravilhas. 

Porm D. Pedro apaixonou- se doidamente pela paulista Domitila de
Castro, jovem separada do marido e de beleza fascinante - timos
predicados, no conceito dum Prncipe amoroso. 

O Dr. Costa Carvalho, baiano matreiro, resolveu tirar partido de fato e
com essa arma mais poderosa que o alfanje agareno - a meiguice
sorridente duma mulher bonita, - ideou desmoronar o poderio andradino,
alicerado no grande respeito que o monarca tinha pelo velho Ministro. 

Essa habilidade incomparvel de politicar, inata nos que nascem nas
plagas do vatap e da moqueca, era em Costa Carvalho centuplicada pelo
dio imenso quele que ousara deport- lo de S. Paulo. 

Se Costa Carvalho bem ideou o seu plano de combate, melhor o executou.
Em pouco tempo, residindo ocultamente nas vizinhanas de Domitila, sem
ser descoberto pelo poderoso Ministro, o astuto baiano conseguira a
amizade da Julieta paulista, e freqentava assdua e secretamente a casa
da combora.

Diz a tradio que em conseqncia dessas visitas amistosas, o baiano
quase foi pilhado pelo Romeu imperial em flagrante delito de...
palestra.

Mais tarde, conhecidos os fatos (e o prprio Bonifcio deu- o a entender
em frase sibilina dirigida ao monarca) gente houve quer at na imprensa
assoalhou o dictrio popular que acusava o endiabrado bacharel baiano de
sacar a descoberto por conta da firma de Sua Majestade, tornandose,
portanto, seu scio, com direitos a lucros e perdas. Assim ou assado, o
caso  que quando Jos Bonifcio abriu os olhos, tinha diante de si um
abismo intransponvel, no qual fatalmente teria de cair. E caiu. Costa
Carvalho, s ocultas, formara um poderoso partido que girava em torno da
bela sereia de So Paulo. 

Era o "pompadourismo" no Brasil, inaugurado habilmente pela mo astuta
dum baiano com as cadeias sedosas e encantadoras da irresistvel
paulista. Com tal arquiteto e com tal matria prima, o novo partido
certamente havia de triunfar... e triunfou.

Enrodilhado pelas intrigas tecidas com muita arte pelo casal de
aventureiros ( a Domitila e o bacharel Costa) o Ministro muitas vezes
perdia a cabea.

Numerosas foram as vezes em que Bonifcio levava um decreto de nomeao
para um candidato seu, geralmente pessoa de mrito, e recebia ordem de o
inutilizar e fazer outro, porque Sua Majestade j prometera a Domitila
nomear um parente ou protegido da mulher amada. 

A audcia da combora foi tamanha que chegou a organizar no Rio um
batalho de paulistas, cuja oficialidade era gente que lhe obedeceria ao
menor aceno, fosse contra quem fosse. 

Dizia o povo ao v- lo passar, sempre com fardamento novo, garboso e
magnfico:

- " o batalho da Domitila"... Em 17 de Julho de 1823, pouco depois do
aparecimento de Vsper, o 

Ministro resolveu pr as cartas na mesa e jogar o jogo franco, ganhasse
quem ganhasse.

O imperador estava quase bom de uma sova que tomara, com o conseqente
quebramento de duas costelas. O Ministro entrou. L estava no Palcio a
rival poltica, e "Pompadour" brasileira. 

Fora ela pedir clemncia  Sua Majestade para os presos e exilados
polticos.

Deu- se o choque que se tornara inevitvel. - "Conselheiro, lavre o
decreto de anistia para todos os paulistas e fluminenses que esto sendo
processados..."

Retorquiu o Ministro: - "Permita Vossa Majestade que lhe diga: Se
prometeu isso, fez mal. Vossa Majestade tem o direito de perdoar a
condenados e no de impedir s autoridades que cumpram o seu dever.
Quero e exijo que no me desprestigie... Depois de sobre eles
sentenciarem os juizes usar Vossa Majestade o direito que tem de
"perdoar".

Domitila, em uma sala vizinha, em frente a um grande espelho de
Florena, que lhe fronteava, revia- se, estudando o melhor sorriso para
o remate do duelo. E brincando com o seu lindo leque de marfim,
marchetado de ouro, antegozava o triunfo final.

Pedro I, que se recostava no leito, esperou o "sim" do Ministro. Aps um
silncio de minutos, em que sua alma de patriota se dilacerava de dor e
indignao por constatar a existncia do "pompadourismo" no Brasil, Jos
Bonifcio explodiu, no suportando mais a presso de sua clera: 

- "Senhor, estou cansado de aturar as intrigas de uma cortes. No
corao de Vossa Majestade deveria estar a sua esposa, santa e boa, e
no uma concussionria. Recuso e deponho nas mos de Vossa Majestade o
cargo de Ministro. Faa dele o que quiser".

Ainda malso da "sova" que lhe quebrara a costela, o jovem Imperador,
irado, contemplou fixamente o velho Ministro. 

Era um a encarnao da majestade do Amor, ofendido naquilo que tinha de
mais amado; era outro a realeza do carter de um patriota, ferido na sua
altivez.

Pedro I, ento, em soluos de furor, clamou: - "J lhe chamei em 30 de
Outubro do ano passado - meu amigo e agora... 

O Ministro Jos Bonifcio interrompeu: _ ... e agora quem me julga  a
minha conscincia e no Vossa Majestade..." 

O Imperador deu dois passos em direo do Ministro, e bem perto dele,
quase ao seu ouvido, murmurou: 

- "O que agora lhe salva a vida pelo insulto a essa mulher que amo,  a
sua velhice,  o seu grande patriotismo,  o devotamento que teve sempre
pelos meus e por mim".

Nessa noite, cabisbaixo, vencido, com duas rugas profundas na fronte
como a indicar a tormenta que se desencadeara naquele assombroso crebro
de sbio, Jos Bonifcio foi para casa. E ao descer a escadaria de S.
Cristvo encontrou- se com o seu amigo, o camareiro- mor Pedro Dias,
que assim o interpelou:

- "Ento, Sr. Ministro, o que houve?" - "Meu amigo, no sou Ministro,
nem o serei jamais. Perdi o Ministrio, mas ganhei a minha liberdade.
Para o Imperador mais valem os enleios de uma mulher bonita do que meus
conselhos; e para mim, tenho em melhor conta a satisfao do dever
cumprido do que os favores do monarca".

E partiu. 'Da escadaria do pao de So Cristvo, com os olhos o
camareiro Pedro Dias acompanhou o ex- ministro. Depois, quando ele
desaparecia, ao longe, nas alias do parque, murmurou para si mesmo,
meneando a cabea:

- "Ningum pode com o paulista". Pedro I estava em Porto Alegre, no Rio
Grande do Sul. Trs dias antes da morte da Imperatriz, achando- se  sua
cabeceira sua grande amiga Marquesa de Aguiar, disse- lhe D. Leopoldina
que sempre amara D. Pedro e sempre fora amada por ele. S a mocidade
impetuosa e desenvolvida pela descuidada educao moral dada pelos seus
professores e progenitores, o atirara  senda das paixes, excitado por
maus amigos, e desencaminhado do lar domstico por criaturas que talvez
tambm o amassem tanto como ela. Mas, acrescentou, com lgrimas nos
olhos, tudo isso lhe perdoava e sentia que ele ali no estivesse,
naqueles instantes ltimos de sua vida tormentosa. Concluiu recomendando
 amiga que dissesse  marquesa de Santos, a quem tanto D. Pedro amava,
procurasse corrigir os defeitos do imperador, dando- lhe bons conselhos.
E entre soluos, tomando

nas mos a linda cabecinha da duquesa de Gois, filha da marquesa e de
Pedro I, que fora visit- la, balbuciou, sincera e santa: 

- "Tu, Isabel, apesar de seres filha "dela", que tanto mal me fez, s
tambm filha "dele", e porisso eu te quero bem como se fosses minha
filha. Que deus te abenoe e te faa feliz". 

Este episdio tornou- se pblico e consternou sobremaneira a populao. 

A marques de Santos, sabendo do acontecido, quis fazer as pazes com a
imperatriz no seu leito de morte, e foi visit- la. J transpusera a
porta dos aposentos imperiais, quando a viu o marqus de Paranagu,
primeiroministro, que se achava junto ao leito. Rapidamente se voltou
para a entrada e indicando a sada do quarto disse categrico e
resoluto:

- "Saia, senhora duquesa. No consentirei que, com a sua presena
indesejada, insulte nos seus ltimos instantes de vida a minha
imperatriz. Respeite a morte daquela a quem no soube respeitar em
vida".

- "Ficarei aqui, respondeu arrogantemente D. Domitila. - No ficar. - E
se ficar? - Mandarei prend- la. Sou o primeiro- ministro do Imprio. -
E depois? - murmurou a formosa e afoita marquesa. - Depois? Antes que o
sr. D. Pedro regresse do Rio Grande, V. Excia. ser sumariamente
processada e condenada. Assim como o marques de Pombal mandou cortar a
cabea da marquesa de Tvora, com os seus quatro sculos de fidalguia,
somente porque desrespeitou a rainha de Portugal, eu, primeiro ministro
do Brasil, mandarei enforcar na praa pblica a senhora marquesa de
Santos, com os seus quatro anos de fidalguia, por ofender  minha
imperatriz agonizante. Saia, senhora, eu ordeno. Agora, quem manda aqui
sou eu".

A marquesa de Santos saiu; porm, quando, em 16 de Janeiro de 1827, D.
Pedro desembarcou no Rio, de regresso do Rio Grande, quem saiu do
ministrio foi o marqus.

Conta- se que o Ministro, interpelado pelo imperador, depois do seu
regresso, se teria coragem de enforcar a marquesa, caso ela no sasse
do quarto da Imperatriz, ele respondeu afirmativamente: 

- "Se no sasse seria presa e enforcada sumariamente por crime de lesa-
majestade".

D. Pedro, com aquele bom humor que jamais o deixava, retrucou
imediatamente:

- "E eu, no meu regresso, enforcaria sumariamente um Ministro por crime
de "lesa- beleza". 

Rindo, acrescentou: - "Agora, meu amigo, para que jamais aparea motivo
de perigo para o seu pescoo, eu o dispenso do ministrio. A um ministro
enforcado, eu prefiro um ministro esquecido..." 

De cabea erguida, nobre e hiertico, digno e orgulhoso, o marqus de
Paranagu olhou o imperador e saiu, entristecido por ver um chefe de
Estado preferir uma formosa mulher aos conselhos de um consciente
ministro.

Alis, era a eterna histria de Dalila e Sanso. E Pedro I costumava
dizer que se os reis governavam os povos, eram tambm governados por um
tirano implacvel: Sua Majestade o Amor... 

___ Fibra Paulista A histria de So Paulo  uma escola de civismo. A
se encontram, quer no domnio colonial, quer no monrquico ou no
republicano, figuras que se apresentam aureoladas por suas adamantinas
virtudes cvicas. Uma delas  o padre Diogo Antonio Feij. 

Nascido em Itu, conseqncia de um pecado amoroso, cresceu ouvindo a voz
de uma conscincia pura que lhe ensinara o caminho reto da nobreza dos
sentimentos. Mos misteriosas, quando ainda nos seus primeiros anos de
vida, o abandonaram  porta de uma criatura piedosa, que o acolheu e
criou. Quis voltar a sua alma para a Igreja, mas as contingncias do
tempo o atiraram ao vrtice da poltica tempestuosa dos primeiros anos
do Imprio, envolvendo- o na vida agitada dos partidos.

Escolhido pelos seus patrcios de So Paulo para os representar nas
Cortes de Lisboa, a se fez notar desde logo o fulgor de sua inteireza
moral, enfrentando, ao lado da figura homrica de Antonio Carlos, os
arreganhos de formidveis inimigos do Brasil, entre os quais dominava a
atroadora

eloquncia de Borges Carneiro, exigindo de D. Joo VI a recolonizao da
terra brasileira.

Proclamada a Independncia, Feij regressou ao amado torro natal, a
tradicional Itu, que o mandou para a Cmara dos Deputados do primeiro
reinado. Desavindo- se com os Andradas por questes de princpios,
contra esses temerosos patrcios sustentou uma luta sem trguas, ora
vencido, ora vencedor. Afinal, depois da abdicao do primeiro
Imperador, coube ao padre ituano a vez de guiar os destinos do Brasil.

Foi ministro em 1832, num perodo torvo, de revolues e levantes que
ameaavam submergir a nao no abismo da mais temerosa anarquia. 

O padre Feij, ministro da Justia, estudou a situao e verificou que
tudo resultava da indisciplina reinante nas fileiras dos corpos
militares que se achavam na Capital do Imprio. Essa indisciplina do
exrcito brasileiro constitua o terrvel pesadelo do governo. Era
mister um remdio que curasse o Brasil desses tumores malignos que lhe
septimicemiavam o organismo, dessas convulses e rebelies que se
sucediam, periodicamente, destruindo a seiva da nacionalidade, empecendo
a marcha do progresso e enegrecendo as pginas da nossa histria. E
ento o enfezado e franzino sacerdote de uma aldeia paulista, guindado
pelas circunstncias polticas a curul ministerial, sugeriu ao regente a
audcia de um golpe decisivo e para isso em um ms apenas organizou a
guarda nacional, transformando todo o cidado em soldado da lei, e com
esse bando de civis armados e bons patriotas dissolveu o exrcito. 

Era 17 de Junho de 1831. A Regncia Trina tomou conta do Brasil, estando
convulsionado todo o pas em graves movimentos civis e militares. Porm,
na frente do governo se achava um general capaz de restabelecer a ordem
e um padre de frrea energia. Contrariando a vontade dos seus dois
companheiros de Regncia, (o marqus de Monte Alegre e o Dr. Joo
Brulio Moniz), o general Lima e Silva chamou para ministro da Justia o
padre paulista Diogo Antonio Feij e deu- lhe todo o apoio que carecia
para restabelecer a ordem. Quatro partidos polticos guerreavam- se
encarniadamente: o republicano, o moderado, o liberal intransigente e o
restaurador, apelidado o caramur. As tropas do Rio, agitadas pelos
demagogos, estavam positivamente indisciplinadas. S havia um remdio: a
sua dissoluo. Isso bem compreendeu a Regncia. O primeiro batalho que
se rebelou foi vencido e dissolvido. Assim se procedeu com os demais,

exceo feita a um, que at ento se mantivera com a lei: o Batalho de
Artilharia da Marinha, aquartelado na ilha das Cobras. Afinal, tambm
este se insurgiu. O padre Feij procurou imediatamente o general Lima e
Silva, chefe da Regncia e exps o caso: 

- "General, a Artilharia da Ilha das Cobras est revoltada. O ltimo
batalho que tnhamos est contra o Governo. Precisamos venc- lo e
dissolver o Exrcito".

Imperturbvel, o general Lima e Silva respondeu ao ministro: - "Forme a
Guarda Nacional, e com ela esmaguemos a revolta e dissolvamos o
Exrcito... E que cada patriota seja um soldado da Lei". 

E Feij, com paisanos armados e dispostos, organizou a ofensiva e venceu
a Revoluo, dissolvendo o Exrcito. 

E assim, a segunda Regncia, graas  energia do general Lima e Silva e
do Ministro da Justia, padre Feij, imps o respeito  Lei. 

Estava em cima o partido moderado, e em 24 de Setembro de 1834, quando
morreu o ex- imperador, desapareceu o partido caramur (ou dos
restauradores), que pretendia a volta de Pedro I ao trono do Brasil. Os
polticos deste partido, assim desarticulado, aderiram, na maior parte,
aos moderados, dando- lhes maior vigor. Em 1834 foi proclamado o "Ato
Adicional", que era uma reforma da Constituio. De acordo com essa
reforma constitucional deveria realizar- se em 7 de Abril de 1835 uma
eleio para o cargo de Regente do Imprio, pois a Regncia caberia
somente a uma pessoa.

Mas onde estava o grande paulista padre Feij? Retirado da poltica
ativa, recolhido  sua modesta casinha de So Paulo, desde o dia 26 de
Junho de 1832 deixara de ser Ministro da Justia. Dizia ele que o Brasil
jamais consentiria que quem quer que fosse dirigisse os seus destinos,
sem a isso ser chamado pelas leis, expresso de sua vontade. Ora, o
Senado era uma autoridade legislativa. De acordo com o seu princpio
poltico ele no podia ser ministro, desde que estivesse em antagonismo
com qualquer dos ramos legislativos - Cmara ou Senado. Esse
antagonismo, afinal, surgiu. No Senado cara o projeto da destituio do
tutor do imperador (somente pela maioria de um voto), apesar de aprovado
pela Cmara. Feij, porm, j tinha anunciado que o projeto passaria. E
diante dessa hostilidade do Senado, pediu demisso do cargo de Ministro 

da Justia. Instado para reconsiderar o seu ato, recusou- se
terminantemente, dizendo:

- "Sou filho de uma provncia onde se faz timbre de cumprir o que se
promete".

E no primeiro domingo de Agosto de 1832, um modesto viajante, levando
sua bagagem (duas canastras sobre um burro), acompanhava um tropeiro
paulista, cavalgando em direo de So Paulo. Era o padre Feij que
cumpria sua palavra, abandonando a Corte e o Ministrio. 

Esse padre ituano, que to bem representava a fibra dos bandeirantes,
retornando  sua terra natal, dela teve que sair para o Rio de Janeiro,
pouco tempo depois, eleito pelo voto de todos o Brasil para a governana
da ptria no cargo de Regente do Imprio. 

E quando governava, procurando com o seu pulso de ferro integrar a nao
no regime da ordem e do respeito ao poder constitudo, a revoluo
alteou o colo no sul, e ameaava as instituies. Enquanto isso, no Rio
de Janeiro, o povo rugia em manifestaes hostis ao governo. O padre
regente adoecera com gravidade. Entre os adversrios de Feij sobressaa
o Dr. Arajo Viana, no somente prestigiado pela simpatia popular como
tambm pela fora parlamentar, pois eram numerosos os seus amigos na
Cmara e no Senado. 

O regente reuniu os seus secretrios de governo, exps- lhes a situao
gravssima do pas e o estado precarssimo da sua sade, e para que se
evitasse a probabilidade de uma exploso de dios partidrios na capital
do Imprio e porque no queria governar contra a vontade do povo que o
elegera, resignava o seu mandato de regente do Imprio, entregando o
governo ao mais prestigioso e idneo dos seus adversrios, que era o Dr.
Arajo Lima, marqus de Sapuca.

Em seguida o voto de todo o Brasil, em uma eleio para Regente,
confirmou a escolha de Feij. E os paulistas do sculo XX consagraram
esse grande soldado da lei, esse padre de punhos de ferro que sabia
castigar e sabia transigir em benefcio da Ptria, na perenidade de um
monumento que, se ostenta na Praa da Liberdade, em So Paulo,
proclamando em Feij o valor de duas foras incontrastveis: o prestgio
da lei e a soberania da vontade popular. 

H na Histria republicana uma figura impressionante de apstolo: 

Prudente de Morais. No seu governo os dissdios partidrios atiraram
brasileiros contra brasileiros nos pampas do sul e nas serranias do
norte. Mas Prudente era um pacificador. Percebia- se na face do velho
piracicabano as agonias de um grande sofrimento: a dor cvica, a
angstia que atinge as almas privilegiadas dos que sabem sentir as
vibraes da Ptria e com ela sofrem na sua desventura.

Um dia, um desses deputados que se aperfeioaram na arte de agradar e se
fazem sentinelas da Vitria com as habilidades do trato, enganado sobre
a feio moral do advogado de Piracicaba, procurou- o no Palcio onde se
fazia um governo honesto e laborioso. Explodindo em satisfao comunicou
ao presidente que  tarde viria ele com uma multido de republicanos
ovacionar sua excelncia pela faustosa notcia de um combate feliz para
a legalidade nos sertes de Canudos. Para isso o aceitoso e trfego
deputado j havia requisitado algumas charangas militares e alvoroando
alguns cabos eleitorais visando o ajuntamento popular. 

Prudente de Morais, com o seu olhar de ao, contemplou por alguns
instantes aquela criatura que tanto se enganava a seu respeito, e
respondeu que ficava muito obrigado pela lembrana dessa manifestao,
porm, como simples cidado, no apreciava esses movimentos populares; e
como presidente da Repblica, sempre os proibia, mormente numa ocasio
em que nos sertes baianos lutavam e sofriam os soldados brasileiros. E
no seria assim com discursos laudatrios e msicas alegres que se
comemoraria um combate feliz para a legalidade, pois melhor seria que a
alma desse bom povo brasileiro se voltasse para Deus na grande splica
de uma paz imediata, sem dios nem vinganas. 

Essa frase, como outras, foram registradas por um dos mais brilhantes
jornalistas cariocas na primeira dcada republicana. 

A intriga, o dio, a ambio, combinados no satnico propsito da
conquista do mando atravs do sangue, resolveram destruir, num
monstruoso atentado, a vida do grande presidente. A conjura alapardou-
se, o boato avassalou a capital, e foi at os ouvidos do chefe da casa
militar, o ento coronel Luiz Mendes de Morais, que avisou o presidente
dos rumores surdos e sinistros que iam pela cidade.

Prudente de Morais, contudo, no se intimidou. Sorriu e calmo, impvido,
respondeu que iria dali a pouco ao Arsenal de Guerra assistir o 

desembarque das tropas no seu regresso de Canudos. No era ele o chefe
de estado, o generalssimo do Exrcito? O supremo magistrado da Nao
no devia, no podia, ser prisioneiro do medo, assustando- se com os
boatos dos desordeiros que se punham fora da lei. Iria ao Arsenal,
garantido pela tranqilidade de sua conscincia.

E foi. As previses realizaram- se. Verificou- se o atentado. O
anspeada Marcelino Bispo, instrumento de polticos apaixonados e sem
escrpulos, alvejou o presidente com uma arma de fogo. Os dois gatilhos
de uma grande garrucha caram sem a eficincia para a exploso. O
ministro da Guerra e o chefe da casa militar atiraram- se sobre o
agressor, que, j agora, de punhal, lacerava em golpes profundos os dois
hericos defensores de Prudente de Morais. Subjugado o revoltoso, do seu
atentado no resultara a morte premeditada do presidente, e sim a do
ministro da Guerra. Ento a cidade do rio se transformou num mar
escalpelado de boatos aterrorizantes. Dizia- se por toda a parte que o
atentado se repetiria se o presidente fosse ao enterro do seu ministro.
Os amigos, os parentes, os ministros, todos pediam e rogavam ao paulista
de Piracicaba que no fosse, que sua vida corria srio perigo, que a
fria homicida dos seus adversrios ainda no se saciara. 

- "No deve ir ao enterro", murmuravam todos ao seu lado. E eram vozes
amigas.

Prudente de Morais exasperou- se. Pediu que ningum mais lhe falasse
nesse assunto. Ento o seu ministro sacrificara a vida em sua defesa,
morrendo pela legalidade, e ele, o presidente, que em suas funes
encarnava a honra e a dignidade da Ptria poderia intimidar- se com
ameaas e boatos e dar ao pas o triste exemplo de um encarcerado moral?
Pois iria acompanhar o seu amigo e ministro at a sua derradeira morada,
confiando apenas na fora do seu civismo e na majestade da sua
conscincia. Se no tivera medo, dizia ele, quando no arsenal de guerra
contra sua pessoa se levantara a fria sanguinria de um assassino,
perverso e atrevido, no seria no enterro de seu ministro que lhe
faleceria a coragem cvica de quem sabe cumprir o seu dever. Pois
ficassem certos de que iria, houvesse o que houvesse.

E foi. Foi a p, de chapu na mo, no meio do povo, com seus ministros e
amigos. Mas a multido, em repeles e vai- e- vens, separou o velho
chefe de Estado dos seus ministros e amigos. Assim, sozinho, prosseguiu
a marcha, sereno e destemeroso, na majestosa impavidez de quem
representa a conscincia nacional. E bem a representava.

No cemitrio, quando o corpo do marechal descia para a cova, viu um
velho magro, alto, de barba grisalha e sobrecasaca, a pedir cortesmente
que lhe abrissem caminho at o tmulo. Era o presidente da repblica,
que se distanciara e procurava ver pela ltima vez quem morreu por ele.
Curvouse um pouco, e duas lgrimas rolaram pela face de bronze do
presidente, indo cair naquela terra que iria agasalhar para sempre o
marechal Bittencourt. Depois, soerguendo o corpo, Prudente virou- se
para a multido e ereto, firme, sereno e decisivo, procurou sair como
entrara: sozinho. A multido, eletrizada e muda, abria alas, como se
fora cortada por uma formidvel fora misteriosa. 

Durou instantes esse esfacelamento do povo. Em seguida explodiu um
impressionante cachoeirar de vozes humanas, vozear ensurdecedor e
tonitruante que parecia provir do prprio ventre da terra nas convulses
de um cataclismo.

- Que fora aquilo? Que fora aquilo, santo Deus?! Angustiados se
interrogavam os amigos do presidente. 

O velho piracicabano, ainda com o chapu na mo, sorria com aquele seu
caracterstico sorriso brotado da profundeza de sua conscincia v e
tranqila. E a multido se agitava ali, entre os tmulos, frentica,
entusiasmada, cada vez mais febril.

De repente, em cima de um sepulcro de mrmore branco, surgiu uma grande
figura negra, de cabea leonina, de olhos injetados. Duas mos escuras,
espalmadas, dominadoras, estenderam- se para a multido. 

Era o maior tribuno do Brasil, era o trovejante Jos do Patrocnio.
Diante dele passava o presidente da repblica e a um gesto seu calou- se
a multido.

Ento Patrocnio, em borbotes de eloquncia, falou: - "Parai a, Sr.
Presidente. Ainda estais ouvindo o eco dessas catadupas de aplausos que
se encapelaram de entusiasmo diante de vossa coragem cvica. Viestes
sozinho, sem pretorianos, porque confiastes na fora de vossa
conscincia tranqila e na grandeza de vossa alma de patriota to bem
compreendida por este povo generosos e bom, que  o brasileiro. Viestes
sem pretorianos e conquistastes a multido, esta multido que vos cerca
e que vos guarda, e que ainda h pouco explodia diante destas casinhas
brancas que escondem tantos mortos queridos e gloriosos, como que lhes
pedindo que tambm eles se levantem em aplausos e bnos, glorificando
o vosso

civismo, presidente. E aqui acabais de receber,  mestre da coragem
cvica e do patriotismo, a mais edificante e singular de todas as
manifestaes que nossa histria registra. Foi mais do que manifestao:
foi a convulso da alma nacional, alma que se atirou reverente,
balbuciante e conquistada aos ps do santo varo que acaba de inscrever
nas pginas da histria ptria e alti- eloquente lio de civismo,
ensinando atravs da sua coragem a fora indmita, incontrastvel e
soberana da lei, da justia e do direito..." 

Esse discurso, cujo princpio a est foi taquigrafado e publicado pelo
jornalista Ernesto Sena. 

A testemunha ocular desta apoteose ao velho e grande piracicabano, ao
fornecer os elementos para este captulo da Histria ptria, ainda se
comovia e vibrava de entusiasmo ao recordar o episdio. 

E Patrocnio, ao terminar o seu belo discurso, abraou o presidente e
beijou- lhe a mo, como se ali ele no fosse um simples homem, mas sim o
smbolo da conscincia nacional, a representao viva e palpitante da
prpria ptria.

Ao advogado de Piracicaba, que foi Prudente de Morais, sucedeu na
presidncia da repblica o advogado de Campinas, que foi Campos Sales,
cujo governo ocupou o quatrinio presidencial de 1898 a 1902. 

A guerra civil exaurira e esgotara o errio pblico no perodo anterior,
de tal modo que Campos Sales ficara no terrvel dilema de recorrer s
medidas extremas.

Consultado o Ministro da Fazenda, Joaquim Murtinho, este apresentou o
seu plano de majorao de impostos, dizendo ao Presidente: 

- "A est o dilema, Sr. Presidente: se V. Excia. aumentar os impostos,
perder a sua popularidade, mas salvar o Brasil da bancarrota. No h
por onde fugir: ou a amizade dos brasileiros ou a honra do Brasil,
pagando os compromissos da nao com o aumento dos impostos e neste caso
a odiosidade do povo cair sobre V. Excia."

Campos Sales, refletindo no seu olhar triste a angstia do patriota
diante de uma calamidade nacional, respondeu: 

- "Pouco importa a minha popularidade. Salvemos o Brasil da bancarrota.
Executarei o seu plano de majorao tributria, grite quem gritar,
acontea o que acontecer".

Os impostos foram aumentados. O povo, agitando- se, gritou. O comrcio
protestou veementemente e 

nomeou os seus representantes para se entenderem com Campos Sales. E os
lderes do Comrcio foram ao Catete, sendo logo recebidos pelo
presidente.

O advogado campineiro procurou convencer os reclamantes da necessidade
imperiosa da tributao majorada, como sendo o nico meio de salvar a
honra da ptria. O Tesouro precisava de dinheiro para no falir e donde
poderia tir- lo seno do povo, atravs dos impostos aumentados? 

Um dos componentes da comisso, chefe de uma das mais importantes casas
comerciais do Rio, obtemperou, com descortesia evidente: 

- "Por mais que V. Excia. argumente, ns no nos convencemos e no
concordamos com os impostos e contra eles protestamos agora e
protestaremos sempre. E saiba V. Excia. que o povo se revoltar ao nosso
lado contra esses impostos absurdos..."

Campos Sales, ento, perdeu a calma. Ergueu- se, indignado pela falta de
patriotismo daquela gente, e assim respondeu: 

- "Concordem ou no concordem, protestem ou no protestem, os impostos
esto decretados. No posso obrigar ningum a ser patriota, mas
obrigarei a todos a cumprirem a lei. E ser cumprida., haja o que
houver".

Em seguida, virou- lhes as costas e retirou- se da sala deixando- os
sozinhos e estatelados. 

E realmente foi cumprida a lei da majorao tributria, com o sacrifcio
da popularidade do presidente paulista, que suportou a odiosidade do
povo de sua ptria para salvar a honra do Brasil, evitando a bancarrota
da nao e o descrdito nacional.

Ao deixar o governo, o grande campineiro legava ao seu sucessor o
Tesouro cheio de milhares de contos e ao embarcar para So Paulo foi
vaiado na estao pelo povo que o odiava nessa ocasio. Enriquecendo o
tesouro, perdeu a popularidade, e morreu pobre. 

Campos Sales passou o governo da repblica a Rodrigues Alves, em 15 de
Novembro de 1902. Este dirigiu o pas at 15 de Novembro de 1906.
Encontrando o tesouro folgado, resolveu acabar com a febre amarela no
Rio e remodelar a capital do Brasil. Com este fim, chamou para seus
colaboradores homens de grande valor: o engenheiro Francisco Pereira
Passos e o mdico Osvaldo Cruz. Ao engenheiro entregou a Prefeitura; ao
mdico, a Higiene.

Do trabalho desses dois homens notveis o Brasil inteiro tem
conhecimento. Venera- os como glrias nacionais. O Rio era uma cidade 

feia, de ruas imundas e estreitas. O prefeito mandou fazer lindas
avenidas, belos parques e formosos jardins. Por exemplo, a avenida Rio
Branco e a avenida Beira- Mar constituem hoje a maravilha dos que
visitam a capital de nossa ptria. O Rio era uma cidade temida pelos
estrangeiros e pelos prprios brasileiros. A, a febre amarela,
permanentemente, matava centenas e at milhares de criaturas. Os que iam
ao Rio fizessem o testamento. Era difcil escapar- se da febre amarela.
Osvaldo Cruz tomou medidas enrgicas e acabou com tal calamidade. O
engenheiro Passos derrubou pardieiros e fez palcios. Mas, para
conseguirem o que conseguiram, o Prefeito, o Diretor da Higiene e o
Governo foram obrigados a tomar medidas enrgicas. O povo gritou. Uma
parte do exrcito estava descontente. E em 14 de Novembro de 1904
explodiu uma revoluo do povo e de parte das tropas. O general
Travassos assumiu o comando dos revoltosos, que marcharam para o Catete,
palcio do presidente. Os batalhes mandados pelo governo dispersaram-
se, covardemente, ao primeiro encontro. O general Piragibe, sem bon,
apareceu no Palcio, relatando o acontecido. Um ministro, ento,
aconselhou o presidente:

- "Vossa Excelncia devia recolher- se a um vaso de guerra. Os
revoltosos no devero tardar". 

- Eu no saio daqui. Aqui  o meu lugar, respondeu Rodrigues Alves. E
ficou, salvando a honra do Governo e as gloriosas tradies da coragem
dos bandeirantes.

___ O Direito de Gritar 

H em toda a parte um grande desassossego moral. Clama- se contra a
deliqescncia dos costumes, investiga- se a origem do mal, e cada vez
mais a moralidade vai desaparecendo na vertigem da vida moderna. 

Conta um escritor russo que uma vez uma comisso de socialistas, desses
mesmos que ora dirigem os destinos dos "sovietes", procurou Tolstoi, o
velho retratista da alma humana, l em seu retiro de Yasnaia,
perguntandolhe qual a origem desse grande mal que se apoderara da gente
moscovita,

cujo carter se atrofiara na resignada obedincia aos ladres da
soberania nacional, aos cossacos bbados e inescrupulosos, aos senhores
do "cnute". E Tolstoi olhou de frente os sonhadores das reivindicaes
sociais na Rssia dos czares, detendo- se um instante. Depois falou: 

Um dia, na orla de uma floresta, junto de um regato cristalino,  sombra
de uma frondosa rvore, encontraram- se vrios animais, e discutiram a
origem do mal.

- Para ns, disse o leo, o mal vem da coragem. Vivemos felizes, na
plenitude da nossa realeza. Porm, quando encontramos os caadores, os
nossos plos se eriam, e rugimos, avanando, corajosamente, contra o
astucioso inimigo que nos espera de tocaia, seguro de sua pontaria. O
mal de nossa casta vem da coragem.

- Para ns, exclamou o veado, o mal vem do medo. O caador com a sua
matilha nos persegue, e embora velozes, invencveis na carreira, fugimos
desatinados, com as canelas enfraquecidas, inseguras, trmulas, sob o
domnio do pavor. E assim os ces nos alcanam. Para o nosso grei, o mal
vem do medo.

- Para ns, murmurou o pombo, o mal vem do amor. Quando arrulhamos
cheios de doura, esquecemo- nos do mundo e assim servimos de mira fcil
para a pontaria do caador. O mal vem do amor que nos domina e nos
empolga.

- Para ns, explicou a serpente, o mal vem do dio. No podemos ver o
homem. Se ele se aproxima, no fugimos. E raivosas, nos enrodilhamos e
esperamos a aproximao do inimigo. Cheias de veneno e de dio quase
sempre perecemos com a cabea esmagada pelo cajado do homem. E a est
donde vem o mal para as serpentes.

- Para ns, asseverou a raposa, o mal vem da rapinagem. Levadas por ela
vamos aos quintais furtar as aves dos poleiros, e a quase sempre nos
espera a dentua do co de fila. 

- Para ns, afirmou o co, o mal vem da fidelidade, que nos prende ao
homem, que quase sempre nos atira ossos e pontaps. E apesar disso somos
fiis, e da nossa fidelidade vem o nosso mal. 

- Para ns, disse o pavo, o mal vem da vaidade. Envaidecemo- nos e
abrimos o nosso leque, e ele revela o nosso esconderijo aos que nos
perseguem. Da o nosso mal.

- Para ns, falou o boi, o mal vem da humildade e da submisso. 

Somos grandes, somos fortes, somos formidveis, entretanto o homem nos
domina, nos prende na canga e quando no prestamos mais para o servio,
nos manda para o matadouro. O mal vem da submisso humilde. 

Nesse ponto da conversa o macaco tossiu e os circunstantes estremeceram,
inquirindo se vinha algum homem, inimigo comum de toda a bicharada. 

- Que era um amigo, respondeu o macaco, e apontou para um descampado.
Todos os bichos olharam e viram um lindo e luzidio tigre que se
aproximava tranqilamente, com as fauces e as garras tintas de sangue de
uma ovelha que ele acabava de devorar.

A bicharia silenciou. E o macaco esperou a aproximao do majestoso
felino. J o tigre estava reunido ao grupo, quando o quadrmano fez a
sua habitual careta e inquiriu:

- E vs, senhor tigre, que nos dizeis da origem do mal? E o tigre
estendeu- se ao solo, satisfeito, contente de sua vida e depois de
lamber a beiorra ensangentada, respondeu: 

- Pois, senhores, ns, os tigres, achamos que o mal vem do estmago.
Queremos ser camaradas amveis e teis, somos cheios de boas intenes,
temos d da fraqueza das ovelhinhas tenras e meigas; porm quando nos
aperta o estmago... somente cuidamos da barriga, e a barriga nos
governa e mata as nossas boas intenes. E porisso, somos odiados e
perseguidos pelos homens.

O macaco aplaudiu a explicao do tigre, concluindo: - A est, amigos,
a origem de todos os males da bicharada: "o estmago, o estmago
soberano que mata as boas intenes". 

Os soviticos que interpelaram Tolstoi, sorriram e compreenderam o
alcance da fbula.

Todos os que tm fora, todos os que tm inteligncia e valor, todas as
criaturas da terra, poderosas ou humildes, esto cheias de boas
intenes como o tigre. Mas, o diabo do estmago, quando aperta... adeus
boas intenes.

E assim, pois, a origem do mal est na prpria natureza que deu estmago
s criaturas. Quem est de barriga vazia, grita: quem est de barriga
cheia, mete o porrete; os que esto por baixo na vida acusam os que
esto repimpados no poleiro do poder e da riqueza. Os que se julgam
cordeiros, se fossem lobos, tambm aprenderiam a devorar.  da Histria
a

gritaria da oposio e o porrete do Governo. E assim enquanto houver
governos haver oposies:  o direito de gritar, o jus sperneandi ". 

___ A Nobreza do Primeiro Imprio 

Vtor Jacquemont, o clebre comissionado do Museu de Paris na ndia,
alm de obras cientficas de real valor, deixou uma correspondncia
particular, escrita em linguagem to vivaz, revelando casos to
interessantes, que, aps sua morte, em 1832, na cidade de Bombaim, foi
recolhida por seu amigo e admirador, o poeta Merime, e por ele
publicada.

O grande Cuvier incumbira- o de estudar a ndia e de ali colher
curiosidades para o Museu de Paris. Uma tempestade, porm, atirou para o
ocidente atlntico o sbio francs, e o veleiro em que viajava,
desarvorado, veio aproar costas brasileiras. Assim, esteve quase um ms
no Rio de Janeiro, onde fez relaes com o Imperador Pedro I, do qual
recebeu desagradvel impresso, bem como de toda a Corte.

Para ele, d. Pedro era um "almocreve coroado", retratando- o desta
forma:

- "Vou esta noite ver um animal extremamente raro na Amrica: um
Imperador. Assistirei ao mesmo tempo a uma representao da "Italiana in
Algeri", na pera, o que me proporcionar o ensejo de me avistar com
aquele hbil moo de estrebaria".

Isso em carta ao pai. Ao amigo Mareste contava o motivo porque o
Imperador era doido pela pera, cujos camarins visitava nos intervalos: 

- Ali est sempre porque alm das modistas francesas da rua do Ouvidor,
ainda se lhe oferecem todas as danarinas, coristas e comparsas e ele
apenas lhes paga o que valem: dez a vinte francos". 

Noutro passo retrata a moral dos cortesos: - "Ignoro se no Brasil o
"Dom" implica a traduo de nobreza daquele 

que o usa, mas parece- me que aqui todos o arvoram. Alis esto todos
perfeitamente aptos a serem feitos viscondes, marqueses, oficiais do
Pao. Recompensa o Imperador com tais ttulos e as honras a eles
inerentes, os servios administrativos que podem ter prestado ou a
complacncia para com a pessoa do monarca. Por exemplo, aqueles que lhe
entregam as mulheres legtimas, ou lhe arranjam amantes, ou lhe do
sociedade em seus amores, ou lhos cedem de todo, estes a tudo conseguem
chegar. Sob este ponto de vista so as velhas tradies monarquistas
todo poderosas no Brasil. Cada homem tem na sua baixeza uma ensancha de
fortuna que o acaso pode fazer frutificar. Basta para tanto que o
soberano o escolha para desposar uma rapariga grvida de sua majestade,
ou para traficar com o preo da mulher, comprando- a, ou antes,
alugando- a.

Estas promoes de burgueses que o Imperador de tempos a tempos eleva s
altas distines do Imprio, entre eles mantm grande emulao para
servirem, e entre os mais vis, bastante amor e uma ordem de coisas que
lhes pode redundar em brilhantes vantagens".

J nesse tempo os brasileiros amavam a moda de Paris e... as francesas.
 o sbio Jacquemont quem o relata nestes passos: 

- "E esses (os negociantes franceses) tem as suas elegantes casas de
negcio fortemente iluminadas, em frente a cujas vitrinas se embasbacam
os brasileiros, apinhados nos estreitos passeios (da rua do Ouvidor), em
xtase ante certas figuras parisienses..."

- "No Rio, ns (os franceses) sustentamos com grande vantagem os nossos
crditos de cabeleireiros e mestres de dana. A rua "Vivienne" desta
terra, que se chama "Rua do Ouvidor", est apinhada de modistas,
alfaiates e penteadores de Paris. As modistas so as hetairas do mais
alto coturno. Outorga- se o imperador a fantasia de pagar a quase todas,
e assim  que no rio de janeiro, graas a uma "regra de trs" sumamente
ridcula, pensa todo o mundo que todos os franceses so cabeleireiros e
todas as francesas... so "coquinhos".

Taunay, traduzindo e comentando essas apreciaes do naturalista
francs, exclama, cheio de patriotismo e amor ao passado de nossa gente:


- "No  coisa que muito honre a lealdade do viajante o furor, o
encarniamento com que agride exclusivamente, em bordoada de cego, o
povo a quem visitava, nas pginas destinadas  publicidade e 
divulgao universais por intermdio do rgo de um Instituto como o
Museu de Paris".

Entretanto, em que pese ao amor do ilustre historiador s cousas do
passado, a est uma fotografia muito verdadeira do primeiro Imperador e
da primeira nobreza de nossa terra. 

E tanto assim era que um dos nossos mais brilhantes historiadores
comentava com severidade, referindo- se a Pedro I: 

- "O cetro no lhe corrigiu os hbitos, e nem lhe ponderou no esprito a
responsabilidade da posio que ocupava. Continuou a ser o mesmo rapaz,
vivo, estouvado, desregrado e muito afeioado a relaes com gente de
baixa extrao. Os seus validos e mais ntimos amigos eram o Chalaa
(Francisco Gomes da Silva), mau oficial de ourives; o Joo Corbato,
exmoo de cozinha; e o barbeiro Plcido; e tal era o apego do Imperador
a esses e outros cortesos tirados da mais baixa regio social,
ignorantes e corruptos, seus alcoviteiros e comparsas de crapuloso
deboche, que mais tarde, para afastar o Chalaa da Corte, o marqus de
Barbacena s pde consegui- lo nomeando- o encarregado de negcios (ou
ministro plenipotencirio) em Npoles. O prprio Imperador arranjou- lhe
os preparativos de viagem; e, por ternura ou acinte ao Ministrio que o
nomeara, dava conta da solicitude com que ele mesmo preparava a bagagem,
provendo tudo com alfaias do Pao, e no esquecendo a frasqueira, por
ser o Chalaa grande consumidor de bebidas alcolicas". 

"Nada esqueceu (afirma Drumond) ao desvelo imperial e os dois validos, o
Chalaa e Joo da rocha Pinto, partiram enfim, objetos de ateno e
carinho do Imperador, levando em abundncia o suprfluo, alm do
necessrio, e os beijos e os abraos do amo que ficava saudoso e cheio
de tristezas".

E destarte, o Chalaa, aprendiz de ourives, e o clebre Joo Corbato,
ajudante de cozinheiro, partiram cheios de proventos, alfaias e crachs
de nobreza, como Ministros Plenipotencirios de Sua Majestade o Sr. D.
Pedro I, Imperador do Brasil.

Se quisessem os historiadores respingar a origem dos marqueses,
viscondes, bares e comendadores do primeiro Imprio, iriam encontrar
muita histria de alcova. Um exemplo entre os muitos: O Coronel Castro,
indo de S. Paulo  Corte, foi com sua filha solteira a um baile do Pao.
D. Pedro por ela se apaixonou, embora j se tivesse comborado com a
irm dessa moa, mulher separada do marido. Namorou- a, cantou- lhe na
janela aqueles seus versinhos prediletos:

Meu amor, meu grande amor, Sem ti no quero viver, Tua imagem  a meiga
flor, Que eu vivo a bem- querer. 

Das serenatas e choros amorosos  escada de Romeu, foi coisa de pouco
tempo. De pouco tempo tambm foi o casamento suntuoso da Julieta "pudica
e pura" com um certo criado do Pao, protegido do Imperador. 

Ao pai da moa isso valeu o ttulo de Visconde de Castro. E a jovem
recm- casada? Baronesa de Sorocaba... 

Tais as amostras dos titulares do primeiro Imprio: marqueses,
viscondes, bares, criaturas arrebanhadas entre arrieiros, barbeiros,
cantadores de modinhas e capangas. De vez em vez, saa gente boa, tirada
do alto.

Se assim era a verdade, por que censurar um grande sbio que viu tudo
isso no primeiro Imprio e isso contou em correspondncia privada ao pai
e ao amigo, correspondncia que no se destinava  publicao e s foi
publicada "post- mortem", graas  recordao amistosa de Merime? Pior
tm feito certos literatos e jornalistas europeus que aqui vem receber
dinheiro do tesouro e depois falam mal de ns, l fora. A
"correspondncia" de Joo Loureiro, redator do "Dirio Fluminense", e
"Les voyages au Brsil", de Beauville, fornecem episdios reveladores da
poca.

___ O cancro que matou o Imprio 

Esprito arguto e de uma habilidade sem par, o ministro Cotegipe tirou
Deodoro do Rio Grande do Sul, onde estava como chefe da regio militar e
vice- presidente da provncia. 

Chamou- o para o Rio. Deodoro veio, mas, contra a praxe at ento 

adotada, no visitou o presidente do Conselho, e, como um cartel de
desafio, convocou uma reunio militar, que teve lugar em 2 de Fevereiro
de 1887. Cerca de duzentos oficiais a estiveram e receberam Deodoro sob
uma catadupa de palmas.

Secretariado pelo coronel Simeo e tenente- coronel Madureira, tendo
tambm ao lado o republicano e positivista Benjamim Constant, Deodoro
abriu a sesso. Madureira leu quatro artigos de moo francamente
revolucionria, assinada por oficiais de terra e mar. Aprovada sob
aplausos, e sem discusso, Deodoro, confessando que ele e sua famlia
muito deviam ao imperador, ps- se  frente do Exrcito, e de cabea
levantada desafiou o governo, com palavras veementes. Em 5 de Fevereiro
de 1887 escreveu ao Imperador, transmitindo- lhe as queixas do Exrcito.
E terminava:

- "E, pois, Imperial Senhor, com o mais profundo respeito, venho em nome
da classe militar, ante V. M. e peo- lhe se digne atender  questo e
resolv- la com aquela inteireza e justia que preside a todos os atos
de V. M. I."

Essa carta, alis escrita em termos palacianos, ficou sem resposta. O
governo desprezava o Exrcito. Preparava- se para uma reao, da qual
seria a primeira vtima o mesmo Deodoro. 

Encorajado pelas manifestaes militares e civis de que era alvo no Rio
de Janeiro, cercado pelo apoio de toda a classe, Deodoro dirige- se
novamente ao imperador e diz- lhe que escolha: ou atenda  queixa do
exrcito, ou conceda a sua demisso de servios pblicos. Eis a carta: 

- "Rio, 12 de fevereiro de 1887. Senhor. - Eis- me ainda, e sempre com
mais profundo amor e respeito e a maior lealdade, ante o trono de V. M.
I., deprecando, por mim e pelos meus companheiros de armas, a justia
que nos falta. Atendei, Senhor! O que os militares pedem  to justo e
to pouco - o reparo de uma injustia que os afronta e vilipendia ao
vosso exrcito, ao exrcito a que pertence o vosso nclito genro, pois a
causa tem tanto de digna como de grave. E no somos ns os militares que
o sentimos; o povo tambm o compreende e, como que se associa ao nosso
desgosto. A causa  muito sria, senhor, e somente quem, por um lado no
tiver a intuio do brio e pundonor militar, e por outro quem no
cogitar das conseqncias a advir, pode encarar descuidado a tormenta
que se anuncia. Senhor, vosso ministro vos atraioa, pelo menos nesta
causa. Tem exasperado o exrcito e o provoca  reao. Eu, nascido e
criado, como todos os de minha famlia,

no mais acrisolado devotamento ao Imperador; eu que me prezo de ser
fiel, franco e leal, eu que altamente confio em V. M. Imperial, espero
de vs justia, essa justia que nos nega o secretrio de Estado de V.
M., nos negcios da guerra. Sinto- me receoso, pesaroso, de incorrer no
desagrado de V. M.; mas, Senhor, a ser negada a justia, terei vergonha
da farda que visto, eu que me orgulho de pertencer ao exrcito, e nesse
caso, ser uma verdadeira graa, Senhor, a minha exonerao do servio.
De V. M. Imperial, sdito reverente. - Manuel Deodoro da Fonseca".

O imperador no respondeu. Cotegipe, no senado, pediu, com energia,
represlias que abafassem a indisciplina. Foi ento que o senador
visconde de Pelotas, glorioso vencedor de Cerro Cor, pediu a palavra e
com a maior sinceridade disse que se jogava na questo a prpria
dinastia imperial, o trono.

Riu- se Cotegipe, e Pelotas, solenemente, se ergueu, olhou com olhares
acerados o ministro afoito e disse: 

- "O nobre presidente do conselho terminou rindo- se, e o seu riso me
contristou. Ns estamos atravessando um momento grave, e, S. Excia. no
lhe d importncia. Confiado no seu valor, porque j nos disse que no
tinha medo, deixa- nos cheios de apreenses e de receios. Um de ns dois
est inteiramente iludido nesta questo. Declaro com toda franqueza que
queria ser eu o enganado. Peo encarecidamente ao nobre presidente do
conselho que reconsidere o seu ato, por amor a este pas, no por
satisfao a mim que pouco ou nada valho. Se no o fizer, no sabemos o
que poder acontecer amanh, apesar de confiar o nobre presidente na
fora armada que tem s suas ordens. Tais sero as circunstncias, que
pode ser que ela falte".

Era a voz do exrcito que ainda tentava salvar o tono combalido. O
senador Gaspar da Silveira Martins tomou, ento a palavra e enfrentou
com vantagem a dialtica de Cotegipe. Terminou apresentando a clebre
moo convidando o governo para declarar sem efeito a repreenso
dirigida aos oficiais pelo ministro da Guerra. Aprovada, aceitou- a
Cotegipe, "com alguns arranhes em sua dignidade", disse ele.

Em fins de fevereiro de 1888 surge nova questo. O governo preparava uma
acintosa fora policial para enfrentar o Exrcito e a Marinha. Em certa
ocasio, um oficial da Marinha foi preso pelos soldados de polcia, e
por estes barbaramente espancado. Surgiu uma questo gravssima. A
Marinha quis um desagravo. Nas ruas do Rio de

Janeiro os marinheiros e os policiais atiravam- se valentemente uns
contra os outros, como chacais enfurecidos. AS oficialidade naval
reuniu- se e resolveu representar coletivamente  princesa regente. O
ajudante- general da Marinha proibiu tal representao, ameaando com
penas severssimas os subscritores. Esse ato acabou de destruir as
ltimas simpatias da Armada brasileira pelo governo imperial.

Caiu o ministrio. Surgiu o gabinete de 10 de Maro. Novo incidente
militar, provocado em So Paulo pelo chefe de polcia, que penetrara,
sem as formalidades militares, no quartel do batalho 17.. 

O 17. foi removido para o Rio de uma forma inslita, e o chefe de
polcia demitido a bem do servio pblico. 

Temendo a presena de Deodoro na Corte, o governo delicadamente fez ver
ao velho soldado que havia perigo de uma guerra com a Bolvia, e
confiado sem eu valor, destacava- o para comandante da regio de Mato
Grosso. Era um pretexto, mas Deodoro fingiu no compreender. E foi. 

Impossibilitado de l continuar, pois a sua sade declinava aos poucos,
procurou voltar. Na sua ausncia o governo tomara todas as providncias
possveis para vencer o Exrcito, com a fora policial e com a Guarda
Nacional. Quando Deodoro regressou, j se achava em franca atividade o
gabinete de 7 de Junho de 1889, isto , o gabinete Ouro Preto. 

Afonso Celso, confiado em sua energia, enfrentou de viseira erguida o
Exrcito nacional. J ento alteava o colo, explorando habilmente o
descontentamento das classes militares, o arregimentado, mas fraco
partido republicano.

Advertido por um militar fiel dos manejos republicanos, respondeulhe o
ministro:

- "Os netos de nossos netos sero governados pelos netos dos netos de
sua majestade".

E riu- se, com desprezo. Aproximavam- se as eleies. Os 7. o , 8. o , e
9. o distritos eleitorais eram o reduto dos republicanos de So Paulo.
Por eles deveriam ser eleitos os dois chefes: Prudente de Morais e
Campos Sales. Mas o governo dera ordens terminantes para a vitria dos
monrquicos. E os dois candidatos da idia republicana foram batidos. 

Afonso celso, diz um historiador da Repblica, para conseguir o objetivo
traado, organizara seus planos visando a derrota dos candidatos
republicanos,

de modo que o partido republicano no pudesse ter um s rgo no
parlamento. Ao mesmo tempo premeditava a reorganizao da guarda
nacional, a fim de poder dispensar e dissolver o Exrcito. 

Medidas diversas confirmaram as intenes do ministro e atiraram ao
braos dos republicanos os militares perseguidos. Oficiais de grande
prestgio eram destacados para o norte longnquo e para o centro
inspito do pas. Latejou mais que nunca a questo militar. A casa de
Deodoro foi teatro de conspiraes. E essa questo militar que se
apresentava como um tumor maligno no corpo debilitado da dinastia
bragantina chegara ao estado resolutivo. 

Transformara- se em questo institucional. O trono era o inimigo comum
dos militares e dos republicanos. E na lei natural da defesa os
perseguidos se coligaram.

No dia 13 de Novembro o artigo de Rui no "Dirio de Notcias" intitulado
"Crime contra a nao", foi o toque de clarim anunciando a alvorada da
Repblica. Nesse mesmo dia,  noite, disse o conselheiro Rui Barbosa,
foi ele convidado para uma reunio na casa de Deodoro. 

L se combinou a proclamao da Repblica. A verdade, porm,  que quem
fez a Repblica foi a Questo Militar. E o chefe impvido do Exrcito,
nessa estrondosa luta entre a classe militar e o governo, foi
incontestavelmente Deodoro.

Confiado em foras que julgava fiis, Afonso celso afrontou o Exrcito.
O governo j estava advertido pela voz leal do general Cmara, visconde
de Pelotas. As foras poderiam faltar no momento oportuno. Dissera o
vencedor de Cerro- Cor: - Tais sero as circunstncias, que pode ser
que elas faltem.

E realmente faltaram. ___ Lies de tolerncia 

Quando, em Paris, Clemenceau escreveu o primeiro ataque contra o senador
Humbert, redator e proprietrio de "Le Journal", a opinio pblica, 

alvoroada, descreu da imputao gravssima atirada  face do mais
poderoso jornalista francs, que se fizera senador graas s colunas do
seu jornal.

O senador Humbert fora capito do exrcito francs, ajudante de ordens
do general Andr. Era maom graduado, sectarista vermelho, e no admitia
que um militar brioso pudesse assistir missas, porque, dizia ele com
desdm, o cristianismo era uma religio de escravos. 

Tipo consumado do arrivista, tinha a frase fcil, a ironia mordaz, o
sarcasmo causticante, a stira ferina, o aprumo do "gentleman". Era
tenaz instigador da maonaria francesa contra Foch e outros oficiais
catlicos. Certa vez, conta- nos um cronista parisiense, Foch, ento
major e professor da escola Militar de "Saint- Cyr", foi ao Ministrio
da Guerra. A estava Humbert.

- Ento, disse Humbert a Foch, ainda continua adepto do Cristo? E
ensinas teu credo de humildade aos teus alunos, futuros generais da
Frana?

O interpelado retorquiu, sereno e brando. - "O que ensino aos meus
alunos na escola Militar de "Saint- Cyr"  o meu credo de soldado, esse
mesmo credo que me diz que a Frana no ser salva na guerra pelos
capites de salo...

Humbert empalideceu com a resposta, e dentro de sua funo de militar-
burocrata, desde esse dia multiplicou as suas hostilidades contra o
ento modesto professor de aspirantes a oficial. Elegante, espirituoso,
inteligente, admiravelmente relacionado, no foi difcil a Humbert uma
reforma vantajosa. Fez- se jornalista e a pena deu- lhe uma cadeira no
Senado. Mos misteriosas puseram- lhe na carteira a quantia necessria
para, de parceria com o nababesco Bolo Pach, apoderar- se das aes do
"Le Journal". Os horizontes da poltica europia turvaram- se.
Movimentaram- se as florestas imensas de baionetas e explodiu a guerra
europia, incendiando de dio a velha Europa. Foch, o ex- major
professor de "Saint- Cyr", j era general. Caillaux dominava o cenrio
poltico e na imprensa pontificava Humbert. E enquanto a Frana se
esvaia em sangue, o "Le Journal" se tornara, impelido pelos
proprietrios, um lder do derrotismo, distilando o veneno do desnimo,
pregando a paz, que na ocasio seria a derrota.

Atarracado, hirsuto, feio e gordalhudo, destemido e implacvel,
Clemenceau, diretor do pequeno jornal "L'Homme Libre", pedia a
resistncia, a luta, o combate, mesmo com Paris nas mos do inimigo. 

- "Cumpre morrer ou vencer", gritava esse jornalista em resposta a 

Humbert, que proclamava: - "A Frana est sucumbindo.  preciso que se
faa a paz". Poincar refletiu. O alemo, tenaz e forte, estava plantado
em territrio francs. Fincara a as suas razes de ao. Era mistr
tambm uma vontade de ao para a expulso do inimigo. E o presidente
Poincar, acabrunhado pelos insucessos patrcios, olhou em torno de si
em demanda dessa vontade de ao que em servio da ptria lhe desse a
vitria almejada. Por ordem ministerial, a censura acorrentara o
"L'Homme Libre". E Clemenceau publicava ento o "L'Homme Enchain". 

Um dia foi parar nas mos de Joffre um nmero de "L'Homme Enchain".
Mesmo amordaado pela censura, ainda assim o jornalista gritava que
seria prefervel o arrasamento de toda a Frana, do que a paz com a
derrota...

Era um artigo magistral. E Joffre ps nas mos do presidente Poincar
essa labareda patritica, essa firmeza de vontade de vencer ou morrer. 

Poincar, que se vira atacado rudemente por Clemenceau quando foi da sua
eleio; que considerava como um dos seus inimigos pessoais e polticos
esse mdico panfletrio, derrubador de ministrios, batizado pelas
multides com o apelido de "O Tigre", tal a ferocidade de seus ataques;
que mandara soldados para as oficinas e um censor para a redao do
jornal desse temvel poltico adverso; Poincar que tudo isso fizera,
sentiu em sua alma de patriota que o patriotismo latejava na atitude de
Clemenceau e que o derrotismo mascarava a traio do senador Humbert, de
Bolo Pach e de Caillaux. 

Chamado para uma conferncia com o presidente, Clemenceau no se fez de
rogado. Foi. E frente  frente, olharam- se os dois inimigos pessoais,
durante minutos.

Falou o presidente: - "Sr. Clemenceau, tenho lido o seu jornal. Sua
vontade de ao, seu patriotismo, sua crena inabalvel na vitria final,
seu prestgio na alma das multides, tudo isso me convenceu de que ao
Sr. devo entregar os destinos da nossa Ptria. Mandei cham- lo para lhe
dar o Ministrio.

- "E V. Excia. entrega a direo da poltica francesa nestas horas de
angstia a um inimigo pessoal?" 

- "Entrego os destinos da Frana a um bom francs..." 

Clemenceau, o tigre famoso da poltica francesa, subiu ao pode. Os
traidores comparsas de Bolo Pach foram desmascarados e punidos. E esse
admirvel chefe de governo, to bem como Poincar, soube recalcar no
ntimo da sua alma as suas antipatias pessoais em favor da Frana.
Maom, livre pensador, desafeioado de Foch, mandou vir  sua presena
este general e deu- lhe o comando. E o general Foch comandou e venceu.

Belssima lio de tolerncia e de patriotismo! O presidente Poincar,
inimigo pessoal de Clemenceau, entregou- lhe a chefia do governo, porque
nele reconheceu qualidades para esse posto; Clemenceau, maom e livre
pensador, desafeioado de Foch, ultra- catlico, irmo de um jesuta,
pe nas mos desse general o basto de comandante do exrcito francs. E
ambos, Clemenceau e Foch, deram  Frana os louros da vitria e a
edificante afirmao de que no servio da Ptria desaparecem as
desafeies pessoais. Assim deveria ser sempre no Brasil em todos os
seus futuros governos. Que se amainem as tempestades de dios, que
desapaream todas as tricas pessoais, que se destruam antipatias ou
mgoas de indivduo para indivduo, que no servio da ptria todos sejam
brasileiros.

Como  belo esse exemplo de grandeza de alma, de abnegado patriotismo,
de sobranceria moral. De esquecimento de animosidades pessoais, de
aproveitamento de todas as melhores aptides, de tolerncia e de
transigncia!

O Imperador Pedro II, durante o seu longo reinado, nos deu exemplos de
tolerncia e patriotismo como esses que ora foram referidos. 

Um dia, visitando um grupo escolar, numa classe, num quadro negro,
fixada com o giz branco de uma professorinha graciosa, revelada tima
pintora naquele desenho singelo, vimos a figura de Pedro II. Ao lado
dessa, uma outra figura, bem diferente nas particularidades dos traos.
Era Deodoro, o proclamador da Repblica.

Em Pedro II o olhar era suave, a fisionomia bondosa, e essa inteligente
e graciosa mestra, a cuja aula framos assistir, parecia ter querido pr
naquele desenho, feito s pressas, sem pretenses de arte, um pedao de
sua alma pura de educadora. Impresso diferente desde logo resultava do
outro desenho: a figura de Deodoro da Fonseca. Com uns olhos de gavio,
com uma barba em leque semelhante a uma juba leonina sacudida pelo
siroco do deserto, nariz encurvado como se fora uma garra de felino, em
cima de uma boca de carniceiro, o conjunto era cruel. Desde logo se
percebia o contraste.

E a professora explicou suavemente, com a doura caracterstica dessas
adorveis criaturas, que so as andorinhas do ensino pblico: 

- Meninas, ali  esquerda, aquele velho de longas barbas brancas, de
olhar suave, de sobrecasaca preta,  o Imperador d. Pedro II. No lado
direito, o outro velho, de farda berrante, com o peito coberto de
crachs ou condecoraes, medalhas e berloques com que se enfeitam os
felizes triunfadores,  o marechal Deodoro da Fonseca, proclamador da
Repblica.

- Que fizeram eles, professora? - obtemperou uma vozinha cristalina, que
mais parecia um chilrear de passarinho. Falara uma linda criana loira,
de olhar azul.

E a professorinha respondeu: - D. Pedro era nosso imperador. Subiu ao
trono em 23 de Julho de 1840, com apenas 14 anos de idade. Governou o
Brasil at 15 de Novembro de 1889. Em quase meio sculo de governo, esse
nosso imperador sempre procedeu com bondade e justia, dando a todos os
patrcios o suave regime da liberdade. E justamente por isso, o povo
brasileiro suportou um reinado to longo. Vou contar alguns episdios da
vida desse benemrito brasileiro, cuja fisionomia bondosa as crianas
devem guardar com grande simpatia no corao, e cujo nome deve estar
sempre despertado na memria de todos os patriotas. 

Em 1873, o povo inteiro do Brasil se agitou num grande questo que
abalou a nossa nacionalidade. Os ministros do Imperador, que
representavam a fora do governo, desavieram- se com dois bispos,
ministros de Deus, que representavam a fora da religio. De um lado o
visconde do Rio Branco, gro- mestre da Maonaria; de outro, d. Vital de
Oliveira e d. Macedo Costa, respectivamente bispos de Olinda e do Par.

D. Pedro, como chefe de estado, no podia desautorar o ministro que
exigia dos bispos o cumprimento de disposies legais; como catlico,
no queria abandonar os bispos que se recusavam a obedecer o governo. E
ento? Mandou que se cumprisse a lei. E a lei arrastou para o banco dos
rus os dois representantes de Deus, num dos mais notveis e famosos
jris do nosso amado pas; e o jri, que o acaso fizera ser composto de
maioria de maons, condenou os bispos a trabalhos forados, como gals.
E assim se cumpriu a lei. Mas tambm era lei a clemncia do Imperador,
que tinha a prerrogativa, como ainda o tem o presidente da repblica, de
perdoar. E mandou o seu ministro que lavrasse o decreto de priso,
dizendo- lhes:

- "Como magistrado supremo da Nao, cumpri o meu dever, respeitando a
lei e fazendo- a respeitar; como Imperador, tenho o direito de
clemncia, e uso desse direito, perdoando aos bispos, porque sou
catlico"... E perdoou.

Anos depois, houve um concurso na escola Militar do Rio de Janeiro.
Havia dois candidatos. Um era inimigo da Monarquia e da religio do
Imperador. Chamava- se Benjamim Constant, o positivista e republicano. O
outro era um oficial catlico, irmo de um bispo, afilhado do monarca.
Este foi assistir ao concurso. O candidato oficial do governo fracassou.
Brilhante foi a prova do inimigo do governo que vivia a escrever e a
fazer discursos contra a monarquia. E d. Pedro resolveu nomear Benjamim
para o cargo de professor da escola Militar. Estatelado, perplexo, com a
pena imobilizada, o ministro no assinava o decreto. Como ? Seria
possvel to extravagante nomeao? Pois Sua majestade ignorara acaso
que aquele sujeitinho era inimigo do trono, das instituies monrquica
e catlica? Nomear- se Benjamim Constant? Um republicano... e ainda por
cima positivista.

Mas o imperador ordenou: - "Lavre o decreto, isso de idias, cada um tem
a que quer ter. No devemos fazer injustia a um homem porque no pensa
como ns. Benjamim fez a melhor prova do concurso. Ser nomeado". 

E nomeou. Fez mais ainda: convidou Benjamim Constant, que se revelara
professor inteligente e hbil, par dar aulas aos seus netos, os
prncipes filhos de Isabel, essa mesma que foi a redentora dos escravos.


Os olhinhos vivos e alegres da petizada fixavam- se cheios de amizade e
simpatia na efgie do velho Imperador. Uma dessas crianas, mais
trfega, mais irrequieta, avanou com uma pergunta. 

- E esse bom velho morreu governando o Brasil? - No, respondeu a linda
mestra. Houve uma revoluo chefiada pelo marechal Deodoro da Fonseca e
pelo professor Benjamim Constant, ambos protegidos pelo Imperador. A
revoluo venceu e o imperador foi preso com a sua famlia w com ela foi
expulso do Brasil para a Europa, deportado, assim como hoje o governo
faz para esses estrangeiros maus que perturbam e ameaam a nossa ordem e
o nosso progresso.

- E o governo teria dado dinheiro para esse bom velhinho ir embora de
sua terra?

- O governo ofereceu 5.000 contos, mas o imperador recusou. - E depois?
- depois o imperador, na Europa, teve muitas saudades do Brasil e para
ele, antes de morrer, escreveu esta poesia a que chamou "Terra do
Brasil":

Espavorida agita- se a criana, de noturnos fantasmas com receio, mas se
abrigo lhe d materno seio, fecha os doridos olhos e descansa. 

Perdida  para mim toda esperana, de volver ao Brasil: de l me veio Um
pugilo de terra; e nesta, creio, brando ser meu sono e sem tardana. 

Qual o infante a dormir em peito amigo, tristes sombras varrendo na
memria,  doce ptria, sonharei contigo. 

E entre vises de paz, de luz, de glria, sereno aguardarei no meu
jazigo, a justia de Deus na voz da Histria. 

Serenadas as palmas com que as mozinhas infantis premiaram a beleza e o
patriotismo do soneto, a professora continuou: 

- Em 1892, num modesto quarto de um hotel de Paris, foi morar o ex-
imperador. Levava consigo, num pequeno travesseiro, um punhado de terra
do Brasil. Falava que ao morrer queria que sua cabea repousasse sobre
aquele travesseirinho onde estava um punhado de terra de sua querida
ptria. E quando sentiu que ia morrer, pediu o travesseiro e com ele,
juntinho dos eu corao exalou o ltimo suspiro dizendo antes estas
palavras, que foram o seu ltimo pensamento: 

- Nunca me esqueci do Brasil. Morro pensando nele: que Deus o proteja". 

A campainha deu sinal de fim de aula. amos sair quando se aproximou da
professora uma das crianas que mais se interessara pela histria e
disse:

- "Professora, na prxima aula ns no queremos ouvir a histria daquele
outro velho que tem medalhas no peito e cara de gavio". 

- Por que?  o marechal Deodoro... o imortal proclamador da Repblica. 

- Porque foi mau para o protetor dele, o bom D. Pedro II. Nesse instante
virei- me para o quadro negro. Na rapidez de um relmpago, uma outra
criana, com o seu lencinho de cores, esfregara a figura de Deodoro na
face, apagando nesse ponto os traos de giz, deixando apenas um marechal
sem cara.

A pequerrucha, na sua ingenuidade, pensara vingar assim o querido e
tolerante Imperador do Brasil. 

___ Risos de amante e lgrimas de esposa 

O Imperador, em 1826, se tornara profundamente impopular. Os corsrios
que sulcavam as guas brasileiras, aprisionando embarcaes com o nosso
pavilho, causavam srios prejuzos ao comrcio. 

O recrutamento em massa, feito violentamente, atirava a odiosidade das
famlias contra Sua Majestade. Os insucessos e derrotas infligidas pelos
uruguaios e argentinos contra as nossas tropas do sul, feriam a
susceptibilidade patritica do povo, que atribua tudo isso  inpcia do
general visconde de Barbacena, comandante em chefe do nosso exrcito em
operaes de guerra no sul. Afrouxara a campanha da Cisplatina, e o
territrio da provncia insurrecta estava em sua quase totalidade
dominada pelos uruguaios insurgentes e pelos seus aliados argentinos. Os
brasileiros, desanimados, ocupavam apenas uma estreita faixa que ia da
Colnia do Sacramento at Maldonado, includa a cidade de Montevidu. A
prpria povoao de Maldonado, ponto estratgico de primeira ordem, j
tinha sido ocupada pelo caudilho Lavalleja, que dirigia, como
comandante, uma tropa

de 8.000 guerrilheiros. As guarnies brasileiras de "Ponta de Leste" e
da ilha de "Gorite", com o auxlio da marinhagem da nossa esquadra,
conseguiram recuperar a vila tomada, porm havia srios receios de novos
ataques. As tropas brasileiras acampavam em Bag e em Santana do
Livramento, com vrias divises de milicianos, espalhados
desordenadamente, mal disciplinados e mal armados, em So Borja,
Uruguaiana e proximidades do rio Guaraim. Os insurrectos da provncia
cisplatina e os seus amigos argentinos preparavam- se para uma ofensiva
decisiva, reorganizando e provendo as suas tropas. O caudilho Lavalleja
resolvera passar o comando do exrcito republicano ao general platino D.
Carlos de Alvear, que era ento o melhor cabo de guerra de Buenos Aires.
Esse novo comandante em chefe, assumindo o seu posto em Durasno,
transferiu o seu quartel- general para a vila de Pueblito, na margem do
rio Negro, avanando- o depois para Taquaremb- Guass. Naes
estrangeiras, como a Frana, os Estados Unidos e a Inglaterra favoreciam
visivelmente os inimigos do Brasil, com o qual provocavam incidentes
diplomticos, sujeitando- o a humilhaes, que irritavam o povo do Rio
de Janeiro.

Era essa a situao do pas quando o Imperador, ameaado de uma
revoluo republicana na prpria capital do Imprio, resolveu ir ao Rio
Grande do Sul para, pessoalmente, assumir a direo dessa guerra nefasta
e infeliz. Com esse fim mandou aprestar a corveta "D. Pedro" e mais seis
navios de guerra, guarnecidos de tropas e munies, determinando o dia
24 de Novembro de 1826 para a partida.

Chegou afinal o dia 24. O Imperador preparava- se para o embarque. Em S.
Cristvo estavam ao seu lado a Imperatriz Leopoldina e a primeira dama
do Pao, senhora Marquesa de Santos. D. Pedro despediu- se dos amigos e
dos filhos, abraou e beijou a esposa, que estava grvida, e ao se
dirigir  amante, disse- lhe qualquer coisa no ouvido, dito que provocou
na combora paulista um sorriso cascateante. A Imperatriz, que estava
lavada em pranto, revoltou- se e explodiu:

- Isto  demais! Esta mulher no respeita nem as minhas lgrimas. Eu vou
pr fora do Palcio esta sujeita atrevida. No posso mais... no posso
mais...

E avanou para D. Domitila. As duas mulheres, uma a esposa e outra a
amante, olharam- se de frente: Domitila calma e sorridente; a
imperatriz, irada e chorosa. Falou a esposa: 

- Eu sou a mulher de Pedro. Ele h de ser sempre meu, embora tu o
queiras roubar- me. Ele  meu, sabes? 

A Marquesa, com ar risonho, calmamente retrucou: - Majestade, eu apenas
sou a primeira dama do Pao. A gravidez de Vossa Alteza Imperial
perturba o seu esprito com esses delrios. 

D. Leopoldina no pode conter- se e esquecendo- se que ela era a
Imperatriz, que tinha diante de si a primeira dama do Pao, esbofeteou,
diante do prprio Imperador que se despedia, a mulher que a insultara
com o seu sarcasmo, e que lhe roubara o corao do esposo bem amado. 

D. Pedro brutal e raivoso, ao ouvir o estalido da bofetada que a sua
esposa aplicara nas lindas faces de D. Domitila, arremeteu contra a
Imperatriz, segurando- lhe os pulsos e gritando- lhe: 

- Pois fique sabendo, senhora D. Leopoldina, que essa mulher  me de
filhos meus e dona do meu corao. 

E atirou a esposa de bruos aos ps da primeira dama do Pao. A
Imperatriz, grvida e doente, que se levantara do leito para se despedir
do marido, ergueu- se e avanou para o Imperador. 

- Pedro, meu querido Pedro, por que me fizestes isso? Tenho sido to boa
para ti, e tens sido to mau para mim. E a culpada de tudo isso  essa
mulher perdida, essa mulher sem pudor e sem sentimentos que pusestes ao
meu lado como primeira dama do Pao. 

O Imperador, com aquela nova injria atirada  sua amante, enfureceuse,
ou na expresso de um diplomata desse tempo que se refere ao caso, se
desconcertou e, com um pontap no ventre da esposa, atirou- a de costas
no tapete. Dali a Imperatriz foi carregada para o seu leito, onde teve
um parto prematuro, de cujas conseqncias veio a morrer dias depois, em
princpios de dezembro.

E enquanto a esposa ficava nos seus aposentos, cheia de dores e de
lgrimas, D. Pedro carregava com a Marquesa de Santos at o cais, e ali,
em 24 de Novembro de 1826, dela se despedia com um apaixonado beijo,
deixando aos seus Ministros, especiais recomendaes de respeito e zelo
para com ela. E partiu para o sul.

Ao chegar em santa catarina no dia 29 de Novembro de 1826, lembrou- se,
cheio de remorsos, da boa e santa esposa, e cheio de amores saudosos, da
famosa Domitila.

E a ambas escreveu as seguintes cartas, na mesma hora, no mesmo 

lugar, e com a mesma pena, porm com sentimentos diferentes: 

( D. Domitila) 

s 5h 1/2 da tarde Sta. Catarina, 29/ 11/ 26 Minha querida filha e amiga
do meu corao. Neste momento fundeamos com muito boa viagem e com o
comboio todo junto ao largar ferro caiu um Pampeirete com trovoada, mas
fraca. Esta manh s 9 horas avistamos uma corveta com bandeira
francesa, demos- lhe caa por 2 horas e meia, e no entrando com ela
pois andava mais, voltamos a entrar com o Comboio. Mandei o Pssaro por
excelncia que  a fragata Isabel que tendo este nome no podia ser m e
anda muito, e tenho sobejas esperanas que seja agarrado o tal inimigo
que  uma linda corveta, e esteve to perto da nau como pode ser da tua
casa a ilha da Cachaa. Pretendo partir se Deus quiser depois de amanh
para o Rio Grande pois assim farei que com mais facilidade a tropa se v
incorporar ao Exrcito. No te posso minha filha explicar as acerbas
saudades que dilaceram o corao do teu constante, fiel e saudoso filho.
Nada mais digo seno que sou s teu, e do mesmo modo quer esteja no cu,
no inferno, ou no sei onde. Tu existes e existirs sempre em minha
lembrana, e no se passa um momento que meu corao me no doa de
saudades tuas, e da nossa querida Bela, em quem dars mil beijos e
abraos de minha parte. Recomenda- me  tua me, a Nh Cndida, e
acredita que sou o mesmo teu amante, filho, fiel, constante, desvelado,
agradecido e verdadeiro, e saudoso por estar de ti ausente.

O Imperador. 

( D. Leopoldina) 

s 5h 1/2 da tarde Sta. Catarina, 29/ 11/ 26 Minha querida Esposa do meu
corao. Agora neste momento fundeamos com muito boa viagem, e o comboio
todo junto, e ao largar ferro caiu um Pampeirete com trovoada mas fraca.
Esta manh s 9 horas avistamos uma corveta com bandeira francesa,
demoslhe caa por duas horas, e meia, e no entrando com ela pois ela
andava mais, voltamos a entrar com o comboio, e mandei o Pssaro por
excelncia que  a fragata Isabel que anda muito e tenho sobejas
esperanas que seja agarrado o tal amigo que  uma linda corveta.
Pretendo partir para o Rio Grande por ser assim mais conveniente para
fazer ir a tropa com brevidade para o Exrcito. Agora s me resta
patentear- lhe por este modo as acerbas saudades que tinha da Imperatriz
que pode contar que  amada do fundo do corao. Deste seu esposo amante
e saudoso.

O Imperador. P. S. - Abraos e beijos a todos os nossos queridos filhos,
e conte que quanto mais depressa eu puder l estarei. 

Ao ouvir, no seu leito de morte, a leitura da carta do esposo que
partira para a guerra, a Imperatriz Leopoldina, debulhada em lgrimas, e
apertando na sua a mo da amiga e confidente, a Marquesa de Aguiar,
disse- lhe:

- "Coitado do meu querido Pedro, ele se arrependeu do que me fez ao
partir e est se lembrando de mim. E eu vou morrer, minha doce amiga, e
vou morrer to longe dele e pensando sempre nele. E apesar de tudo o que
aconteceu, ele ainda continua a ser meu..." 

Do outro lado, no seu palcio, a marquesa de santos, sorridente e
alegre, beijava a carta em que o amante imperial pusera um pedao dos eu
corao apaixonado e murmurava para a me: 

- Est vendo, minha me, como o Imperador  todo meu?! E ambas no foram
sempre do Imperador; a esposa foi roubada pela morte e a amante... pelo
fastio.

___ 1 Os maiores inimigos dos escritores so os seus editores. Aqueles e
estes so como gatos e ces: mostram os dentes quando se encontram no
ajuste de contratos de livros. 

2 (Crnica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, ano de 1567,
pargrafo 116, pg. 63, livro III, vol. II, de autoria do padre Simo de
Vasconcelos, jesuta).

3 A palavra grosseira aqui repetida foi publicada assim numa pgina
maravilhosa de um livro de Victor Hugo. Copiamos tal e qual. Victor Hugo
 um gnio e se houver censura, atirem pedras no gnio... 

4 Essas laranjinhas de cera finssima encerravam perfumes. Eram pois as
avs dos lana- perfumes carnavalescos. Atiradas em algum, fendiam- se
e perfumavam o alvejado. Os maldosos enchiam as laranjinhas de gua
podre... e at de massa ftida e de lquido sado da bexiga. 

5 A carta da Imperatriz Amlia ao enteado e aos brasileiros, apareceu em
1831 impressa em vrios folhetos caramurus. Angliviel de Beaville
traduziu- a para o francs. A redao oferece diferena em dois textos
que tive nas mos. Supunha a princpio que o melhor fosse o de Paulo
Gomes, que serviu de modelo a Raffard; porm no folheto caramuru "O
grande imperador" veio publicada a carta tal qual a reproduzimos neste
conto.

6 Refere- se  esposa. 

7 Refere- se  D. Maria Leopoldina, imperatriz. 

8 Titilia  o apelido da Marques de Santos. 

9 Documento possudo pelo Dr. Joaquim Santana, que foi pupilo da
Condessa de Iguau, filha da Marquesa de Santos.

FIM DO LIVRO
